<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, setembro 29

 

Carta aberta aos bispos portugueses (regresso à Madeira - 2004)

A Madeira mudou muito, desde 1995 - e continua a mudar: é um imenso estaleiro, nestes dias que antecedem as eleições regionais. Por causa das eleições, que os seus líderes não escondem a causa e efeito. E graças aos fundos comunitários e à dívida que se acumula para com o Governo central da República.
Porque falamos disto na Terra? Porque a Igreja é conivente com o mais triste que o Poder da Madeira tem. Depois dos nossos relatos (
1991-1992/1995-1996), depois da missa crismal que o Bispo deixou a meio para inaugurar um hotel, só faltava Alberto João Jardim subir ao púlpito.
E podemos fazer da Terra casa de um manifesto político? Podemos. E devemos. Esta terça-feira o «Público» relata-nos, pela pena conhecedora de Tolentino de Nóbrega, que «
Jardim [Discursou] do Púlpito na Inauguração da Igreja».
Por que nem todos vão ler a notícia (mas recomenda-se a sua leitura na íntegra por fazer uma boa resenha daquilo que é a Madeira e a Igreja madeirense), retiro algumas das passagens mais significativas:
1. «O bispo do Funchal, Teodoro Faria, na homilia que proferiu domingo na inauguração da igreja dos Álamos, enalteceu o espírito criativo e construtivo do presidente do governo regional, elogiou a "política autonómica" e deu "graças a Deus" pelo apoio concedido para a construção daquele templo, o décimo quarto edificado na governação de Alberto João Jardim, apesar do decréscimo demográfico e da cada vez mais baixa participação dos fiéis madeirenses em actos litúrgicos.Também o pároco Manuel Luís destacou sua "visão do desenvolvimento global e harmonioso da região".»
2. «Do púlpito, junto ao altar, o presidente madeirense, Alberto João Jardim, retribuiu com elogios ao bispo, pela sua "visão de colocar estruturas de apoio social e estruturas educacionais que acompanham as grandes mudanças que se deram na região autónoma"».
3.«Muito generosos têm sido os subsídios atribuídos à igreja católica nos anos de eleições regionais - 3,4 milhões em 1996 e quase nove milhões em 2000 -, que ocupa a terceira posição (14,1 por cento do total) na tabela de subsídios que é liderada pelo desporto (30,3%), seguido pelos apoios extraordinários concedidos às câmaras (24,4%). Apesar da quebra registada em 2003 para apenas 2,6 milhões de euros, este montante deve triplicar no corrente ano, também marcado por nova ida às urnas, pois o orçamento regional pôs de lado qualquer restrição nos apoios destinados a financiar a construção de novas igrejas, casas paroquiais, aquisição de viaturas e contratação de pessoal».
É necessário dizer basta! Esta não é a Igreja que queremos, não é este o poder que a Igreja serve. Contradigo-me com aquilo que defendi, nesta Terra, nos meus dois textos anteriores? De que os padres têm algo a dizer sobre política? Sim, têm. Mas na lógica de denúncia, ou na linha daquilo que defende o padre José Luís Rodrigues, no semanário (madeirense e independente da Diocese) de informação religiosa "Areópago", citado no mesmo artigo do Público. Diz o sacerdote: «Alguma Igreja também se deixou amordaçar pela lógica do poder e pelos interesses materiais: falamos de ordenados chorudos auferidos por membros da igreja que assumiram cargos ligados a instituições da tutela política, construção de igrejas, centros paroquiais de dia e lares para idosos, subsídios para tudo e para nada e de uma série de mordomias que presentearam as diversas estruturas da sociedade madeirense nos últimos anos.» E denuncia: «Os espaços da Igreja estão reduzidos ou afunilados a uma pressão cruel por algumas forças sociais e políticas.»
Daqui fica pois o apelo final aos bispos portugueses: não se preocupem em proibir concertos ou outras manifestações culturais nos espaços das igrejas. Proíbam antes o exercício de um poder cego e opressor, que ainda abusa do púlpito para se fazer ouvir. Na Madeira de 2005.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

O Martelo de Aliocha

Em texto anterior e com a pata do urso, demos conta de uma das estratégias preferenciais do diabo: a imobilização; não através de chave de judo, nem de outra qualquer arte marcial, mas pela tentativa de fazer com que fiquemos agarrados às nossas recordações mais penosas.
Contudo, no passeio no passadiço das praias de Gaia, depois de nos esquecermos de agradecer ao Luís Filipe Menezes, a maresia, a praia e o sol, a verdade é que nos irritamos com os rapazes que da montanha circulavam de bicicleta em cima das traves de madeira com pequenas mochilas às costas. E não os desculpamos nem mesmo quando os vimos parados num bar a beber bebidas energéticas, com ar suado e feliz…
Muitas vezes, não sabemos nas festas concentrarmo-nos na festa. E como não sabemos, deixamos que nos irritem os comensais que comem de mais, os que falam e falam demasiado alto, os que se apalpam com propósito, ou aqueles que nos incomodam com propostas sucessivas para dançar. Assim, não estamos preparados nem para combater aquilo que o diabo nos pode levar a fazer, nem preparados para evitar o que nos pode impedir de andar fluidamente no caminho do bem.
Porque se quando ficamos presos à dor, fiquemos bloqueados, prontos para o medo, agarrados ao poder satânico, mas quando ficamos agarrados à alegria, ás recordações de alegria, ficamos prontos para desbloquear dificuldades e prontos para desentupir as veias e o colesterol que se atravessa no caminho do bem.
É uma lição repetida e geral. A ela se agarram os amantes quando a distância os separa. Agarram-se à memória do sol que entrou pela janela tornando transparente o local onde pela primeira vez deram as mãos. A ela se agarra a mãe, quando a criança sofre com dores de ouvidos ou problemas na escola, quando recorda a primeira vez que teve o filho no colo. A ela se agarram as nações quando o tempo presente desmente o tempo passado.
E isto sem qualquer pompa e em muitas circunstâncias. A nossa memória está cheia de pequenos nichos de alegria que usamos em caso de acidente. Contudo, por vezes em caso de emergência não é fácil quebrar o vidro. O martelo está lá, mas a nossa força é demasiado pequena para a espessura do vidro.
Por isso, na célebre reunião após a morte do pequeno amigo, e rodeado de pequenos amigos, Aliocha nos Irmãos Karamázov, recomendava: lembrem-se muitas vezes deste momento em que estivemos todos verdadeiramente juntos; será certamente uma das coisas mais ricas que tereis no futuro.
De facto, só quando deixamos impregnar a memória pelos momentos de alegria, a memória fica pronta para nos devolver a força necessária para empregar o martelo.

Fernando Macedo [
A BORDO]

(0) comments

O meu Manifesto (1ª parte: porque não sou de esquerda)

Andava eu há que tempos para escrever este artigo. Aliás, há que tempos os meus amigos comunas residentes aqui na Terra da Alegria me desafiavam a escrevê-lo. Parece que é desta. E este artigo pretende, imodestamente, ser nada menos do que uma espécie de 25 de Novembro aqui na Terra. Pretende pôr termo a uma deriva totalitária de índole esquerdista que aqui se apropriou indevidamente da religiosidade cristã e pretende desapossar todo o restante espectro político da pretensão sequer de ter uma condição de verdadeiro catolicismo. Ora chegou finalmente a altura de tocar os sinos a rebate, reunir as mocas de Rio Maior, barricar a Nacional 1 e correr com os Camilos Mortáguas da herdade da Torre Bela. E trazer de novo este espaço, que se criou como sendo de diversidade, à normalidade democrática. Mas não se pense que pretendo dar cabos dos meus estimados comunas. Não senhor. Há em mim, digno sucessor do saudoso Jaime Neves, também uma costela de Melo Antunes que, pelo 4º ou 5º parágrafo, aparecerá melifluamente a dizer que eles também são indispensáveis ao projecto democrático em que se criou esta Terra. Vamos pois a isto. Que os chaimites avancem!

