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quarta-feira, setembro 22

 

A propósito da Providência

No apelo de alguns salmos, porque permitis isto Senhor ao meu povo e a mim, vejo a dificuldade de lidar com a noção de Providência, de penetrar nos mistérios do desígnio de Deus. A noção de Providência anda nos nossos tempos de férias. Raramente é evocada. Mesmo quando se dão cataclismos pessoais ou colectivos. Ninguém a usa para a explicar o dia do desemprego, como ninguém a usa para o 11 de Setembro ou para o Iraque a que Setembro deu origem. Não parece bem que Deus tenha semelhantes desígnios. Que nos Seus planos esteja o subsídio, os aviões ou as bombas.
Há no cristianismo algo de conformista. Isto, claro, se não estivermos a cortar os textos nos sítios onde nos convém. Uma das lições maiores de conformismo parece a lição que é dada em Lucas 3:13-14 aos soldados. Perguntam os soldados: o que havemos de fazer na nossa profissão? – Na resposta não vem um mudai de vida e deixai-vos de guerra, nem um continuai com a guerra, mas um simples não desejeis mais soldo. Não se proclama nenhum fervor pacifista, nem qualquer apelo bélico.
Contudo, este conformismo é – por paradoxal que pareça – um conformismo activo. Por exemplo, na conhecida história da mulher que pouco dando, dá mais do que os muito mais deram. À pobre mulher que dá apenas um soldo, Jesus não lhe diz para parar de dar, para não dar nada, porque pouco já ela tem. Louva o facto de ela dar o que pode.

De facto, se podemos pouco, a lição cristã é de que temos de potencializar o pouco que temos. O resto é com Deus… Contudo, perguntamo-nos vezes sem conta se este pouco que podemos e o muito que Deus pode não gera no mundo a injustiça. Se não devemos revoltar-nos contra ela. E assim, inquirimos o que andará Deus a fazer nos dias que antecedem e procedem do 11 de Setembro.
Não sabemos. E essa é a lição de Job. Mas dizer que não sabemos é de algum modo, curto e é também mentir. E essa é também a lição de Job.
Porque se não sabemos o que vai fazer Deus daqui a um pouco – e já agora, vai mesmo, porque Deus é presente e activo no mundo, não só mas também no milagre –, sabemos que sempre vai amar.
Contudo, se alguém perguntar onde está o amor em 11 de Setembro, e porque é que esse amor não se traduz no evitar que as torres caiam e que as crianças do Iraque sofram, ou se quisermos de um modo mais geral, porque não usa a omnipotência para acabar com o mal no mundo e para acabar no mundo com aqueles que no mundo fazem mal, voltamos novamente ao espanto – e por vezes à indignação de Job e dos salmos.
Até aqui, penso que não há novidade nenhuma. É corrente para muitos que a vontade de Deus é insondável e que não se traduz num transformar a terra no Paraíso. Ou se quisermos, que não se traduz hoje no acontecer hoje do Paraíso. Contudo, ainda assim qualquer coisa do Paraíso vem hoje até nós.

Se Jesus nos diz o que Deus nos quer dizer, diz-nos então que Deus não vai impor hoje o Paraíso pela força. Entretanto, se assim não o temos perto de nós, temos sempre qualquer coisa do Paraíso a brilhar em nós. Quer isto dizer que no meio de qualquer tormenta contemporânea e por maior que ela se apresente, se por um lado não é prometido que a tormenta acabe, é por outro prometido que a semente da paz – o amor – nunca naufragará no seu seio.
Dirão os mais cínicos Diz isso à criança queimada. Respondo: é mesmo isso que lhe é dito. Quando essas palavras se transformam em acções, nas faces que a televisão distorce, nas camas dos hospitais, há a certeza de que a paz não dorme. Nem morre. E isso é providencial.


Fernando Macedo [A BORDO]

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