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segunda-feira, setembro 13

 

A Igreja e a mudança

Ouço frequentemente a acusação que a Igreja não gosta da mudança. Mais do que isso: "Ela não muda mesmo" - acusam-me - "a Igreja está parada no tempo". Eu costumo perguntar: "em relação a que tempo?". Se olharmos para os últimos 40 anos, a acusação terá alguma razão de ser. Não houve mudanças de fundo na Igreja desde o Concílio Vaticano II (1962-65). Eu e os meus acusadores temos memória de pouco mais de uma dezena anos, por isso condescendo e explico que a história dá muitas voltas - as mudanças que esses três anos de Concílio introduziram deram assunto para muitos livros. Se compararmos a Igreja de há cem anos com os dias de hoje, percebemos a dimensão da mudança. Além disso, desde o Concílio, houve gestos e momentos com uma novidade assinalável, o aprofundamento do diálogo inter-religioso, o Jubileu do ano 2000, o pedido de perdão pelos erros da Igreja. Normalmente esta lista não é suficiente para convencer os meus interlocutores e eu dou-lhes razão quando dizem que a Igreja precisa de reformas. Porém, se a maioria acha que evolução não é muito com a Igreja, tenho razões para crer que se aproximam tempos de alterações e novidade na comunidade católica que envolverão as restantes Igrejas e Religiões.

O primeiro sinal de mudança será a mudança de Papa. Já há alguns anos se vão fazendo prognósticos e falando nos papáveis. O pontificado de João Paulo II é já o segundo mais longo na história da Igreja. Não só por isso, mas sobretudo pela projecção mediática que teve e pela sua capacidade de manter a unidade da Igreja durante um tão longo período de tempo, o seu pontificado deixará marcas na história da comunidade cristã. Mas não é de balanços de pontificado que esta crónica reza, portanto avancemos. Quem vier a seguir terá pelas mãos uma tarefa enorme de per si, aumentada pelo facto de suceder a João Paulo II. Mas significará isso por si só uma mudança na Igreja? Um novo rosto terá que construir um novo estilo de papado. Esperemos que João XXIII inspire o sucessor de João Paulo II.
Se a mudança de papa é um aspecto visível de mudança, poderá não ser o mais significativo. Ainda dentro da Igreja, a uma escala mundial, outros factores estão já a introduzir alterações à orgânica da comunidade cristã. O crescimento da Igreja na América Latina, nos países da Europa de Leste, na África, na Ásia, darão uma nova face a esta porção da comunidade crente. A Igreja Católica está a deslocar-se para fora do seu berço.


Já no nosso Ocidente, surgem outros factores de mudança. A chamada "crise de vocações" é um claro sinal de que algo tem que mudar numa estrutura eclesial excessivamente clericalizada. No nosso país, onde a organização territorial da Igreja segue ainda um modelo paroquial importado dos meios rurais, a falta de padres é queixa constante de todos os responsáveis da Igreja. Mais útil do que lamúrias seria perceber o novo contexto social que motiva este fenómeno. Esta "crise" pode trazer algum ar fresco a uma Igreja com uma estrutura demasiado centrada no clero (desde há cerca de 1500 anos...).
Este é um sinal das muitas alterações sociais porque estamos a passar e que são, no fundo, a manifestação da passagem de uma cultura católica (catolicismo sociológico) a sociedades secularizadas. A nossa Igreja revela, aqui e ali, tiques de quem ainda tem que aprender a viver com isso (e como ela, alguns dos nossos comentadores que se apressam a dizer que a religião é uma questão exclusivamente do foro pessoal).
De uma forma mais caseira, também a Conferência Episcopal Portuguesa irá a sofrer alterações. Em mais ou menos cinco anos, dez novos bispos entrarão ao serviço da comunidade. Num país com vinte dioceses, esperemos que as dez caras novas tragam novidade.

Mas voltemos à escala global, para assinalar mais alguns sinais de que estamos à beira de tempos de mudança: o factor religioso voltou a estar na ordem do dia. E, infelizmente, de uma forma estrondosa e violenta. A forma como as religiões - sobretudo o Islão - lidarem com os extremismo e aprenderem a viver a laicidade em sociedades secularizadas, farão a diferença entre um mundo de novos 11 de Setembro e um mundo mais pacífico. A convivência das religiões marcará certamente o futuro da humanidade. As propostas éticas, assentes nos valores e património comum não só das religiões, mas também de movimentos humanistas, ecologistas, de promoção dos Direitos Humanos, poderão fazer muito pela subsistência do nosso planeta. A urgência trará a mudança.
De uma perspectiva económica, alterações poderão surgir como a Índia e a China a emergir como novos pólos económico-culturais. Que desafios trará uma cultura global com uma marca hindu, budista e confuciana tão fortes como hoje o é a americana? São questões com que a Igreja Católica terá que lidar e que trarão inevitavelmente a mudança.
Não tenho dúvidas de que hoje se justifica plenamente um novo Concílio. Nem tenho dúvidas de que ele já se justifica há alguns anos. Muitas movimentações dentro da própria Igreja têm servido para colocar essa discussão de lado (1). Mas o Espírito é mais forte que o conservadorismo. E a mudança já paira no ar...

Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)


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(1) a esse respeito aconselho a leitura deste artigo de frei Bento Domingues

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