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quarta-feira, setembro 15

 

No rain, no rain

(Em tempos escrevi um post no meu blogue que, na altura, suponho que ninguém leu - e quem leu já se esqueceu dele. Num momento em que me falta, nomeadamente a inspiração, é a ocasião de ir ao baú das recordações buscar a tralha, limpá-la um pouco, colocar-lhe alguns enfeites novos e pô-la em cima do móvel)

Woodstock, 1969. Joe Cocker tinha acabado de cantar With a Little Help from My Friends. Começava uma tempestade. Passados poucos minutos chovia copiosamente.
Alguns começaram a gritar "No Rain, No Rain, No Rain". Dentro em breve algumas dezenas de milhares de pessoas gritavam "No Rain, No Rain, No Rain". Ou porque estivessem convencidas que a sua vontade, a vontade humana, poderia alterar a realidade (as leis ou os mecanismos automáticos intrínsecos a essa realidade) ou porque estivessem convencidas de persuadir a vontade divina a alterar a realidade, a essência daquele comportamento era mágico, isto é, irracional. Independentemente daquilo que cada um pensasse estar a fazer tratava-se de facto de uma oração colectiva. With a Little Help from My Friends.

A História está cheia deste tipo de voluntarismos irracionais.
Também está cheia de concepções automatistas da nossa existência individual e em sociedade.
Nestas concepções, o melhor que uma sociedade tem a fazer é deixar-se levar apenas pelos instintos dos indivíduos que a compõem. Tal como na selva, os mais fracos sucumbem e os mais fortes vencem e deste modo a espécie sairá reforçada. Os mais fracos não se devem apoiar porque conduzem ao enfraquecimento médio da espécie. Quando se apoia os mais fracos está-se a reforçar a fraqueza.
Não temos que parar à sua espera. O futuro está ali ao virar da esquina à espera dos mais fortes. Os mais fracos têm que ficar pelo caminho. Os mais fortes não têm culpa que eles sejam mais fracos. É assim a natureza.
Esta tese diz que a longo prazo é provável que todos sejamos mais felizes e tenhamos mais bem-estar se olharmos cada um apenas para os seus interesses pessoais. Segundo esta tese, é irrelevante que não saibamos nunca o que se vai passar no longo prazo, é irrelevante que a longo prazo estejamos todos mortos e é igualmente irrelevante, segundo esta tese, que alguns nunca cheguem a ver qualquer tipo de bem-estar porque outros apenas se preocuparam consigo próprios.

Existe contudo um certo tipo de "irracionalidade" que faz com certos seres se sacrifiquem pelos outros indo contra o seu instinto e contra todas as regras de sobrevivência individual ou da espécie.
"Irracionalidade" que faz com que sejamos solidários mesmo sabendo que essa solidariedade implica o nosso sacrifício sem qualquer tipo de recompensa a não ser podermo-nos olhar nos olhos todos os dias de manhã ao espelho. Mesmo que essa "irracionalidade" solidária se verifique em circunstâncias que possam implicar o nosso fim como indivíduos e como espécie.
Essa "irracionalidade" chama-se respeito pela dignidade da pessoa humana. Não pensa no longo prazo mas no instante único do outro que está com fome, com sede e sem amor já e agora. A este irmão de nada servirá um mecanismo automático de auto-regulação social que lhe diga que um eventual bem-estar chegará no longo prazo (porque ele nessa altura já estará morto).
Este tipo de irracionalidade perniciosa que considera a dignidade da pessoa humana, de toda e qualquer uma pessoa humana, aqui e agora, como um valor absoluto, axiomático, de contornos mágicos, é um fóssil ideológico que se formou há dois mil anos quando um louco furioso em vez de se dirigir à chuva, dirigiu-se ao Homem e começou a gritar "No Rain, No Rain, No Rain".


Timóteo Shel (TIMSHEL)

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