Agora que penso ter captado a atenção do nosso vasto auditório posso explicar então o que pretendo: demonstrar uma coisa simples, que a fé e prática cristãs não são coerentes apenas com a ideologia esquerdista, com a qual aliás me parecem ter pouco a ver.
Primeiramente, irei tentar demarcar terrenos e definir campos. Falemos um pouco da minha matriz ideológica. Se bem que eu possa ser chamado de direitista, gosto mais de me considerar como um conservador. Aliás penso que o carácter essencialmente definidor da direita é ou deve ser a atitude conservadora. Pois quanto ao resto, a natureza da direita manifesta-se mais por antítese da esquerda, a qual terá talvez uma estruturação ideológica mais marcada. Vou tentar explicar isto melhor. Eu sou conservador pela minha atitude de reserva face à mudança. Não a rejeito, pois o conservador costuma ser pragmático, mas como disse alguém (já não me lembro quem foi mas garanto que a frase não é minha), vejo as mudanças como sendo circunstâncias a que temos de nos acomodar. Isto é, a mudança é por mim vista sempre como um risco, podendo ser uma oportunidade mas continuando a ser sempre um risco que obriga a cautelas de análise, previsão e controle. Eu poderia dizer que fui assim educado mas devo confessar que, muito mais do que isso, tal atitude está-me mesmo na massa do sangue. Enquanto conservador, assustam-me as revoluções e as contra-revoluções. Prefiro a evolução na continuidade, esse termo tão vilipendiado. No limite, ainda aceito um golpe palaciano. Revoluções é que não. A pretexto de excelentes intenções, libertam forças incontroláveis até ao momento em que surge a habitual clique a controlá-las e a apossar-se delas. No que toca ao conservadorismo, fiquemos por aqui.
Pois há talvez algo mais intenso que alimenta a minha alma direitista: a rejeição epidérmica da prática, do discurso, do estilo, da retórica, da agenda esquerdista. Para mim, a esquerda nunca ficou tão bem definida como naquele filme do esquerdista Nanni Moretti, em que numa qualquer accção de massas alguém brada desesperado ao orador “mas diz-nos qualquer coisa de esquerda!” Costumo rever esta cena só para dizer ou pensar: mas que estupidez!... É que, ao contrário da direita, que honestamente penso que sabe muito melhor aquilo que não é do que aquilo que é, a esquerda usa e abusa dos códigos de auto-reconhecimento. Nos temas de conversa, nos gostos artísticos e culturais, no look, nos cavalos de batalha, etc. E depois possui uma consciência excessiva e irritante da sua superioridade moral, intelectual e cultural: há ainda aquela ideia estúpida que a cultura é só de esquerda! Recordo-me bem duma cena, há uma data de anos, num concerto do John Cale na Aula Magna, quando encontrei uns amigos, daqueles a tender para o comuna, que me disseram logo que me viram: “o que é que estás aqui a fazer, ó fascista? Vai mas é ver o Bryan Adams!”. Coitados, eu sei que eles não disseram aquilo por mal, mas fazia-lhes uma confusão do caraças ver que um gajo que andava então pelas caravanas do Freitas do Amaral pudesse também gostar de John Cale. Verdade seja dita que os meus outros amigos, os de direita, também não o percebiam mas isso era desculpável pela sua (minha, nossa!) inerente bronquice.
Parece-me pois haver na esquerda uma atitude de exclusivismo elitista, totalmente contraditória com os seus apregoados ideais de tolerância, solidariedade e diversidade. E também esse facto me afasta irremediavelmente dela. Por razões éticas e por razões estéticas.

Porém, antes de terminar a primeira parte deste artigo, tenho que dar o braço a torcer quanto aos meus amigos comunas aqui da Terra, o Carlos, o Timshel e o Miguel, pois o seu esquerdismo está muito longe de corresponder àquela atitude estereotipada, tão comum na esquerda e que tanto me afasta dela. Vou dar o exemplo do Carlos, pois foi o primeiro que conheci: acho extraordinária a forma como nele convivem as sua profundas convicções esquerdistas com posições completamente antagónicas às do estereótipo da sua família política – a sua forma de ser católico e ver a Igreja, a sua posição quanto ao aborto, etc. O mesmo posso dizer dos outros dois. E é por isso que eles merecem o meu respeito, para além da minha amizade.
Sendo assim, e em consideração a eles, terei de explicar bem melhor porque é que acho que a mensagem de Cristo é verdadeiramente supra-política, porque é que penso que a prática cristã transcende toda a ideologia. Ficará então para a próxima semana ou próximas semanas.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

(0) comments

Eis como imagino Deus (2)

Na última semana deixei aqui um pequeno "jogo de salão" (na feliz expressão do José) relativamente ao qual não deixei a solução. É isso que passo agora a fazer.
Matematicamente é a segunda resposta que está correcta (ela era a resposta divina…): existem mais probabilidades de acertar na porta certa se mudarmos de escolha da porta «C» para a porta «A». Dizer que existem probabilidades idênticas de, após a intervenção divina, se escolher a porta certa de entre as portas «A» e «C» é a resposta mais comum. É a resposta intuitiva. Contudo, o que a nossa intuição, a intuição humana, nos diz neste caso, está errado. Jorge Buesco diz que quando este problema foi exposto a Paul Erdös, provavelmente o maior matemático do século XX, não só ele não chegou à solução correcta como durante vários dias se recusou a aceitá-la. Mais. Só se começou a convencer quando observou, experimentalmente, que era melhor trocar de portas. Trata-se de um fenómeno contra-intuitivo (uma inteligência artificial nunca cometeria este erro – eis mais um argumento no debate a que se dedica fundamentalmente a
Turing Machine.

Segue-se um excerto do artigo onde Jorge Buesco expôs este problema (originalmente eram cabras que se passeavam atrás das portas…).
«Marilyn escreve há mais de dez anos a pequena coluna semanal "Ask Marilyn
" na revista Parade sobre assuntos relacionados, indirectamente, com ciência. Na sua coluna de 9 de Setembro de 1990, em resposta a um leitor que lhe colocava o problema de Monty Hall, Marilyn afirmava ser preferível trocar de portas. Fazendo-o, a probabilidade de sucesso é 2/3. Mantendo a escolha inicial a probabilidade de sucesso é apenas 1/3.
Assim que publicou o seu artigo, Marilyn foi soterrada por cartas de leitores que discordavam, alguns dos quais matemáticos profissionais, e que sustentavam ambas as escolhas terem probabilidade de sucesso 50%. Em Dezembro de 1990 vê-se obrigada a voltar ao assunto, explicando melhor a solução e publicando excertos de cartas quase insultuosas.
Por exemplo, Robert Sachs, da George Mason University, escrevia: "
Como matemático profissional, estou muito preocupado com a falta de competências matemáticas da população em geral. Por favor admita o seu erro". E Scott Smith, da Universidade da Florida: "Você pôs a pata na poça em grande! Vou explicar: depois de o apresentador mostrar a cabra, você tem uma hipótese em duas de sucesso. Mudando de escolha ou não, as hipóteses são as mesmas. Já temos ignorância matemática que chegue neste país. Não precisamos que o maior QI do mundo propague mais. Que vergonha!
"
Depois de um terceiro artigo sobre o assunto e de milhares de cartas, das quais 90% era contra a sua resposta, o tom dos comentários tornou-se histérico, como o mostram afirmações como "Quantos matemáticos furiosos são precisos para você mudar de opinião ?" ou sugestões sarcásticas de que Marilyn era a cabra ou de que as mulheres não podem realmente compreender matemática.
Depois destas reacções inflamadas, vários artigos publicados em revistas de matemática com uma análise rigorosa ao problema mostraram aos incrédulos que Marilyn tinha mesmo razão. O raciocínio intuitivo é falacioso: vale a pena trocar de portas. Fazendo-o, a probabilidade de sucesso é 2/3. Não o fazendo, é apenas 1/3
».

Bem e que tem isto a ver com a existência de Deus?
A resposta é franca: nada. O meu texto era apenas uma brincadeira e não visava demonstrar a existência de Deus (Ele é, por definição, indemonstrável). Nem se pode tirar do problema tal como eu o coloquei nenhuma conclusão por analogia. De facto, contra uma abusiva conclusão por analogia que pretendesse extrair do texto a conclusão de que a intuição humana por si só não leva a lado nenhum poder-se-ia contra-argumentar que se é verdade que os nossos sentidos e a nossa intuição por vezes nos enganam, a ciência lá está para nos ajudar a corrigir essas falsas percepções. A tendência para acreditar que existe Deus pode ela própria ser também um erro da intuição humana que a ciência e alguns espíritos mais avançados já se encarregaram (ou encarregarão) de certificar.

