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quarta-feira, setembro 8

 

A pata do urso

Com a memória no registo de férias do costume, e assim com a falta de identificação habitual, damos conta de três filmes que vimos antes de férias e que estão unidos unicamente pelo estrondo da ameaça. Um é o conhecido exorcista; o outro, o possuído; outro que toma na versão portuguesa o título de no limite. Ao contrário do que se poderia supor, leremos os dois primeiros em função do último.
A história do exorcista é conhecida. A história do possuído não precisa de muitos mais dados aqui, para ser também conhecida, porque vive da mesma trama. Por isso, poderíamos usar apenas um filme. Mas usamos os dois para realçar a constância do fenómeno.
Em ambos os filmes, um demónio toma conta do corpo de uma criança. Para acabar com a possessão, é chamado um padre. No exorcismo, o padre e o demónio tecem armas. O padre procura libertar a criança. O demónio tenta mantê-la na sua alçada. No fim, o padre é quem vence.

Conhecido o início e o fim da história, interessa então ver como corre o frente a frente. Para percebermos uma das estratégias preferenciais do conflito e uma das estratégias preferenciais do diabólico, o filme no limite, pela mão de um urso mostra como opera o diabo.
No limite, filme que comecei a ver quando a película ia a meio, fui confrontado com a seguinte situação. Um milionário norte-americano anda na companhia do amante de sua mulher a lutar pela sobrevivência nas montanhas inóspitas americanas. Mais adiante o filme dá conta de uma conspiração para acabar com a vida com o homem do dinheiro. No entanto, esta sai gorada, a sua mulher afinal ainda o ama, não podia deixar de o amar, o multimilionário é um bom homem. Mas antes, aparece um urso.
Enorme. Com umas paras enormes. Que confronta os dois homens.
O interessante no modo como o urso ataca os dois homens passa pelo enorme barulho que produz antes de tomar qualquer acção efectiva. Tal Tarzan, em versão Sepultura, bate com as patas frontais no peito, produzindo um ruído assustador, ao mesmo tempo que rosna.
Não tem nada do silêncio dos grandes felinos; mas muito do silvo agudo da serpente. Antes de tentar passar as unhas pelo pescoço dos homens, tenta imobilizá-los e hipnotizá-los… pelo medo; por isso, faz tudo para os atemorizar… O pensamento do urso é o seguinte. Se os conseguir amedrontar, fico com eles à minha disposição.

O diabo aprendeu com o urso. Ou o urso com o diabo. Para o caso, tanto faz. Também ele no exorcista, como no possuído, tudo faz para colocar o padre em estado de medo. E por isso afadiga-se nos gestos.
São vómitos de baba verde que faz sair da boca das crianças; sangue por lanhos na pele; guincha; dita às crianças os maiores insultos; nos momentos de pausa, obriga-os a pronunciar linguagem cavas e desconhecidas; entretanto, mexe anormalmente os objectos; põe os indefesos aos pulos na cama; quebra tigelas, sacode cortinados, rodopia o estrado da cama.
Tal como o urso, antes de se atirar aos homens, o diabo procura diminuir a capacidade do padre de reagir. Mas com melhor técnica do que o urso, procura fazê-lo não só por estes gestos exteriores, mas também – como se diz hoje – de modo psicológico. Aqui, a estratégia é curiosa – e muito mais haveria a dizer sobre ela.
De qualquer modo, fica apenas o seguinte apontamento. O diabo procura introduzir o medo no padre, obrigando-o a recordar os factos de maior dor na sua vida. E procura que o padre fique preso a essa memória.

Fernando Macedo (
A BORDO)

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