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quarta-feira, setembro 15

 

Resquiat in pace

Hoje trago aqui um tema fúnebre, ou melhor, funerário. Foi bem curioso o recente episódio ocorrido com as exéquias do presidente do Tribunal Constitucional, Professor Nunes de Almeida. Estou convicto que as suas excepcionais e unanimemente reconhecidas qualidades humanas e profissionais terão contribuído para cobrir com algum recato e pudor aquilo que poderia ter-se transformado em mais uma daquelas usuais e inestéticas polémicas à portuguesa.
Vou tentar resumir a situação. Aquele homem excelente e quarta figura da hierarquia do Estado falece subita e inesperadamente em território espanhol. O Presidente da República decide e bem outorgar-lhe um funeral de Estado para o que requisita a basílica da Estrela, implicitamente reconhecida desde há anos como a capela mortuária do regime.
Até aí tudo normal. Acontece porém que o falecido era uma figura grada da Maçonaria, do ramo Grande Oriente Lusitano, e os seus irmãos decidem celebrar um qualquer rito fúnebre maçónico que, sendo secreto, foi realizado à porta fechada, exclusivamente para iniciados, em plena basílica, aparentemente sem conhecimento e autorização dos responsáveis daquele espaço religioso e católico. Este facto, inédito desde há mais de cem anos, provocou melindre na hierarquia da Igreja, que decidiu então não autorizar a celebração do rito católico no enterro daquele senhor. O inefável padre Melícias ainda leu um trecho do Evangelho mas o rito não foi celebrado, não sei se contra ou a favor da vontade da família do falecido (deduzo que contra pois já li anúncios da missa do sétimo dia).
Naturalmente, dado o enorme respeito suscitado pela figura do Professor Nunes de Almeida, o assunto foi referido nos jornais sem os expectáveis alardes de sensacionalismo. E não houve reacções de relevo, nem da Igreja nem da Maçonaria nem de mais ninguém. E é bom que assim seja pois seria triste que a vida deste homem, dominada pelo serviço à coisa pública, terminasse no meio da barulheira e do escândalo.

No entanto eu penso que esta ocorrência deve servir de tema de reflexão e ensinamentos. E a seu propósito que vou hoje falar. Vou falar pois da confusão que nesta sociedade cada vez mais laica existe ainda entre actos civis e religiosos. E que, para bem da dignidade do Estado e das pessoas bem como da genuidade da religião, deveria ser resolvida de uma vez por todas.
Não vou falar de baptismos, tantas vezes celebrados como simples festejo social de acolhimento a um recém-nascido, sem qualquer interiorização por parte dos envolvidos, pais e padrinhos, do seu significado sacramental. E não o faço pois o baptismo é um acto puramente voluntário e de significado puramente religioso.
Não vou falar também de casamentos, em que na maior partes das vezes acontece o mesmo que nos baptismos. E não o faço pois aí a alternativa puramente civil reveste-se hoje duma dignidade social e legal perfeitamente aceitável. Digo apenas que se eu fosse padre, provavalmente reencaminharia para o notário grande parte dos nubentes (feiíssima expressão) que me procurassem.
Mas a morte é uma coisa totalmente diferente. É um acontecimento inevitável e que envolve uma carga emocional muito mais forte. Ora acontece que, na minha modestíssima opinião, existe um problema por resolver em Portugal quanto às cerimónias fúnebres. E esse problema não é de hoje, existe há muito tempo, talvez pela compreensível razão de que a morte é algo de que ninguém gosta de pensar, nem mesmo o legislador.
O problema reside no seguinte. Não sendo a morte um sacramento religioso, não tendo a morte o mesmo significado para todos, crentes e não crentes, acontece que a morte é um acontecimento cujo impacto é de tal forma profundo que exige sempre uma forma qualquer de celebração funerária de homenagem ao defunto. E está aí o busílis da questão.
É que nem o Estado Português nem a dita sociedade civil, com a preguiça secular que os caracterizam a ambos de forma tão marcada, se dispuseram ainda, ao fim de 30 anos de secularização “oficial”, a criar condições aceitáveis para que não crentes e também crentes não católicos, possam ser homenageados condignamente pela sua família e amigos na altura da sua morte. E a Igreja Católica, naturalmente mas erradamente na minha opinião, continua a esperar amavelmente que venham ter com ela para que ela aceite oferecer um enterro cristão a cada falecido. Em tempos áridos e longínquos ela recusava a missa e mesmo o talhão a quem fosse ateu ou até não católico. Hoje, nestes tempos mais amáveis e democráticos, a Igreja dispõe-se a todos acolher e a todos enterrar com punção e rigor canónico. Direi mesmo que não são raros os membros do clero católico que tem especial gosto que assim seja...Já conheci dois ou três que diziam com um sorriso mal disfarçado que mesmo os ateus, quando lhes chegava a hora suprema, lá vinham eles ter ao regaço maternal e sempre disponível da Santa Madre Igreja...
Ora na minha opinião está mal que assim seja.
Está mal que o Estado, secular e civil, esse manso perdido, não tenha ainda criado infraestruturas que permitam aos não católicos, desde as grandes figuras públicas até aos mais anónimos cidadãos, serem homenageados e sepultados pelos seus de acordo com o rito que pretendam ou sem rito nenhum mas com a dignidade que a sua vida e a sua morte merecem.
E está mal também que a Igreja aceite receber esta responsabilidade do Estado aplicando exactamente a mesma receita que aplica aos fiéis defuntos, pensando talvez que traz assim de volta algumas ovelhas para o rebanho. Note-se que eu não estou a falar de cor. Já fui a bastantes funerais de pessoas de meios ateus ou completamente agnósticos e vi com pena uma expressão de mal-estar ou mesmo desprezo, perante um ritual e um discurso que aquela gente não entende nem aceita, numa altura em que o sentimento deveria ser unicamente de tristeza e solidariedade. Contrariamente ao que alguns pensam, não é nas sombrias e mórbidas capelas mortuárias que se recuperam fés perdidas, antes pelo contrário. Aliás, já que nisso falo, a Igreja também devia cuidar melhor dos seus fiéis defuntos. Sendo a morte um momento tão doloroso, algo que pode pôr e muitas vezes põe em causa a fé dos crentes, a Igreja devia colocar uma especial atenção na forma como recebe as almas dos seus filhos. Já aqui falei nas mórbidas, geladas, sujas e descuidadas capelas mortuárias das nossas Igrejas. Mas posso falar também das cerimónias, do velório, da missa de corpo presente, do enterro propriamente dito, tantas vezes celebrados dum modo tão impessoal e rotineiro que verdadeiramente chocam em vez de confortar. Quem escreve estas linhas teve nos últimos dois anos quatro falecimentos, tudo família próxima. Mas tivemos quase sempre sorte. Recordo-me do Pe. João Seabra lendo um trecho do Livro da Sabedoria e reflectindo como ele era tão pouco satisfatório para consolar aqueles pais que ali estavam. Recordo-me do Pe. José Manuel Pereira de Almeida a falar das lágrimas de Cristo pela morte do seu amigo Lázaro, aquele mesmo que Ele iria fazer ressuscitar. Mas nós tivemos sorte. Já vi muita coisa de arrepiar, muita coisa capaz de roubar a fé a bons crentes.