O texto anterior foi portanto apenas uma parábola para expor a minha visão de Deus. Em que medida?
Fundamentalmente, creio que Deus não é omnipotente; pelo contrário, as suas forças à semelhança das do homem são muito limitadas (Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança). Deus existe para ajudar os homens a chegar ao Bem e à Felicidade. Como as Suas forças são limitadas não pode chegar a todo o lado. Daí a existência de sofrimento e de infelicidade. Se Deus fosse omnipotente é óbvio que não permitiria o sofrimento e a infelicidade (pelo menos de crianças e de outras pessoas que por diversos motivos e em diversas circunstâncias nunca poderão ver qualquer sentido ou aprender o que quer que seja com o sofrimento e a infelicidade). Aumentamos as forças de Deus quando praticamos o Bem (e rezar também pode ser uma forma de praticar o Bem).
No entanto, julgo ser um facto que o Bem e o Mal são o produto de fenómenos quase inteiramente deterministas. Qual é então a área de intervenção divina?
Tentarei responder a esta pergunta na próxima semana, na terceira e última parte deste texto.

Timóteo Shel [
TIMSHEL]

(0) comments

O Deus da amnistia geral

Hoje em dia tendemos a afastar do horizonte do nosso olhar ou do pensamento todas as realidades desagradáveis, penosas ou incómodas. Vemos sem estremecer a morte anónima e distante nos telejornais, mas escondemos das crianças a morte concreta do vizinho ou do avô (por isso são tão raras as crianças nos funerais). Desviamos o olhar do sem-abrigo que se enrola no cobertor no vão do prédio e tentamos justificar para nós próprios as causas da sua condição. Chocamos-nos com as imagens de fetos abortados quando defendemos a banalização do aborto. Debatemos as guerras no conforto da ignorância consciente, porque não queremos saber que os soldados americanos no Iraque ouvem música rock veiculada pelos auscultadores do capacete enquanto disparam rajadas de metralhadora, para lhes dar o ambiente de jogo de computador.
Compreende-se. A vida é demasiado dura (e depois morre-se, como dizem os ingleses) para perdermos tempo com as agruras alheias e, além do mais, pensar incomoda como andar à chuva, como escreveu o Pessoa.
Mas, infelizmente, não é por ignorarmos a realidade que ela desaparece ou se modifica. Ora, o sofrimento – em especial, o sofrimento sem sentido, que aparentemente é desnecessário à redenção ou salvação – é um dos problemas teológicos basilares. A par, a necessidade de um equilíbrio compensador na vida eterna do sofrimento terreno é um dos pontos menos explorados da teologia (ou assim me parece, do alto da minha ignorância).
Por outro lado, a falta de reflexão sobre o Céu e o Inferno (sobre os quais quase há vergonha de falar, mesmo nos meios católicos) tem levado a um relativismo muito perigoso - e com consequências nefastas. O "fim do Inferno", por exemplo, em vez de ser libertador para o Homem, e portador de uma boa-nova de esperança, sem culpa e sem castigo, tem levado a que aceitemos (e a que pratiquemos?) o Mal com mais naturalidade do que devíamos. Pois, se Deus, na Sua infinita misericórdia nos ama tanto, não há-de condenar nenhum dos seus filhos ao fogo do Inferno. Somos todos chamados à grande ceia final na Sua presença. E, se não há Inferno, o Céu é um lugar onde todos cabem lado a lado. O São Francisco de Assis abraçado ao Pol Pot, a minha tia de mão dada com o Dr. Mengele, o Siddartha a brincar com Judas, etc.

O sentido de Justiça, impregnado no coração de cada homem, seria, então ultrapassado, revogado, eliminado, pela Amnistia Final que nos absolveria a todos por igual, numa espécie de tirania da Misericórdia divina, em que o Amor se impunha pela força e através do qual caducaria a responsabilidade de cada um. Não haveria Mal, nem pecado, nem necessidade de arrependimento e conversão, nem espaço para a Liberdade.
Está na moda esta visão pueril e cor-de-rosa de um Deus bonzinho e algo idiota, que brinca com os seus filhos, pelos quais não teria qualquer respeito. É a que nos agrada mais. É um Deus à nossa semelhança e do nosso tempo: um Deus infantil, irracional e que não quer ser incomodado com a realidade. Um Deus que escreveria torto por linhas direitas.

Carlos Cunha [PARTÍCULAS ELEMENTARES]

(0) comments

segunda-feira, setembro 27

 

A primeira referência pública no Ocidente

Em 1893, realizou-se nos Estados Unidos o primeiro Parlamento Mundial das Religiões. O evento teve lugar durante a Exposição Colombiana, que assinalava o 4º Centenário da Descoberta da América. Pode parecer apenas mais uma das muitas exposições e conferências que se iam realizando ao longo do final do séc. XIX, nos Estados Unidos e na Europa. Mas para os bahá'ís assinala um momento importante: era a primeira vez que em público se fazia um referência à religião fundada por Bahá'u'lláh.

Naturalmente que o episódio passou despercebido a muita gente dessa época. Os registos da conferência assinalam uma palestra proferida pelo Reverendo George A. Ford. Este missionário, cuja actividade se centrava na Síria, leu uma comunicação preparada por outro missionário, o Reverendo Henry H. Jessup (que também trabalhava na Síria).

A palestra teve lugar no dia 23 de Setembro; fez 111 anos na passada 5ª feira. Ali, perante uma plateia ocidental, o aquele ministro Presbiteriano referiu pela primeira vez o nome de Bahá'u'lláh e mencionou as Suas palavras. Ao concluir a sua palestra declarou:

No Palácio de Bahji, ou Deleite, no exterior da Fortaleza de 'Akká, na costa da Síria, faleceu há alguns meses atrás um famosos sábio persa[1], um santo Babi, chamado Bahá'u'lláh – a Glória de Deus – o chefe desse vasto partido reformador dos muçulmanos persas, que aceitam o Novo Testamento como Palavra de Deus e Cristo como Redentor dos homens, que vêem todas as nações como uma só, e todos os homens como irmãos. Há três anos, ele foi visitado por um académico de Cambridge[2], e expressou sentimentos tão nobres, tão semelhantes aos cristãos, que os repetimos como palavras finais:

«Que todas as nações se tornem uma em fé e todos os homens irmãos; que os laços de afecto unidade entre os filhos dos homens sejam fortalecidos; que o antagonismo entre religiões cesse e as diferenças entre raças sejam anuladas. Que mal há nisso? No entanto assim será. Estas lutas infrutíferas, estas guerras ruinosas cessarão e a «Mais Grandiosa Paz» virá. Não necessitam também disso na Europa? Que o homem não se vanglorie de amar seu país; que o homem se vanglorie de amar o seu semelhante»[3]


Alguns historiadores bahá'ís dizem que nesse dia, a religião Bahá’í chegou ao Ocidente. Curiosamente, surgiu pela boca de um cristão.

Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]
-------------------------------------
NOTAS
[1] – Bahá'u'lláh faleceu em 29 de Maio de 1892.

[2] –
Edward Granville Browne. A visita teve lugar em Abril de 1891.
[3] – World Parliament of Religions, vol. II, pag. 1125-6.

Outros documentos relacionados:
*
Interfaith and the Future, John Hick (palestra comemorativa do centenário do primeiro Parlamento Mundial das Religiões).
* Alguns autores consideram que no Ocidente as primeiras referências públicas à religião Bahá'í foram feitas no Reino Unido; ver
First Public Mentions Of The Bahá'í Faith.

