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quarta-feira, setembro 15

 

Pecado original

Na composição do corpo humano entram os mesmos elementos químicos (em especial, oxigénio, hidrogénio, carbono, azoto, enxofre e fósforo) que compõem matérias inertes como os minerais, as rochas, a água e o ar.
Por sua vez, a análise química dos materiais biológicos conhecidos (efectuada a mais de 300 espécies do meio milhão de plantas conhecidas e de 200 espécies de animais das 3 milhões referenciadas) indica-nos que apenas onze elementos são predominantes (constituindo 99,9% do corpo humano, por exemplo) e que, entre esses, apenas quatro – oxigénio, carbono, hidrogénio e nitrogénio – representam 99% daquele total.
Partilhamos, assim, um vasto património com a matéria inerte e, ainda em maior grau, com as plantas e os animais. Neste domínio, a identidade humana ainda é mais diluída.
A ciência genética moderna oferece a pesquisadores uma nova ferramenta — baseada na semelhança do DNA — para estabelecer a relação entre as espécies, estabelecendo uma grande diferença em relação ao método tradicional de categorização com base na aparência, hábitos ou forma fóssil. Sabe-se hoje que o homem partilha 98% do código genético com os símios – e percentagens igualmente elevadas com outras espécies aparentemente muito distantes dos seres humanos. Recentemente, uma equipa de cientistas da Universidade de Wayne, em Detroit, que comparou 97 códigos genéticos de seis espécies (homem, chimpanzé, gorila, orangotango, rato e o chamado macaco do Velho Mundo), chegou a sugerir que o chimpanzé deveria ser incluído no mesmo género a que pertence a espécie humana, uma vez que está geneticamente mais próximo do homem do que do gorila ou outros símios. Esses pesquisadores afirmam que 99,4% do código genético do homem é igual ao do chimpanzé e ao do bonobo (conhecido como chimpanzé-anão) e que, portanto, estes deveriam fazer parte do género Hominidiae — o grupo taxonómico do reino animal do qual o homem faz parte.

Vem esta lenga-lenga a propósito da adjectivação quase unânime dos terroristas que sequestraram e mataram centenas de inocentes, entre eles muitas crianças, numa manifestação de ódio e violência pouco comum, numa escola em Beslan, na Rússia. “Não são gente”, “são uns animais”, em suma: “desumanos”. Como se nós (os "verdadeiros" seres humanos) estivéssemos mais distantes deles do que estamos do chimpanzé. Ora, esta rotulagem dos autores de actos de maldade, por mais bárbaros e cruéis que o sejam, tem o inconveniente não apenas de fazer esquecer as causas mais profundas que estão na origem dos actos de terrorismo ou dos crimes contra a humanidade, mas também de rejeitar a evidência de que a natureza humana é uma realidade complexa e que o bem e o mal fazem parte de nós.
Pacheco Pereira, em face de uma questão concreta (a beleza de uma obra de arte, o Requiem Alemão de Brahms), se perguntava: «quantos nazis, quantos torcionários, ouviram este Requiem com emoção, sentiram estas palavras, marteladas na nossa memória cristã desde a infância? Com genuína emoção? Certamente muitos». E acrescentava: «Há qualquer coisa de errado na feitura dos humanos. Um bug, uma linha solta do programa, mesmo no sítio mais crucial, não no logos, mas no ethos».
Apelidar de desumanas todas as manifestações do mal é remetê-lo para uma esfera externa à humanidade, como se nós fossemos o que na Idade Média se pensava que era toda a criação exterior ao nosso planeta: uma perfeição imaculada. Mas, tal como os representantes da Igreja se recusaram a olhar para o telescópio de Galileu que mostrava as imperfeição rugosa da Lua, hoje recusamo-nos a olhar para dentro da condição humana.

O bug de que fala Pacheco Pereira é aquilo a que os judeus e os cristãos chamam pecado original. Conhecemos (do latim connoscere = nascer com) o bem e o mal e sabemo-lo desde o início. Por que razão o queremos esquecer agora?

Carlos Cunha (
PARTÍCULAS ELEMENTARES)

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