Que fazer então? Não sei, claro. Sou um simples leigo católico.
Mas, se olharmos para a catolicíssima Espanha, bem aqui ao lado, poderíamos talvez aprender algo com eles. Há coisa de uns quatro anos, faleceu o pai de um amigo meu, residentes ambos em Madrid, e fui lá ao funeral. O dito senhor, aliás um grande senhor, era completamente ateu (ao contrário do filho) além de maçon impenitente. Era também alguém de uma grande simplicidade e humanidade. Pelo caminho fui pensando como iria ser o funeral. Quando cheguei ao destino deparei com uma coisa chamada tanatório, um edifício baixo, amplo, moderníssimo, de tijolo burro, com numerosas câmaras mortuárias, simples e elegantes, sem sinais exteriores da sua finalidade, sem cruzes, coisa que me espantou. Lá dentro e depois de passar por várias câmaras onde se realizavam cerimónias católicas, cheguei finalmente à do Alfonso. Nela não haviam quaisquer sinais religiosos mas curiosamente o elogio fúnebre foi proferido por um padre, velho amigo do defunto. Falou emocionado e com simplicidade. E disse algo de que me lembro ainda hoje:
«Bem sei que nunca acreditaste no Deus em que eu tanto acredito. E penso hoje em porque nunca discutimos por causa disso, porque nunca te quis convencer, nem agora nos teus últimos dias. É que durante estes 40 anos sempre te vi como um sinal vivo do amor de Deus por mim e por todos. É por isso que hoje, e que me perdoe o meu bispo, não é por ti que rezo, nem tu o quererias. Rezo sim por mim e pelos teus filhos aqui ao meu lado. Para que um dia talvez nós nos reencontremos todos e para que, nesse dia, eu não te diga que eu sempre tinha razão, pois afinal que interessa isso de ter razão?»
No fim houve palmas, lágrimas e abraços e o homem foi a sepultar por entre o reavivado amor e o respeito de todos os que deixou. E eu, português entre espanhóis, banzado com aquilo tudo, fiquei a pensar que naquela gente toda que ali estava, os ateus não iriam ficar mais ateus do que já eram, mas que os católicos, esses sim, tiveram ali a sua fé satisfeita.
Era assim que as coisas deviam ser por aqui. Mas não o são, infelizmente.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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