(0) comments

Sete lições de moral

Desde o início do ano lectivo já falhei duas semanas de escrita aqui na Terra. Para que não volte a acontecer, aqui fica a solene promessa de não faltar às próximas sete segundas-feiras de prosa. Apesar de se dizer que não está na moda, escreverei sete lições de moral. Com todas as letras: lições de moral. O melhor a fazer para afugentar leitores ou ouvintes é dizer que se vai falar de moral. De moral andam todos fartos. Isso acontece também por erro da Igreja, quando reduz a sua mensagem a um conjunto de preceitos ou quando confunde o apelo à vivência do Evangelho com uma lógica retribucionista e individualista de "salvação pessoal". Moral é a ética interiorizada. E como dizia Monsenhor Marc Stenger, a ética não é um conjunto de proibições: «A ética é a ciência do comportamento, a reflexão de um conjunto de princípios, de linhas de conduta que guiam a vida de uma pessoa. A ética não são princípios arbitrários, decididos do exterior, mas sim "algo" que nos põe a caminho do que já somos no mais fundo de nós mesmos, da nossa cultura, da nossa educação e da nossa fé. (...)
Uma nova concepção da ética parece-me um ponto importante para compreender a ética cristã. Muitos a consideram como uma "colecção de proibições": não se pode fazer isto nem aquilo, não à pílula, não ao preservativo, isto está mal, aquilo pior. Se esta é a ética cristã, então eu mesmo perco a vontade de ser cristão. Para o cristianismo, a ética não é uma colecção de coisas proibidas. A ética é uma expressão do que possuímos como bem próprio, do património que nos dá sentido, daquilo com o que estamos de acordo para a nossa vida. (...)
Creio que nos temos equivocado muito sobre o sentido da palavra "proibido". Nas nossas sociedades o proibido é o que não temos direito de fazer. E se o fazemos seremos castigados. Muito frequentemente entendeu-se a ética cristã desta maneira. Mesmo os padres e os bispos. Na ética cristã é proibido proibir. "Interdir" vem do latim "inter-dire", dizer entre pessoas, pôr-se de acordo, fazer um pacto. O proibido (interdito) é o objecto do pacto. Fazer um pacto para não pisar o risco é um pouco limitado, um pouco absurdo. Faz-se um pacto quando reconhecemos que temos as mesmas convicções fortes em comum, para não pôr a vida das pessoas em risco, para que os seus direitos sejam respeitados, para que egoísmo não tenha a última palavra. Mais que sair em cruzadas, devemos perguntar-nos quais são os valores que dão sentido, sobre os quais podemos fundar um pacto. Mas devemos ter em conta que não caminhamos segundo a nossa fantasia. Não inventamos uma ética de circunstância para que passe o mundo que queremos fazer passar». (1)


Assim, aqui fica a promessa de sete lições daquilo "que possuímos como bem próprio, do património que nos dá sentido, daquilo com o que estamos de acordo para a nossa vida". E se a parte da moral está explicada, porquê chamar-lhes lições? Essa também é uma palavra mal vista entre nós. Como já
aqui foi dito, a origem grega da palavra "ócio" é "escola". Assim, as sete lições não têm mais pretensão que a de ser um momento bem cheio de ócio. Não para entreter ou para passar os tempos livres. O ócio não é para os intervalos - é um estilo de vida. E afinal é precisamente disso que vou tentar falar.
Aqui nomeio então as próximas sete crónicas, as sete lições de moral que vos prometo: "A escuta", "O lugar do outro", "A complexidade", "A História nunca pode ser travada", "Desfragmentação do quotidiano", "As pedras hão-de gritar" e "Cidadania na Igreja". Os sete títulos não são meus. Roubo-os ao Luís Barbosa, que deles falou num testemunho da sua passagem pelo Movimento Católico de Estudantes (MCE), em Guimarães, no início de Setembro. Até para a semana.

Zé Filipe [
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(1) Desafios éticos: de uma perspectiva eclesial, intervenção na Sessão de Estudos dos Comités Internacionais da Juventude Estudantil Católica Internacional (JECI) e do Movimento Internacional de Estudantes Católicos (MIEC-Pax Romana): Ética e espiritualidade estudantil para reconstruir a utopia, Estrasburgo, Agosto 1999, tradução livre da versão espanhola.

(0) comments

Santo Graal

Primeira página do pergaminho original de Chréstien de Troyes
Primeira página do pergaminho original de Chréstien de Troyes (†1185), Perceval, ou Le Conte du Graal

Sobre o Santo Graal poder-se-ia escrever um número infindável de páginas. Vou cingir-me à autoridade doutrinária de René Guénon, que como ninguém, soube expor com clareza, lucidez e conhecimento de causa, as complexidades do simbolismo gráalico. Neste artigo, Le Sacré-Coeur et la Légende du Saint Graal, publicado originalmente em Agosto de 1925 na revista Regnabit, Guénon tece esclarecedores paralelos entre o simbolismo do Santo Graal e o conceito do Sagrado Coração de Jesus (as ilustrações não constam do texto original - foram adicionadas por mim):


O Sagrado Coração e a Lenda do Santo Graal
Num dos seus últimos artigos o senhor Charbonneau-Lassay assinalou muito justamente, como ligando-se ao que poderíamos chamar a «pré-história do Coração Eucarístico de Jesus», a lenda do Santo Graal, escrita no século XII, mas bem anterior pelas suas origens, pois ela é na realidade uma adaptação cristã de tradições célticas muito antigas. A ideia desta aproximação já nos tinha surgido na ocasião do artigo anterior, extremamente interessante do ponto de vista no qual nos colocamos, intitulado «O coração humano e a noção do Coração de Deus na religião do antigo Egipto», do qual recordamos a passagem seguinte: «Nos hieroglifos, escritura sagrada onde frequentemente a imagem da coisa representa a própria palavra que a designa, o coração foi figurado por um só emblema: o vaso. O coração do homem não é com efeito o vaso onde a sua vida se elabora continuamente com o seu sangue?». É este vaso, tomado como símbolo do coração e substituindo-se a este na ideografia egípcia, que nos fez pensar imediatamente no Santo Graal, ainda mais que neste último, para lá do sentido geral do símbolo (considerado aliás sob os seus dois aspectos divino e humano), vemos ainda uma relação especial e muito mais directa com o próprio Coração de Cristo.

O símbolo egípcio para a palavra 'coração'
Um vaso: o símbolo egípcio para a palavra "coração" ("yb", "yeb", ou "ab")

Com efeito, o Santo Graal é a taça que contém o precioso sangue de Cristo, e que o contém mesmo duas vezes, porque ele serviu primeiro à Ceia, e que de seguida José de Arimateia ali recolheu o sangue e a água que saiam da ferida aberta pela lança do centurião no flanco do Redentor. Esta taça substitui-se então de certo modo ao Coração de Cristo como receptáculo do seu sangue, ela toma por assim dizer o seu lugar e torna-se como um equivalente simbólico; e não é ainda mais notável que, nestas condições, o vaso tenha sido antigamente um emblema do coração? Para mais, a taça, sob uma forma ou sob outra, desempenhou, asssim como o próprio coração, um papel muito importante em várias tradições antigas; e sem dúvida que sucederia o mesmo com os Celtas, porque é deles que veio o que constituiria a própria base ou pelo menos a trama da lenda do Santo Graal. É lamentável que não se possa saber com precisão qual era a forma desta tradição anterior ao Cristianismo, como sucede de resto com tudo o que diz respeito às doutrinas célticas, para as quais o ensinamento oral foi o único meio de transmissão usado; mas há por outro lado bastantes concordâncias para que nos possamos pelo menos fixar sobre o sentido dos principais símbolos que aí figuravam e é isto, em soma, que é essencial.

A suposta lança do centurião Longinus, conservada em Viena'
A suposta lança do centurião Longinus, conservada em Viena

Mas voltemos à lenda, sob a forma em que ela chegou até nós; o que ela diz mesmo sobre a origem do Graal é muito digno de atenção: esta taça teria sido talhada pelos anjos numa esmeralda caída da fronte de Lúcifer aquando da sua queda. Esta esmeralda faz lembrar de forma evidente a «urnâ», a pérola frontal que, na iconografia hindu, toma o lugar do terceiro olho de Shiva, representando o que podemos chamar de "sentido da eternidade". Esta aproximação parece-nos mais adequada que outra qualquer para esclarecer perfeitamente o simbolismo do Graal; e podemos mesmo apercebermo-nos de uma relação adicional com o coração, que é, para a tradição hindu, como para tantas outras, mas se calhar de forma ainda mais nítida, o centro do ser integral, ao qual, consequentemente, este "sentido da eternidade" deve estar directamente associado.

