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segunda-feira, setembro 20

 

Histórias de vida e alegria, nesta terra (#2)

Subia as escadas lentamente, de olhos no chão, quando cruzou comigo. Costumava vê-la por ali quase todos os dias, mas nunca passava do último banco. Sentava-se e ficava de olhar vago, fitando o Sacrário. Várias vezes dei comigo interrogando-me sobre os seus pensamentos e as suas orações. Eu reconheço que não tenho nada com isso, mas gostaria de perceber aquele olhar...
Desta vez olhou-me hesitante.
- Desculpe…
- Sim?
- Vai ali para aquela sala, atender os pobres?
Sorri. Ela conhecia-me. Talvez melhor do que eu a conhecia a ela...
- Vou para a sala, sim. Mas pobres não são só os que atendemos, somos todos nós. Ali partilhamos o que temos e recebemos o que nos trazem.
É de facto isso que pensamos, os que passamos ali algumas horas por semana, atendendo quem chega. Muitos imigrantes pedindo sapatos (há sempre quem dê uma peça de roupa mas sapatos não, contam) e comida “que não precise de fogão” que não têm; muitas pessoas pedindo para pagar a receita que já devia ter sido aviada, mas o subsídio ou a pensão não chega; muitas mães jovens desempregadas, que querem dar de comer aos filhos e a quem “a mercearia já não fia”; muitos idosos a quem é preciso ajudar a matar a solidão em que vivem…
Contei-lhe que a “sala” não era um serviço público; ali distribuíamos o que a comunidade oferecia. E confidenciei o que recebíamos em troca.
Primeiro olhou-me incrédula e depois, hesitante, perguntou porquê. Sim, porquê. Ela pensava que ali trabalhavam “assistentes sociais” e sabia que isso é um “emprego”, que essas “senhoras” costumam receber ordenado. Mas se não era um emprego, então éramos todas reformadas? Pela minha cara achava que eu ainda não tinha idade. E não trabalhávamos? Sim, claro que trabalhamos. Expliquei que alguns voluntários são de facto reformados, outros estudantes, mas a maior parte é gente comum que vive de outro trabalho e que ali só procuram a felicidade de fazer outros menos infelizes. Entretanto tínhamos chegada à “sala”. Sentamo-nos e recomeçou.
- A felicidade… - hesitou e continuou: houve um tempo em que eu era feliz. Pelo menos pensava que era. Talvez fosse. Depois o meu marido morreu. Custou-me muito, mas já me tinha habituado. Agora o meu rapaz…
A voz sumiu-se e as lágrimas brotaram. Encostei-me um pouco mais a ela, esperando que continuasse.
Eu pensava na minha mãe e no tempo que se seguiu à morte do meu irmão. Sei que a experiência da morte de um filho é inenarrável para a maior parte dos pais. O sentimento que sobrevém é o de viver um paradoxo que invade toda a existência: dos filhos espera-se que continuem a existência dos pais; não é suportável, por isso, que morram antes deles. Por que vivem agora os pais? Para quem vivem agora os pais? Não se é pai nem mãe sem a existência de um filho. Quem nunca o foi não poderá jamais compreender o drama de continuar a ser a mesma pessoa, sem poder sê-lo mais.
E continuou: - Não consigo entender... nada é como antes. A minha vida terminou. Há muito que a minha vida era ser a mãe do João. Ele tinha 23 anos. Quem sou eu agora? Para que vivo agora?
Trabalhando em pediatria já assisti e acompanhei alguns pais após a morte dos filhos. Alguns mudam completamente os seus hábitos e estilos de vida, as suas relações sociais alteram-se, desaparecem todas as razões de existir com o desaparecimento daquela que era a razão maior. Alguns adoecem irremediavelmente. Outros perdem fé e não perdoam a um Deus que acreditavam omnipotente e que lhe tirou o filho amado.
Olhou-me de novo e por entre as lágrimas vi a angústia de quem se encontra à beira do abismo.
E surgiu o lamento feito apelo: Diga-me, se tem fé: onde está Deus? Será que ele não vê o meu sofrimento?
- Eu acho… - hesitei, por minha vez.
O que posso dizer nestes momentos?
Eu acho que Ele chora connosco… - arrisquei.
Iniciamos então um caminho juntas. Hoje somos amigas. Ela é voluntária, partilha o seu tempo e a sua experiência; recebe muito daqueles que ajuda.
Antes, do último banco, os seus olhos fitavam o Sacrário como quem enfrentava um inimigo. Agora, caminha entre os bancos e vai confiante sentar-se no primeiro. Sabe que é amada, que Ele está com ela. Sabe que tem uma razão para viver.
Agora vejo os seus olhos sorrir e agradecer.


marvi [(IN)FIRMUS]

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