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quarta-feira, setembro 8

 

Na missa

Nota: a minha rentrée na Terra vai consistir numa série de banalidades sobre a cerimónia central da nossa fé. Nada de novo, portanto. Acontece que nestas férias, fartei-me de faltar à missa. Sem razão e mesmo sem pretexto. Isso irritou-me. Quis pois relembrar o sentido que ela tem para mim.

Costumo dizer que a missa serve sempre ao menos para escutarmos aí a palavra de Cristo. Para a esmagadora maioria dos católicos onde senão na missa estamos disponíveis para ouvir Cristo a falar-nos? Por muito soporífera que seja a liturgia, por muito inane que seja a homilia do padre, há na missa sempre aqueles minutos em que na leitura do Evangelho ouvimos de viva voz a voz de Cristo.
Vou então falar um pouco de missa e de mim na dita. Não esperem nada de transcendente pois da missa em si mesma pouco mais sei para além de onde é e a que horas costuma ser. A minha experiência pessoal será certamente semelhante à de muitos outros católicos. Bastantes vezes tenho uma real dificuldade em manter a minha atenção, a minha concentração por entre o decorrer da liturgia: na hermética 1ª leitura, na recitação de salmos que perderam para mim a sua inteligibilidade, no levantar e sentar e genuflectir, no Credo murmurado ou mesmo trauteado, e por aí fora. Perco-me também na vigilância da compostura dos meus filhos, na observação das proporções do templo, dos pormenores das imagens, das talhas ou dos vitrais. Perco-me e abstraio-me e a minha mente deriva por entre coisas mínimas. Sinto, aí mais do que em qualquer outro lugar, o meu corpo a queixar-se das costas ou dos pés. Contudo e ao invés, em certas igrejas e em certas missas, dou por mim a pasmar perante a beleza dum altar ou dum cântico mais límpido. Nessas alturas, sim, caio em mim e volto-me a sentir na presença de Deus. Isso também acontece às vezes perante a expressão que entrevejo em certos rostos. Uns reflectindo uma profunda paz, outros uma espantosa humildade. Mas logo aí começo a compará-los com outros rostos vizinhos, esses mais antipáticos, esses marcados por um rictus de severidade ou de orgulho ou de absoluta impassibilidade e, ao despertar da minha fácil embirração, perco logo o enlevo. E há, claro, também os padres. Também eles e as suas idiossincrasias me chamam e desviam a atenção. Um acento patusco, uma dificuldade nos rrr, uma vergonha de olhar a assembleia, um tique oratório, tudo isso me distrai do significado das palavras do oficiante, tanto mais quanto mais esforçado ele fôr.
E ao fim destes anos todos ainda não sei se para mim são melhores as liturgias mais sóbrias se aquelas mais festivas. Sei que há combinações de igreja+padre+assistência que são mais propícias para o meu proveito espiritual da missa mas não sei explicar bem quais são nem porque o são.


Contudo, e esse é o meu ponto, felizmente há quase sempre um momento da missa que me traz de novo à consciência de onde estou, da presença de Quem estou. Esse momento é evidentemente a leitura do Evangelho. Aí sim, salvo circunstâncias excepcionais, a minha atenção regressa toda ela à minha posse, pois sinto quase sempre, de forma quase física, que Cristo fala connosco, como há 2000 anos atrás.
Permitam-me apenas alguns exemplos que, domingo após domingo, me tem interpelado e perturbado e que me deixam sempre a impressão repentina de estar alguém a falar comigo, com aquele mesmo José que minutos antes vagueava bovinamente, perdido nos infindais. E que quando ouve dizer “Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo São...” desperta subitamente do seu torpor e sente sempre uma aguda expectativa quanto àquilo que irá ouvir em seguida. E quanto ao efeito que tal irá provocar-me.
Acontece isso quando ouço Jesus a dizer aos apóstolos “Porque não vos ides embora?” e escuto Pedro a responder “Para onde irei eu, se só tu tens palavras de vida eterna”. E quando ouço Tomé a peguntar a Jesus “Mas qual é esse caminho de que nos falas?” e Ele responde “Eu sou o Caminho a Verdade e a Vida, ninguém vem ao Pai senão por mim”. E quando ouço Jesus a rezar por nós todos os que viemos depois Dele: “Não rogo somente por vós, mas também por aqueles que pela vossa palavra hão de crer em mim. Para que todos sejam um, assim como o Pai está em mim e eu em Nele, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que Ele me enviou”. E em muitas outras ocasiões, todos os domingos, na missa, sobrepondo-se a tudo o resto que nela se passa, ritual, liturgia, homilia e tudo o mais. E no fim, durante a comunhão dos fiéis, que observo e em que de vez em quando participo, penso às vezes que a verdadeira transubstanciação se dá nas pessoas mesmas daqueles que ali estão e O escutaram, a Ele que quer ser Um com nós todos.
É isto, exactamente isto, que me faz ir à missa ou sentir falta dela quando não lá vou. Tudo o resto parece-me lateral. Deve ser por isso que sou ecuménico...

José (
GUIA DOS PERPLEXOS)

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