É dito de seguida que o Graal foi confiado a Adão no Paraíso terrestre, mas que, aquando da sua queda, Adão o perdeu por sua vez, porque ele não o podia transportar com ele quando foi expulso do Éden; e isso torna-se ainda mais claro com o sentido que acabámos de indicar. O homem, separado do seu centro original pela sua própria falta, encontra-se doravante preso na esfera temporal; ele não pode regressar ao ponto único do qual todas as coisas são contempladas sob o aspecto da eternidade. O Paraíso terrestre, com efeito, era verdadeiramente o «Centro do Mundo», por todo o lado assemelhado simbolicamente ao Coração divino; e não podemos dizer que Adão, enquanto esteve no Éden, vivia verdadeiramente no Coração de Deus?


Ícone ortodoxo
Ícone ortodoxo - Cristo no centro da taça, centrado em Maria

O que se segue é ainda mais enigmático: Seth consegue reentrar no Paraíso terrestre e pode assim recuperar o precioso vaso; ora, Seth é uma das figuras do Redentor, para mais que o seu próprio nome exprime ideias de fundamento, de estabilidade, e anuncia de certa forma a restauração da ordem primordial destruída pela queda do homem. Havia então desde logo pelo menos uma restauração parcial, no sentido em que Seth e os que depois dele possuíram o Graal podiam por este mesmo facto estabelecer, em qualquer parte da terra, um centro espiritual que fosse como uma imagem do Paraíso perdido. A lenda, aliás, não diz nem como nem por quem o Graal foi conservado até à época de Cristo, nem como foi assegurada a sua transmissão; mas a origem céltica que lhe reconhecemos deve provavelmente dar a entender que os Druídas tomaram parte dela e deveriam ser contados entre os conservadores regulares da tradição primordial. Em todo o caso, a existência de um tal centro espiritual, ou mesmo de vários, simultaneamente ou sucessivamente, não parece poder ser posta em causa, não obstante o que quer que se pense da sua localização; o que é de notar, é que se associava por todo o lado e sempre a estes centros, entre outras designações, a de «Coração do Mundo», e que em todas as tradições, as descrições a eles associadas são baseadas num simbolismo idêntico, que é possível seguir até nos detalhes mais precisos. Isto não mostra suficientemente que o Graal, ou o que este representa, tinha já, anteriormente ao Cristianismo, e mesmo em todos os tempos, um laço dos mais estreitos com o Coração divino e com o «Emmanuel», queremos dizer com a manifestação, virtual ou real segundo as épocas, mas sempre presente, do Verbo eterno no seio da humanidade terrestre?

O rei Artur rodeado dos Cavaleiros da Távola Redonda
O rei Artur rodeado dos Cavaleiros da Távola Redonda - o Santo Graal está no meio da mesa

Após a morte de Cristo, o Santo Graal foi, segundo a lenda, transportado para a Grã-Bretanha por José de Arimateia e Nicodemos; começa então a desenrolar-se a história dos Cavaleiros da Távola Redonda e das suas explorações, que não pretendemos seguir aqui. A Távola Redonda estava destinada a receber o Graal quando um dos Cavaleiros o conseguisse conquistar e o trouxesse da Grã-Bretanha à Armórica; esta mesa é também um símbolo verdadeiramente muito antigo, um daqueles que foram associados à ideia dos centros espirituais aos quais aludimos. A forma zodiacal da mesa está aliás ligada ao «ciclo zodiacal» (outro símbolo que mereceria ser estudado de forma mais especial) pela presença à volta dela de doze personagens principais, particularidade que se encontra na constituição de todos os referidos centros. Sendo assim, não podemos ver no número dos doze Apóstolos, um sinal, entre tantos outros, da perfeita conformidade do Cristianismo com a tradição primordial, à qual o nome de «pré-cristianismo» conviria tão exactamente? E, por outro lado, a propósito de Távola Redonda, fizemos notar uma estranha concordância nas revelações simbólicas feitas a Marie des Vallées (ver «Regnabit», Novembro de 1924), onde era mencionada «uma mesa redonda de jaspe, que representa o Coração de Nosso Senhor», ao mesmo tempo que se trata de «um jardim que é o Santo Sacramento do altar», e que, com as suas «quatro fontes de água viva», se identifica misteriosamente ao Paraíso terrestre; não estamos de novo perante uma confirmação impressionante e inesperada das relações que atrás assinalámos?

Naturalmente, estas rápidas notas não teriam a pretensão de constituir um estudo completo sobre uma questão tão pouco conhecida; devemos limitar-nos de momento a dar simples indicações, e damo-nos conta de que há considerações que, numa primeira abordagem, são susceptíveis de surpreender um pouco aqueles que não estão familiarizados com as tradições antigas e com os seus modos habituais de expressão simbólica; mas reservamos o seu desenvolvimento e também justificá-los mais amplamente, a artigos onde pensamos poder abordar igualmente outros pontos que não são menos dignos de interesse.
Enquanto esperamos, mencionamos ainda, no que diz respeito à lenda do Santo Graal, uma estranha complicação da qual ainda não nos tinhamos dado conta até agora: por uma destas assimilações verbais que desempenham frequentemente no simbolismo um papel não negligenciável, e que aliás têm talvez razões mais profundas que se imaginaria à primeira vista, o Graal é por vezes um vaso ("grasale") e um livro ("gradale" ou "graduale"). Em certas versões, os dois sentidos encontram-se mesmo estreitamente relacionados, porque o livro torna-se então uma inscrição traçada por Cristo ou por um anjo na própria taça. Não pretendemos actualmente tirar disto qualquer conclusão, se bem que há aproximações fáceis de fazer com o «Livro da Vida» e com certos elementos do simbolismo apocalíptico.
Acrescentamos também que a lenda associa o Graal a outros objectos, e nomeadamente a uma lança, que, na adaptação cristã, não é outra senão a lança do centurião Longinus; mas o que é ainda mais curioso, é a pré-existência desta lança ou de um qualquer dos seus equivalentes como símbolo de certa forma complementar da taça nas tradições antigas. Por outro lado, nos Gregos, a lança de Aquiles podia curar as feridas que ela teria causado; a lenda medieval atribui precisamente a mesma virtude à lança da Paixão. E isto lembra-nos uma outra semelhança do mesmo género: no mito de Adónis (cujo nome, de resto, significa «o Senhor»), quando o herói é ferido de morte por uma presa de um javali (substituindo aqui a lança), o seu sangue, espalhando-se pela terra, provoca o nascimento de uma flor; ora, o senhor Charbonneau assinalou «uma peça em ferro para hóstias, do século XII, onde vemos o sangue das feridas do Crucificado tombar em gotículas que se transformam em rosas, e o vitral do século XIII da Catedral de Angers, onde o sangue divino, correndo em riachos, se desenvolve também sob formas de rosas». Poderemos dentro em breve falar de novo do simbolismo floral, visto sob um aspecto um pouco diferente; mas, qualquer que seja a multiplicidade dos sentidos que apresentam todos os símbolos, tudo isto se completa e se harmoniza perfeitamente, e esta mesma multiplicidade, longe de ser um inconveniente ou um defeito, é pelo contrário, para aqueles que a sabem compreender, uma das vantagens principais de uma linguagem muito menos estreitamente limitada que a linguagem comum.


Procissão no castelo do Graal
Procissão no castelo do Graal

Para terminar estas notas, indicaremos alguns símbolos que, em diversas tradições, substituem por vezes a taça, e que lhe são no fundo idênticas; não se trata de sair do nosso assunto, porque o próprio Graal, como nos podemos facilmente dar conta por tudo o que acabámos de dizer, não tem na sua origem outro significado que aquele que tem o vaso sagrado onde quer que este se encontre, e que nomeadamente, no Oriente, a taça sacrificial que contém o Soma védico (ou o Haoma mazdeísta), esta extraordinária «prefiguração» eucarística sobre a qual voltaremos talvez a falar noutra ocasião. O que representa propriamente o Soma é a «bebida da imortalidade» (o Amritâ dos Hindus, a Ambrósia dos Gregos, duas palavras etimologicamente semelhantes), que confere ou restitui àqueles que o recebem com a disposição requerida, este «sentido da eternidade» do qual se falou anteriormente.

