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segunda-feira, setembro 27

 

Sete lições de moral

Desde o início do ano lectivo já falhei duas semanas de escrita aqui na Terra. Para que não volte a acontecer, aqui fica a solene promessa de não faltar às próximas sete segundas-feiras de prosa. Apesar de se dizer que não está na moda, escreverei sete lições de moral. Com todas as letras: lições de moral. O melhor a fazer para afugentar leitores ou ouvintes é dizer que se vai falar de moral. De moral andam todos fartos. Isso acontece também por erro da Igreja, quando reduz a sua mensagem a um conjunto de preceitos ou quando confunde o apelo à vivência do Evangelho com uma lógica retribucionista e individualista de "salvação pessoal". Moral é a ética interiorizada. E como dizia Monsenhor Marc Stenger, a ética não é um conjunto de proibições: «A ética é a ciência do comportamento, a reflexão de um conjunto de princípios, de linhas de conduta que guiam a vida de uma pessoa. A ética não são princípios arbitrários, decididos do exterior, mas sim "algo" que nos põe a caminho do que já somos no mais fundo de nós mesmos, da nossa cultura, da nossa educação e da nossa fé. (...)
Uma nova concepção da ética parece-me um ponto importante para compreender a ética cristã. Muitos a consideram como uma "colecção de proibições": não se pode fazer isto nem aquilo, não à pílula, não ao preservativo, isto está mal, aquilo pior. Se esta é a ética cristã, então eu mesmo perco a vontade de ser cristão. Para o cristianismo, a ética não é uma colecção de coisas proibidas. A ética é uma expressão do que possuímos como bem próprio, do património que nos dá sentido, daquilo com o que estamos de acordo para a nossa vida. (...)
Creio que nos temos equivocado muito sobre o sentido da palavra "proibido". Nas nossas sociedades o proibido é o que não temos direito de fazer. E se o fazemos seremos castigados. Muito frequentemente entendeu-se a ética cristã desta maneira. Mesmo os padres e os bispos. Na ética cristã é proibido proibir. "Interdir" vem do latim "inter-dire", dizer entre pessoas, pôr-se de acordo, fazer um pacto. O proibido (interdito) é o objecto do pacto. Fazer um pacto para não pisar o risco é um pouco limitado, um pouco absurdo. Faz-se um pacto quando reconhecemos que temos as mesmas convicções fortes em comum, para não pôr a vida das pessoas em risco, para que os seus direitos sejam respeitados, para que egoísmo não tenha a última palavra. Mais que sair em cruzadas, devemos perguntar-nos quais são os valores que dão sentido, sobre os quais podemos fundar um pacto. Mas devemos ter em conta que não caminhamos segundo a nossa fantasia. Não inventamos uma ética de circunstância para que passe o mundo que queremos fazer passar». (1)


Assim, aqui fica a promessa de sete lições daquilo "que possuímos como bem próprio, do património que nos dá sentido, daquilo com o que estamos de acordo para a nossa vida". E se a parte da moral está explicada, porquê chamar-lhes lições? Essa também é uma palavra mal vista entre nós. Como já
aqui foi dito, a origem grega da palavra "ócio" é "escola". Assim, as sete lições não têm mais pretensão que a de ser um momento bem cheio de ócio. Não para entreter ou para passar os tempos livres. O ócio não é para os intervalos - é um estilo de vida. E afinal é precisamente disso que vou tentar falar.
Aqui nomeio então as próximas sete crónicas, as sete lições de moral que vos prometo: "A escuta", "O lugar do outro", "A complexidade", "A História nunca pode ser travada", "Desfragmentação do quotidiano", "As pedras hão-de gritar" e "Cidadania na Igreja". Os sete títulos não são meus. Roubo-os ao Luís Barbosa, que deles falou num testemunho da sua passagem pelo Movimento Católico de Estudantes (MCE), em Guimarães, no início de Setembro. Até para a semana.

Zé Filipe [
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(1) Desafios éticos: de uma perspectiva eclesial, intervenção na Sessão de Estudos dos Comités Internacionais da Juventude Estudantil Católica Internacional (JECI) e do Movimento Internacional de Estudantes Católicos (MIEC-Pax Romana): Ética e espiritualidade estudantil para reconstruir a utopia, Estrasburgo, Agosto 1999, tradução livre da versão espanhola.

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