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quarta-feira, setembro 15

 

Mais um animal

Alguém me contou uma antiga historieta que mete Jesus e um cão. Jesus e os Seus discípulos iam por uma estrada poeirenta quando depararam com um cão. O cão era um animal sarnoso, de respiração pronta a dar o último suspiro. Antes disso, teve tempo para rosnar. Ao ver esta cena decadente, um dos Apóstolos disse: vê, Mestre, que cão tão feio!... Jesus deixou passar o rosnar e um pouco mais adiante, depois de deixar os discípulos recolherem o tempo necessário para interiorizarem uma lição de fealdade, disse ao discípulo que anteriormente falara: - reparaste na alvura dos dentes?
A moral desta pequena historieta é – penso eu – que temos por vezes que dar atenção à positividade da vida – que desgraça de expressão! – e desfavorecer os aspectos mais desgraçados. E que temos razões para isso. Contudo, como o ilustra este episódio, temos muita dificuldade de nos apercebermos da alvura e do que merece ser positivamente realçado.
Por isso, acho que uma das lições maiores do cristianismo é a ênfase na necessidade de descriminação. E esta é tanto mais necessária quanto o cristianismo ao contrário de maniqueísmo duros ou subtis, faz ver o mundo com uma mescla do bem e do mal. À tentação de criar duas zonas ontológicas, a zona do bem e a zona do mal, sejam elas situadas onde forem, o cristianismo diz numa mesma terra – a nossa – o bem e o mal, a mescla em cada um de nós e de vós.
Entretanto, como se propõe atingir e reconhecer o bem, obriga os seus filiados à afinação dos mecanismos de detecção do bem no seio do mal e do mal no seio do bem.
Por isso, deve indignar os cristãos o que recentemente se tem passado em alguns teatros de guerra. De facto, os teatros de guerra recentes têm por um lado mostrado uma tentativa de tornar confusos os mecanismos de descriminação. Nas guerras recentes, as forças ditas agressoras têm associado as acções militares às acções de ajuda humanitária. Com isso tem conseguido, como recentemente foi frisado pelos médicos sem fronteiras, que a acção dos voluntários humanitários perca a sua especificidade e sua diferença e que a acção humanitária tenha sido vista como mais uma vertente da acção militar.

Se um dos erros das forças ditas ocidentais tem sido este, o erro das forças ditas de resistência tem sido pura e simplesmente não fazer nenhuma descriminação. Tornam tudo indiferente, tudo é ocidental e opressor, e baseando-se nesta clareza tentam ganhar e ganham inimigos a quem abater é fácil. Socorrem-se da indistinção para ganharem alvos fáceis a abater e para cantarem pequenas vitórias.
Se uns e outros tentam a interrupção voluntária da descriminação, por aqui se vê, que os mecanismos de descriminação a que são obrigados os cristãos pela sua visão do mundo, tem toda a pertinência de ser. É o apagamento da lição cristã que tem levado a que diversas organizações não governamentais, a que diversas organizações humanitárias saiam de locais de onde nunca deveriam ter saído antes de executarem o que tinham para executar.


Fernando Macedo (A BORDO)

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