Um dos símbolos do qual queremos falar é o triângulo cuja ponta está dirigida para baixo; é como um tipo de representação esquemática da taça sacrificial, e pode ser encontrada com este título em certos yantras ou símbolos geométricos da Índia. Por outro lado, o que é assaz notável do nosso ponto de vista, é que a mesma figura é igualmente um símbolo do coração, do qual ela reproduz aliás a forma simplificando-a; o «triângulo do coração» é uma expressão corrente nas tradições orientais. Isto leva-nos a uma observação que tem também o seu interesse: é que a representação do coração inscrito num triângulo assim disposto nada tem que não seja legítimo, quer se trate de um coração humano ou do Coração divino, e que ela se torna assaz significativa quando a relacionamos com os emblemas usados por um certo hermetismo cristão da idade média, cujas intenções foram sempre plenamente ortodoxas. Se se quis por vezes, nos tempos modernos, associar a tal representação um sentido blasfematório, é porque se alterou, conscientemente ou não, o significado primeiro dos símbolos, ao ponto de inverter o seu valor normal; temos aqui um fenómeno do qual poderíamos citar inúmeros exemplos, e que encontra aliás a sua explicação no facto de que certos símbolos são efectivamente susceptíveis de uma dupla interpretação, e que têm como que duas faces opostas. A serpente, por exemplo, e também o leão, não significam eles por vezes, e de acordo com os casos, o Cristo e Satanás? Não podemos desejar tratar aqui este assunto com uma teoria geral, o que nos levaria bem longe; mas compreender-se-á que há nisto qualquer coisa que torna muito delicada a manipulação dos símbolos, e também que este ponto requer uma atenção muito especial quando se trata de descobrir o sentido real de certos emblemas e de os traduzir correctamente.
Um outro símbolo que equivale frequentemente ao da taça, é um símbolo floral: a flor, com efeito, não evoca na sua forma a ideia de um «receptáculo», e não se fala do «cálice» de uma flor? No Oriente, a flor simbólica por excelência é o lótus; no Ocidente, é mais frequentemente a rosa que desempenha o mesmo papel. Bem entendido, não queremos dizer que se trate do único significado desta última, bem como do lótus, pois que, pelo contrário, indicámos outro anteriormente; mas vêmo-la facilmente no desenho gravado sobre o altar da abadia de Fontevrault onde a rosa está colocada aos pés de uma lança ao longo da qual chovem gotas de sangue. Esta rosa aparece aqui associada à lança exactamente como a taça o é noutro lado, e ela parece mais recolher as gotas de sangue em vez de provir da transformação de uma delas; mas, de resto, os dois significados completam-se muito mais do que se opõem, porque estas gotas caindo sobre a rosa, vivificam-na e a fazem florescer. É a «rosa celeste», seguindo a figura frequentemente empregue em relação com a ideia de Redenção, ou com as ideias conexas de regeneração e de ressurreição; mas isto ainda pediria longas explicações, quando apenas pretendemos fazer sobressair a concordância das diferentes tradições no que diz respeito a este outro símbolo.

O selo de Martinho Lutero
O selo de Martinho Lutero

Por outro lado, porque se falou aqui da Rosa-Cruz a propósito do selo de Lutero diremos que este emblema hermético foi inicialmente especificamente cristão, quaisquer que sejam as falsas interpretações mais ou menos «naturalistas» que se lhe deram a partir do século XVII; e não é notável que a rosa ocupa, ao centro da cruz, o lugar do próprio Sagrado Coração? Para lá das representações nas quais as cinco chagas do Crucificado são figuradas por outras tantas rosas, a rosa central, quando está sozinha, pode bem ser identificada ao próprio Coração, ao vaso que contém o sangue, que é o centro da vida e também o centro do ser como um todo.
Há ainda pelo menos outro equivalente simbólico da taça: é o crescente lunar; mas este, para ser convenientemente explicado, exigiria desenvolvimentos que estariam totalmente fora do assunto do presente estudo; apenas o mencionamos para não negligenciar nenhum lado da questão.

De todas as aproximações que acabámos de assinalar, tiraríamos já uma consequência que esperamos tornar ainda mais manifesta no que se segue: quando encontramos por todo o lado tais concordâncias, não temos com isto mais que um simples indício da existência de uma tradição primordial? E como explicar que, frequentemente, aqueles que se sentem obrigados a admitir em princípio esta tradição primordial não pensam nela de seguida e raciocinam como se ela nunca tivesse existido, ou pelo menos como se nada se tivesse conservado através dos séculos? Se quisessemos reflectir bem sobre o que há de anormal numa tal atitude, seriamos menos vezes surpreendidos com certas considerações, que, na verdade, apenas parecem estranhas em virtude dos hábitos mentais próprios da nossa época. Aliás, basta procurar um pouco, com a condição de não levarmos nenhum preconceito, para descobrir por todos os lados as marcas desta unidade doutrinal essencial, cuja consciência se viu obscurecida por vezes na humanidade, mas que nunca desapareceu de vez; e, à medida que avançamos nesta procura, os pontos de comparação multiplicam-se a partir deles mesmos e novas provas aparecem a cada instante; certamente, o Quaerite et invenietis do Evangelho não é palavra vã."
- René Guénon, Aperçus sur L'Ésoterisme Chrétien, pp. 117-126.


Há pouca coisa relevante a acrescentar a esta exposição de Guénon relativa ao simbolismo do Santo Graal e à semelhança deste com o simbolismo do Sagrado Coração de Jesus. Gostaríamos apenas de sublinhar que, no "centro do mundo" que era o Paraíso terrestre, estava a Árvore da Vida (sinal da ligação do Homem primordial com Deus, ligação essa perdida com a expulsão de Adão e Eva do Éden). Os paralelos simbólicos entre a "seiva" da Árvore da Vida e o sangue divino que é bombeado pelo Sagrado Coração serão evidentes demais para que se insista nisto. Segundo a tradição católica, é bem sabido que quem come do fruto da Árvore da Vida partilha da "Vida Eterna", que não é outra coisa senão o "sentido da eternidade" de que falava Guénon no artigo. Convém também relembrar que, no Éden, precisamente do centro do jardim, aos pés da Árvore da Vida, nasciam os quatro rios que se espalhavam nas quatro direcções do jardim: o Ghion, o Pison, o Tigre e o Eufrates. Estes rios, emanando da "fonte" que é a Árvore da Vida, são os canais por onde escorrem as "águas da vida", que são facilmente associadas aos canais sanguíneos por onde corre o sangue sagrado. Também fica evidente a ligação entre este simbolismo, e o simbolismo da "fonte da Juventude", sendo que a interpretação profunda do regresso à juventude daquele que bebe desta fonte está na reintegração do homem no "centro do mundo", no Coração de Deus, no local que Adão ocupava inicialmente nos princípios do mundo.

O popular romance "O Código Da Vinci" do escritor americano Dan Brown sugere uma interpretação nova e "criativa" para o Graal: seria o útero de Maria Madalena. Qualquer leitor sensato terá reparado que há uma enorme diferença entre o que acabámos de traduzir, e as "teorias" expostas por Dan Brown no seu livro best-seller. Como lembra Guénon, de forma tão pertinente nestes idos anos 20, o perigo da inversão dos símbolos está sempre presente, o que obriga à necessidade de um certo cuidado (diríamos mesmo, de uma certa competência) no tratamento dos símbolos, para evitar a deturpação (ou no pior caso, a inversão) do significado do símbolo. Cremos que Guénon, quando fala do símbolo do triângulo invertido, dizendo que "se se quis por vezes, nos tempos modernos, associar a tal representação um sentido blasfematório", se está a referir às interpretações sexuais do referido triângulo, que já eram "moda" desde os tempos do pseudo-esoterismo do final do século XIX em França. Recordamos que Lady Caithness, a Duquesa de Pomar, instigadora e protectora da Sociedade Teosófica de Helena Petrovna Blavatsky, na Paris de fin de siècle, foi uma das mais importantes promotoras deste detestável "cristianismo esotérico" (não confundir com "esoterismo cristão") e dos primeiros laivos de "divino feminino". Emparelhando as palavras sábias de Guénon com estes factos da história do pseudo-esoterismo do século XIX, teremos chegado ao ponto essencial em que nos damos conta, até à máxima extensão, tanto da incompetência de autores como Dan Brown para escrever sobre estes temas, como da suspeita "fonte" onde estes foram buscar a sua inspiração "artística".

