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segunda-feira, setembro 6

 

A Beatificação através do Mal

Colocado perante a melindrosa questão «Quem és tu?», o Georges Bataille respondeu: «Não sou um filósofo. Mas talvez um santo, talvez um louco». Ainda que esta afirmação esteja polvilhada de alguma ironia, o filósofo (perdão Monsieur Bataille, o não-filósofo) apresenta-se como um eleito, um abençoado pela «divina loucura» (Platão).
A Obra do Bataille, não só a de veia romanesca, como também a de veia ensaística, usou as potencialidades da polémica e da controvérsia como auras de projecção. Polémica e controvérsia robustecidas pelo modo cruel, desbocado e truculento com que se expressaram, se exprimiram — se afirmaram. Mais do que o seu contemporâneo e compatriota Pierre Klossowski, o Georges Bataille é um pensador maldito.
Por tradição e herança civilizacional, somos levados a crer que Deus não morre de amores pelos Malditos — nem vice-versa. Criámos, com efeito, um declarado antagonismo: de um lado Deus e os respectivos cães de guarda, no outro os Malditos, ao abandono nas ruas, como cães vadios, sem dono nem protecção que lhes valha.
Ora, nem todos têm lugar — cativo ou de segunda classe — no Reino de Deus. A lotação é restrita aos que (O) amam. Sendo assim, como é que, por exemplo, um Genet se transmutou em Saint Genet? Como é que Deus aureola e acolhe em seu regaço um ser desprezível e vil como o autor de «Querelle»?
Veja-se o exemplo do São Tomás de Aquino. Em vida, recebeu acusações de heresia, esteve à beira da fogueira, em suma (não a teológica) «perseguiram-no e apedrejaram-no como a um melro» (Lautréamont); e hoje, em plena ressaca do ano do Jubileu, as suas doutrinas são parte constituinte e inalienável do catolicismo. Maldito por uns breves instante, canonizado pela eternidade fora — eis o destino do Tomás e de todos os que pensaram pela sua própria cabeça.
O próprio Jesus não era bem visto pelos olhos (míopes) do seu tempo. Seria, todavia, anacrónico etiquetá-lo de maldito. Mas é justo lembrar que infâmia assombrou o Filho de Deus como a qualquer ladrão ou qualquer puta — párias da sociedade com quem tinha boas relações.
Deus tem uma paixão — cega e surda, como se querem as paixões arrebatadoras e fulminantes — pelos Malditos. Admira-lhes a ousadia, a capacidade de estender o horizonte espiritual mais e mais longe do fixado pelo comum dos homens. Os Malditos, por seu turno, têm vontade de se apresentar a Deus, de se tornarem Seus íntimos.
Mas, então, quem são os Malditos ? Refiro-me aos bruxos ? Aos leprosos ? Aos músicos de Black Fucking Metal que bebem groselha (que dizem ser o sangue extraído da menstruação da Virgem Maria ) para gáudio de betos trajados de negro ? Nada disso. Por Malditos entendo o ser a que a boca do mundo escarnece e difama. E que Deus, como recompensa pela verticalidade, própria de quem está disposto a vender a alma ao Diabo para ascender aos Céus, santifica e, de certo modo, imortaliza.
Existe um certo ascetismo na conduta do Maldito. É inegável o desprezo nutrido por bens materiais, pelos quais a corja humana se esfola e se mata. Maldito que se preze procura, acima de tudo, satisfazer exigências escatológicas. Há mesmo uma afinidade com a atitude franciscana de desdém pelo mundo em prol de um verdadeiro e autêntico mundo. O Maldito é, simultaneamente, ateu e místico e faz da chacota às honrarias civis e pergaminhos públicos uma prática viva e exuberante.
No incomum prefácio a «O Anticristo», o filósofo Friedrich Nietzsche declarou que «existem homens que nascem postumamente». O Jesus avisou que somente quem seguisse a sua lei — a do amor — e desobedecesse à vigente na cidade teria espaço no Reino do Pai. Por diferentes palavras, cada um aludiu aos meios de transmutar o caixão em berço e a certidão de óbito em cédula de nascimento.

Vitor Vicente (PATO LÓGICO)

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