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quarta-feira, setembro 29

 

Eis como imagino Deus (2)

Na última semana deixei aqui um pequeno "jogo de salão" (na feliz expressão do José) relativamente ao qual não deixei a solução. É isso que passo agora a fazer.
Matematicamente é a segunda resposta que está correcta (ela era a resposta divina…): existem mais probabilidades de acertar na porta certa se mudarmos de escolha da porta «C» para a porta «A». Dizer que existem probabilidades idênticas de, após a intervenção divina, se escolher a porta certa de entre as portas «A» e «C» é a resposta mais comum. É a resposta intuitiva. Contudo, o que a nossa intuição, a intuição humana, nos diz neste caso, está errado. Jorge Buesco diz que quando este problema foi exposto a Paul Erdös, provavelmente o maior matemático do século XX, não só ele não chegou à solução correcta como durante vários dias se recusou a aceitá-la. Mais. Só se começou a convencer quando observou, experimentalmente, que era melhor trocar de portas. Trata-se de um fenómeno contra-intuitivo (uma inteligência artificial nunca cometeria este erro – eis mais um argumento no debate a que se dedica fundamentalmente a
Turing Machine.

Segue-se um excerto do artigo onde Jorge Buesco expôs este problema (originalmente eram cabras que se passeavam atrás das portas…).
«Marilyn escreve há mais de dez anos a pequena coluna semanal "Ask Marilyn
" na revista Parade sobre assuntos relacionados, indirectamente, com ciência. Na sua coluna de 9 de Setembro de 1990, em resposta a um leitor que lhe colocava o problema de Monty Hall, Marilyn afirmava ser preferível trocar de portas. Fazendo-o, a probabilidade de sucesso é 2/3. Mantendo a escolha inicial a probabilidade de sucesso é apenas 1/3.
Assim que publicou o seu artigo, Marilyn foi soterrada por cartas de leitores que discordavam, alguns dos quais matemáticos profissionais, e que sustentavam ambas as escolhas terem probabilidade de sucesso 50%. Em Dezembro de 1990 vê-se obrigada a voltar ao assunto, explicando melhor a solução e publicando excertos de cartas quase insultuosas.
Por exemplo, Robert Sachs, da George Mason University, escrevia: "
Como matemático profissional, estou muito preocupado com a falta de competências matemáticas da população em geral. Por favor admita o seu erro". E Scott Smith, da Universidade da Florida: "Você pôs a pata na poça em grande! Vou explicar: depois de o apresentador mostrar a cabra, você tem uma hipótese em duas de sucesso. Mudando de escolha ou não, as hipóteses são as mesmas. Já temos ignorância matemática que chegue neste país. Não precisamos que o maior QI do mundo propague mais. Que vergonha!
"
Depois de um terceiro artigo sobre o assunto e de milhares de cartas, das quais 90% era contra a sua resposta, o tom dos comentários tornou-se histérico, como o mostram afirmações como "Quantos matemáticos furiosos são precisos para você mudar de opinião ?" ou sugestões sarcásticas de que Marilyn era a cabra ou de que as mulheres não podem realmente compreender matemática.
Depois destas reacções inflamadas, vários artigos publicados em revistas de matemática com uma análise rigorosa ao problema mostraram aos incrédulos que Marilyn tinha mesmo razão. O raciocínio intuitivo é falacioso: vale a pena trocar de portas. Fazendo-o, a probabilidade de sucesso é 2/3. Não o fazendo, é apenas 1/3
».

Bem e que tem isto a ver com a existência de Deus?
A resposta é franca: nada. O meu texto era apenas uma brincadeira e não visava demonstrar a existência de Deus (Ele é, por definição, indemonstrável). Nem se pode tirar do problema tal como eu o coloquei nenhuma conclusão por analogia. De facto, contra uma abusiva conclusão por analogia que pretendesse extrair do texto a conclusão de que a intuição humana por si só não leva a lado nenhum poder-se-ia contra-argumentar que se é verdade que os nossos sentidos e a nossa intuição por vezes nos enganam, a ciência lá está para nos ajudar a corrigir essas falsas percepções. A tendência para acreditar que existe Deus pode ela própria ser também um erro da intuição humana que a ciência e alguns espíritos mais avançados já se encarregaram (ou encarregarão) de certificar.

O texto anterior foi portanto apenas uma parábola para expor a minha visão de Deus. Em que medida?
Fundamentalmente, creio que Deus não é omnipotente; pelo contrário, as suas forças à semelhança das do homem são muito limitadas (Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança). Deus existe para ajudar os homens a chegar ao Bem e à Felicidade. Como as Suas forças são limitadas não pode chegar a todo o lado. Daí a existência de sofrimento e de infelicidade. Se Deus fosse omnipotente é óbvio que não permitiria o sofrimento e a infelicidade (pelo menos de crianças e de outras pessoas que por diversos motivos e em diversas circunstâncias nunca poderão ver qualquer sentido ou aprender o que quer que seja com o sofrimento e a infelicidade). Aumentamos as forças de Deus quando praticamos o Bem (e rezar também pode ser uma forma de praticar o Bem).
No entanto, julgo ser um facto que o Bem e o Mal são o produto de fenómenos quase inteiramente deterministas. Qual é então a área de intervenção divina?
Tentarei responder a esta pergunta na próxima semana, na terceira e última parte deste texto.

Timóteo Shel [
TIMSHEL]

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