Para finalizar, eu não seria honesto se não acabasse por explicar o contexto em que surgiu este artigo de René Guénon. Sei bem que o artigo, e a minha opinião pessoal que deixarei no final, podem ser vistas como heterodoxas e como erros doutrinários, no que diz respeito à doutrina católica. O artigo Le Sacré-Coeur et la Légende du Saint Graal, relativo ao estudo do simbolismo do Graal e da sua ligação com o simbolismo do culto do Sagrado Coração de Jesus, foi publicado na revista Regnabit, do padre Abel Clarin de la Rive. Guénon fora convidado por este último pelos seus incontestáveis conhecimentos em simbolismo, mas cedo fez inimigos. Guénon não era católico (viria a tornar-se muçulmano, tomando o nome de Abdel Wahid Yahia), frequentava a Maçonaria, e era um estudioso do Hinduismo, do Taoismo, do Sufismo, e tentava agora nesta colaboração com a Regnabit estabelecer uma aproximação ao Catolicismo baseada no hermetismo cristão da Idade Média. Mais que razões de sobra para levantar a polémica numa revista católica como a Regnabit. O padre Clarin de la Rive defendeu-o durante largos meses contra aqueles que consideravam Guénon uma "infiltração nefasta", ou um "ocultista perigoso". Com a pressão dos círculos neo-tomistas do Institut Catholique de Paris, de entre os quais se destacava Jacques Maritain, Guénon teve que cessar a sua participação na Regnabit.
Este artigo foi então escrito por um homem que, não sendo católico, estava a tentar uma séria e honesta aproximação ao catolicismo, por via do simbolismo comparado e da defesa do que ele chamava de "Tradição Primordial", o substrato único que era comum a todas as formas genuínas de espiritualidade ao longo do tempo e nos mais variados locais do globo. Guénon tentou mostrar aos leitores da Regnabit (na sua esmagadora maioria católicos) os sinais evidentes de uma essência doutrinal idêntica em tradições tão distantes no tempo e no espaço. Maritain e o seu grupo não deixaram nunca de considerar a postura de Guénon como sincretista, gnóstica, ou panteísta, e como uma perigosa ameaça para a doutrina católica. É uma pena. Fica aqui a minha opinião, e o meu profundo desejo de que, perdida que está a oportunidade de se usufruir de um homem como Guénon para "fazer a ponte" com outras tradições espirituais, Deus nos envie alguém igualmente qualificado, para que o diálogo seja retomado tão depressa quanto possível. A minha opinião, relativa ao neo-ecumenismo dos dias de hoje, é que este fica muito aquém do que se poderia ter conseguido no tempo de Guénon. Não há entendimento ao nível dos princípios. Não há debate metafísico. Há um ecumenismo tolerante e correcto nos modos, afável e simpático, até acolhedor, mas na minha opinião, excessivamente surdo e autista no que toca à Verdade Revelada e à questão da primazia doutrinal. Quando o Espírito Santo grita, convém ouvi-Lo...

Bernardo Sanchez da Motta [ESPECTADORES]

(1) comments

quarta-feira, setembro 22

 

Viagem à Madeira (1995-1996) – breves apontamentos

[A primeira viagem foi aqui anotada na semana passada]

Regresso ao jardim anos mais tarde. Das ruas do centro do Funchal desapareceram os “miúdos das caixinhas”. A Escola Aberta – um projecto original, do Movimento do Apostolado das Crianças, que os procurava “inserir” na escola – tinha sido fechada compulsivamente pelo governo regional. Mais e melhor betão oferecia Jardim no estertor do cavaquismo, garantindo eleições de maiorias absolutas.
Na Igreja Católica local, o rame-rame tinha-se instalado. Os padres que ousaram pedir mais e melhor democracia tinham sido dispersos pela ilha, alguns em paróquias quase isoladas. Estou a ser injusto para alguns que procuravam espaços alternativos de reflexão, mas a estratégia jardinística de tudo secar em volta também dava frutos nas comunidades eclesiais mais incómodas. Por exemplo, o MCE tinha sido atrofiado até ao apagamento quase total.
Por esta altura ganhava nova expressão a presença de padres nas listas de partidos políticos regionais. Aquilo que para uns seria normal (se fossem candidatos pelo CDS ou PSD), noutros atingia níveis de quase excomunhão: o padre Martins, da UDP (hoje no PS), o padre Tavares (no PCP/CDU) e o padre Edgar Silva (também no PCP/CDU).
Mais páginas gastas em jornais regionais e nacionais com as idiossincrasias madeirenses. Estamos longe do que deve ser? Um padre deve passar ao largo da política. O Edgar dizia-me que não. E ainda hoje ainda assim deve pensar. Os caminhos do Senhor são insondáveis, mas às vezes têm de seguir direcções inesperadas.
Como o daquele padre que, aos 60 anos, foi mandatário do Bloco de Esquerda no distrito da Guarda, nas legislativas de 2002. O padre de Castelo Mendo dizia então que a sua «experiência» não «incomodou» os seus colegas sacerdotes. E «os paroquianos [admiraram] a abertura» [PortugalDiário, 11-3-2002].
Também em Lisboa, a mandatária bloquista de então era católica: Isabel Allegro, do movimento Graal (movimento internacional cristão de mulheres, trazido para Portugal por Maria de Lurdes Pintasilgo) dizia que o seu apoio ao BE, «a título pessoal», «não tem qualquer contradição com a fé cristã». E acrescentava: «[Haverá] uma grande sintonia de muitas das propostas do BE com a mensagem evangélica, sobretudo na ideia da responsabilidade de todos por um “destino universal dos bens” e por uma justiça social efectiva» [PortugalDiário, 11-3-2002].
Em 2002, ou antes na Madeira, os católicos quiseram apenas dizer uma coisa muito simples. Não pode haver uma tutela paternalista sobre o sentido de voto ou a opção política de padres e leigos. Se o “microclima” da Madeira quase obriga a uma cidadania reforçada de participação política, hoje devemos continuamente questionarmo-nos sobre o sentido da coisa pública na nossa opção evangelizadora. Bater palmas e assobiar para o ar? Ou meter as mãos na terra e plantar um outro jardim? Esta é a opção, pois claro!


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

Tu es Petrus

Nota prévia: desculpar-me-ão ser este um texto repescado, retocado e polido da poeirenta arca que é o Guia dos Perplexos. Mas tenho a pretensão de achar que aquilo que então escrevi deveria ser lido. E aqui é o lugar certo para isso.

