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quarta-feira, setembro 29

 

O Deus da amnistia geral

Hoje em dia tendemos a afastar do horizonte do nosso olhar ou do pensamento todas as realidades desagradáveis, penosas ou incómodas. Vemos sem estremecer a morte anónima e distante nos telejornais, mas escondemos das crianças a morte concreta do vizinho ou do avô (por isso são tão raras as crianças nos funerais). Desviamos o olhar do sem-abrigo que se enrola no cobertor no vão do prédio e tentamos justificar para nós próprios as causas da sua condição. Chocamos-nos com as imagens de fetos abortados quando defendemos a banalização do aborto. Debatemos as guerras no conforto da ignorância consciente, porque não queremos saber que os soldados americanos no Iraque ouvem música rock veiculada pelos auscultadores do capacete enquanto disparam rajadas de metralhadora, para lhes dar o ambiente de jogo de computador.
Compreende-se. A vida é demasiado dura (e depois morre-se, como dizem os ingleses) para perdermos tempo com as agruras alheias e, além do mais, pensar incomoda como andar à chuva, como escreveu o Pessoa.
Mas, infelizmente, não é por ignorarmos a realidade que ela desaparece ou se modifica. Ora, o sofrimento – em especial, o sofrimento sem sentido, que aparentemente é desnecessário à redenção ou salvação – é um dos problemas teológicos basilares. A par, a necessidade de um equilíbrio compensador na vida eterna do sofrimento terreno é um dos pontos menos explorados da teologia (ou assim me parece, do alto da minha ignorância).
Por outro lado, a falta de reflexão sobre o Céu e o Inferno (sobre os quais quase há vergonha de falar, mesmo nos meios católicos) tem levado a um relativismo muito perigoso - e com consequências nefastas. O "fim do Inferno", por exemplo, em vez de ser libertador para o Homem, e portador de uma boa-nova de esperança, sem culpa e sem castigo, tem levado a que aceitemos (e a que pratiquemos?) o Mal com mais naturalidade do que devíamos. Pois, se Deus, na Sua infinita misericórdia nos ama tanto, não há-de condenar nenhum dos seus filhos ao fogo do Inferno. Somos todos chamados à grande ceia final na Sua presença. E, se não há Inferno, o Céu é um lugar onde todos cabem lado a lado. O São Francisco de Assis abraçado ao Pol Pot, a minha tia de mão dada com o Dr. Mengele, o Siddartha a brincar com Judas, etc.

O sentido de Justiça, impregnado no coração de cada homem, seria, então ultrapassado, revogado, eliminado, pela Amnistia Final que nos absolveria a todos por igual, numa espécie de tirania da Misericórdia divina, em que o Amor se impunha pela força e através do qual caducaria a responsabilidade de cada um. Não haveria Mal, nem pecado, nem necessidade de arrependimento e conversão, nem espaço para a Liberdade.
Está na moda esta visão pueril e cor-de-rosa de um Deus bonzinho e algo idiota, que brinca com os seus filhos, pelos quais não teria qualquer respeito. É a que nos agrada mais. É um Deus à nossa semelhança e do nosso tempo: um Deus infantil, irracional e que não quer ser incomodado com a realidade. Um Deus que escreveria torto por linhas direitas.

Carlos Cunha [PARTÍCULAS ELEMENTARES]

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