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quarta-feira, setembro 29

 

O Martelo de Aliocha

Em texto anterior e com a pata do urso, demos conta de uma das estratégias preferenciais do diabo: a imobilização; não através de chave de judo, nem de outra qualquer arte marcial, mas pela tentativa de fazer com que fiquemos agarrados às nossas recordações mais penosas.
Contudo, no passeio no passadiço das praias de Gaia, depois de nos esquecermos de agradecer ao Luís Filipe Menezes, a maresia, a praia e o sol, a verdade é que nos irritamos com os rapazes que da montanha circulavam de bicicleta em cima das traves de madeira com pequenas mochilas às costas. E não os desculpamos nem mesmo quando os vimos parados num bar a beber bebidas energéticas, com ar suado e feliz…
Muitas vezes, não sabemos nas festas concentrarmo-nos na festa. E como não sabemos, deixamos que nos irritem os comensais que comem de mais, os que falam e falam demasiado alto, os que se apalpam com propósito, ou aqueles que nos incomodam com propostas sucessivas para dançar. Assim, não estamos preparados nem para combater aquilo que o diabo nos pode levar a fazer, nem preparados para evitar o que nos pode impedir de andar fluidamente no caminho do bem.
Porque se quando ficamos presos à dor, fiquemos bloqueados, prontos para o medo, agarrados ao poder satânico, mas quando ficamos agarrados à alegria, ás recordações de alegria, ficamos prontos para desbloquear dificuldades e prontos para desentupir as veias e o colesterol que se atravessa no caminho do bem.
É uma lição repetida e geral. A ela se agarram os amantes quando a distância os separa. Agarram-se à memória do sol que entrou pela janela tornando transparente o local onde pela primeira vez deram as mãos. A ela se agarra a mãe, quando a criança sofre com dores de ouvidos ou problemas na escola, quando recorda a primeira vez que teve o filho no colo. A ela se agarram as nações quando o tempo presente desmente o tempo passado.
E isto sem qualquer pompa e em muitas circunstâncias. A nossa memória está cheia de pequenos nichos de alegria que usamos em caso de acidente. Contudo, por vezes em caso de emergência não é fácil quebrar o vidro. O martelo está lá, mas a nossa força é demasiado pequena para a espessura do vidro.
Por isso, na célebre reunião após a morte do pequeno amigo, e rodeado de pequenos amigos, Aliocha nos Irmãos Karamázov, recomendava: lembrem-se muitas vezes deste momento em que estivemos todos verdadeiramente juntos; será certamente uma das coisas mais ricas que tereis no futuro.
De facto, só quando deixamos impregnar a memória pelos momentos de alegria, a memória fica pronta para nos devolver a força necessária para empregar o martelo.

Fernando Macedo [
A BORDO]

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