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quarta-feira, setembro 29

 

O meu Manifesto (1ª parte: porque não sou de esquerda)

Andava eu há que tempos para escrever este artigo. Aliás, há que tempos os meus amigos comunas residentes aqui na Terra da Alegria me desafiavam a escrevê-lo. Parece que é desta. E este artigo pretende, imodestamente, ser nada menos do que uma espécie de 25 de Novembro aqui na Terra. Pretende pôr termo a uma deriva totalitária de índole esquerdista que aqui se apropriou indevidamente da religiosidade cristã e pretende desapossar todo o restante espectro político da pretensão sequer de ter uma condição de verdadeiro catolicismo. Ora chegou finalmente a altura de tocar os sinos a rebate, reunir as mocas de Rio Maior, barricar a Nacional 1 e correr com os Camilos Mortáguas da herdade da Torre Bela. E trazer de novo este espaço, que se criou como sendo de diversidade, à normalidade democrática. Mas não se pense que pretendo dar cabos dos meus estimados comunas. Não senhor. Há em mim, digno sucessor do saudoso Jaime Neves, também uma costela de Melo Antunes que, pelo 4º ou 5º parágrafo, aparecerá melifluamente a dizer que eles também são indispensáveis ao projecto democrático em que se criou esta Terra. Vamos pois a isto. Que os chaimites avancem!

Agora que penso ter captado a atenção do nosso vasto auditório posso explicar então o que pretendo: demonstrar uma coisa simples, que a fé e prática cristãs não são coerentes apenas com a ideologia esquerdista, com a qual aliás me parecem ter pouco a ver.
Primeiramente, irei tentar demarcar terrenos e definir campos. Falemos um pouco da minha matriz ideológica. Se bem que eu possa ser chamado de direitista, gosto mais de me considerar como um conservador. Aliás penso que o carácter essencialmente definidor da direita é ou deve ser a atitude conservadora. Pois quanto ao resto, a natureza da direita manifesta-se mais por antítese da esquerda, a qual terá talvez uma estruturação ideológica mais marcada. Vou tentar explicar isto melhor. Eu sou conservador pela minha atitude de reserva face à mudança. Não a rejeito, pois o conservador costuma ser pragmático, mas como disse alguém (já não me lembro quem foi mas garanto que a frase não é minha), vejo as mudanças como sendo circunstâncias a que temos de nos acomodar. Isto é, a mudança é por mim vista sempre como um risco, podendo ser uma oportunidade mas continuando a ser sempre um risco que obriga a cautelas de análise, previsão e controle. Eu poderia dizer que fui assim educado mas devo confessar que, muito mais do que isso, tal atitude está-me mesmo na massa do sangue. Enquanto conservador, assustam-me as revoluções e as contra-revoluções. Prefiro a evolução na continuidade, esse termo tão vilipendiado. No limite, ainda aceito um golpe palaciano. Revoluções é que não. A pretexto de excelentes intenções, libertam forças incontroláveis até ao momento em que surge a habitual clique a controlá-las e a apossar-se delas. No que toca ao conservadorismo, fiquemos por aqui.
Pois há talvez algo mais intenso que alimenta a minha alma direitista: a rejeição epidérmica da prática, do discurso, do estilo, da retórica, da agenda esquerdista. Para mim, a esquerda nunca ficou tão bem definida como naquele filme do esquerdista Nanni Moretti, em que numa qualquer accção de massas alguém brada desesperado ao orador “mas diz-nos qualquer coisa de esquerda!” Costumo rever esta cena só para dizer ou pensar: mas que estupidez!... É que, ao contrário da direita, que honestamente penso que sabe muito melhor aquilo que não é do que aquilo que é, a esquerda usa e abusa dos códigos de auto-reconhecimento. Nos temas de conversa, nos gostos artísticos e culturais, no look, nos cavalos de batalha, etc. E depois possui uma consciência excessiva e irritante da sua superioridade moral, intelectual e cultural: há ainda aquela ideia estúpida que a cultura é só de esquerda! Recordo-me bem duma cena, há uma data de anos, num concerto do John Cale na Aula Magna, quando encontrei uns amigos, daqueles a tender para o comuna, que me disseram logo que me viram: “o que é que estás aqui a fazer, ó fascista? Vai mas é ver o Bryan Adams!”. Coitados, eu sei que eles não disseram aquilo por mal, mas fazia-lhes uma confusão do caraças ver que um gajo que andava então pelas caravanas do Freitas do Amaral pudesse também gostar de John Cale. Verdade seja dita que os meus outros amigos, os de direita, também não o percebiam mas isso era desculpável pela sua (minha, nossa!) inerente bronquice.
Parece-me pois haver na esquerda uma atitude de exclusivismo elitista, totalmente contraditória com os seus apregoados ideais de tolerância, solidariedade e diversidade. E também esse facto me afasta irremediavelmente dela. Por razões éticas e por razões estéticas.

Porém, antes de terminar a primeira parte deste artigo, tenho que dar o braço a torcer quanto aos meus amigos comunas aqui da Terra, o Carlos, o Timshel e o Miguel, pois o seu esquerdismo está muito longe de corresponder àquela atitude estereotipada, tão comum na esquerda e que tanto me afasta dela. Vou dar o exemplo do Carlos, pois foi o primeiro que conheci: acho extraordinária a forma como nele convivem as sua profundas convicções esquerdistas com posições completamente antagónicas às do estereótipo da sua família política – a sua forma de ser católico e ver a Igreja, a sua posição quanto ao aborto, etc. O mesmo posso dizer dos outros dois. E é por isso que eles merecem o meu respeito, para além da minha amizade.
Sendo assim, e em consideração a eles, terei de explicar bem melhor porque é que acho que a mensagem de Cristo é verdadeiramente supra-política, porque é que penso que a prática cristã transcende toda a ideologia. Ficará então para a próxima semana ou próximas semanas.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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