Hoje o Papa está no centro das atenções do Mundo, o Cristão e não só. Está-o pelo seu longuíssimo e importantíssimo pontificado durante o qual houve fortes inflexões da História para as quais muito contribuiu. Mas está-o também pelo seu estado de saúde, de aparência terminal, mas que não o impede de continuar a exercer o seu pontificado de forma intensa e sobretudo pública.
Ainda há poucos meses debateu-se intensamente a possibilidade da sua renúncia, passando-se ao lado do facto dessa renúncia ser uma decisão estritamente pessoal do Papa. Eu diria que nem mesmo isso é: a falta de precedentes e o próprio entendimento canónico do estatuto teológico papal, impedem essa decisão mesmo que tomada pelo próprio Papa. Hoje contudo, tendo já as pessoas percebido que ele não vai mesmo renunciar, o que se discute já não é a sua renúncia mas já o seu post-mortem, quem o irá substituír, qual o balanço do seu apostolado, quais os caminhos da Igreja pós-João Paulo II. E em toda essa discussão, em que os não-católicos e os não-crentes participam com um empenho tão apaixonado quanto incompreensível, pressente-se uma latente e mal disfarçada vontade de um rápido desenlace, para que algo mude, para que se assista de novo ao pitoresco e ao mistério de uma eleição papal. Não é decididamente o meu caso mas penso que isto é verdade para um certo mainstream que por aí sopra.
Uns por razões estéticas, por lhes ser difícil de encarar o espectáculo da velhice, da debilidade extrema, do sofrimento visível mas voluntariamente aceite. Outros por não gostarem deste Papa, por o acharem conservador e retrógado. Outros há que, não o confessando, não lhe perdoaram o facto de ele ter ajudado a desmantelar o edifício ideológico onde se movimentavam e eram felizes. Há também aqueles que, sendo cristãos católicos sinceros, mesmo estando seduzidos pelo forte carisma de João Paulo II, sentem muita dificuldade em confrontar a sua linha pastoral, rigorosa e estrita, com a mundividência que criaram ao querer conciliar a sua Fé com a vida concreta, com a evolução da sociedade, com as injustiças do Mundo.
É nestes em que eu estou a pensar particularmente. É que para um católico sincero, o discordar do Papa é algo que pode ser perturbador. O dogma da infalibilidade papal é coisa de que não se fala muito mas que está presente na nossa mente. Sendo assim, naquelas questões difíceis como a contracepção, o celibato dos padres, o papel das mulheres na igreja, etc., a atitude dos fiéis varia por entre:
• Sendo tal posição a posição do Papa, então com maior ou menor esforço dialético, vamos aceitá-la como boa.
• Não se querendo que uma contradição entre a posição do Papa e a nossa convicção profunda perturbe a nossa fé, passa-se ao lado da questão e não se pensa muito nela, ou seja, respeita-se a posição papal mas fazemos como entendemos.
• A diferença de posições incomoda-nos como fiéis e por isso manifestamos activamente a nossa posição dentro da Igreja e fora dela. É o caso de movimentos como o “Nós somos Igreja”. É o caso também de fiéis que se afastam da Igreja por lhes ser insuportável estas divergências.


Todas estas posições são para mim respeitáveis. No entanto, talvez pela minha tendência para tudo simplificar, a mim nada disto me perturba, nada disto afecta a minha Fé. Pois, com efeito, se para mim a autoridade papal é inquestionável, já a questão da sua infalibilidade, essa emociona-me muito menos.
Talvez muitos católicos não saibam que o dogma da infalibilidade é bastante recente: foi instituído em 1870 no Concílio Vaticano I pelo papa Pio IX. Surgiu num contexto político e social muito particular em que a Igreja Católica lambia as suas feridas e procurava um novo papel no Mundo depois de quase cem anos de feroz secularismo e anti-clericalismo. Não conheço nem tenciono conhecer as razões teológicas profundas que levaram à porclamação deste dogma mas compreendo-a em termos humanos como um tocar a reunir, um reafirmar de posições, numa Igreja fragilizada e traumatizada, que viu serem linchados arcebispos em países tidos como pilares da Cristandade.


O que talvez ainda menos católicos terão consciência é de que a infalibilidade papal não é um atributo, um carisma permanente, tendo condições muito particulares para ser exercida as quais, de acordo com o estabelecido pelo Concílio Vaticano I, são quatro:
1 - Que o Soberano Pontífice se pronuncie formalmente “ex-cathedra, isto é como sucessor de Pedro, Bispo de Roma e soberano da Igreja Católica, usando os poderes das chaves, concedidas ao Apóstolo pelo próprio Cristo;
2 – Que se pronuncie sobre a Fé e a Moral;
3 – Que queira ensinar à Igreja inteira;
4 - Que o Sumo Pontífice intencione proferir sentença definitiva sobre o assunto em causa.

Somente tal sentença definitiva goza do atributo da infalibilidade. Este não se estende nem aos argumentos previamente apresentados para fundamentar a definição nem às conclusões que desta decorram. Para exercer um acto infalivelmente, em qualquer documento ou forma de pronunciamento - seja numa encíclica, num decreto especial, bula ou constituição apostólica - o Papa precisa deixar explicitamente claro que o faz nessas quatro condições acima citadas.
Um exemplo curioso: acontece que na Encíclica Humanae Vitae (1968), que rejeita a contracepção artificial e apregoa os meios naturais de controle da natalidade, o Papa Paulo VI não usou a fórmula clássica "Declaramos e definimos", pelo que formalmente não é um documento infalível, embora às vezes pareça que o é...
Aliás, os Papas, no decorrer da história, fizeram uso de seu magistério infalível para formular alguma sentença dogmática apenas doze vezes em vinte séculos!... Tão exígua safra talvez surpreenda muita gente, pois, quando se fala da infalibilidade pontifícia, facilmente se tem a impressão de que os católicos vivem num regime de imposições procedentes do capricho de um mestre humano. Tal impressão, como se vê, está longe de corresponder à realidade.
É precisamente por isso que a minha Fé em Cristo e na Igreja é pouco perturbada por estas questões. Eu aceito verdadeiramente a autoridade papal esforçando-me por conhecer e entender os seus pontos de vista mas isso não significa que eu sinta obrigação em concordar tudo o que emana do Papa. Como a infalibilidade papal não é um dos pilares da minha Fé pois sinto-a como algo de instrumental que se acrescentou, que se enxertou à mensagem de Cristo veiculada pela Igreja, o facto de haver uma discordância minha não prejudica nem a minha fidelidade nem a minha Fé em Cristo, na Igreja Católica e na instituição do Papa enquanto vigário de Cristo.

Para mim pois, polémicas à parte, este Papa vale, e muito, pelo seu exemplo de Fé determinada, consistente, inquebrantável. Vale pela profundidade teológica das suas intervenções. Vale pelo seu esforço de comunhão inter-religiosa. Vale pelo facto de não querer aceitar o mundo como é mas como deve ser. Vale por aceitar o sofrimento e, talvez para se penitenciar e libertar de grandezas efémeras, aceitar mostrar a sua pesada cruz a todos, crentes e não crentes. Determinado, ele está a percorrer a sua Via Sacra. Eis de novo o Cordeiro de Deus.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

(0) comments

O que queres de mim?

Por vezes, o que me dói como nada mais é o abandono da fé, a insuportável ausência da fé.
Não me basta o efémero ou um quotidiano vazio. Dispenso bem uma vida sem sentidos.

Silêncio

Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.
Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.
José Agostinho Baptista

Talvez seja eu que não estou atento.


Carlos Cunha [PARTÍCULAS ELEMENTARES]

(0) comments

A propósito da Providência

No apelo de alguns salmos, porque permitis isto Senhor ao meu povo e a mim, vejo a dificuldade de lidar com a noção de Providência, de penetrar nos mistérios do desígnio de Deus. A noção de Providência anda nos nossos tempos de férias. Raramente é evocada. Mesmo quando se dão cataclismos pessoais ou colectivos. Ninguém a usa para a explicar o dia do desemprego, como ninguém a usa para o 11 de Setembro ou para o Iraque a que Setembro deu origem. Não parece bem que Deus tenha semelhantes desígnios. Que nos Seus planos esteja o subsídio, os aviões ou as bombas.
Há no cristianismo algo de conformista. Isto, claro, se não estivermos a cortar os textos nos sítios onde nos convém. Uma das lições maiores de conformismo parece a lição que é dada em Lucas 3:13-14 aos soldados. Perguntam os soldados: o que havemos de fazer na nossa profissão? – Na resposta não vem um mudai de vida e deixai-vos de guerra, nem um continuai com a guerra, mas um simples não desejeis mais soldo. Não se proclama nenhum fervor pacifista, nem qualquer apelo bélico.
Contudo, este conformismo é – por paradoxal que pareça – um conformismo activo. Por exemplo, na conhecida história da mulher que pouco dando, dá mais do que os muito mais deram. À pobre mulher que dá apenas um soldo, Jesus não lhe diz para parar de dar, para não dar nada, porque pouco já ela tem. Louva o facto de ela dar o que pode.

De facto, se podemos pouco, a lição cristã é de que temos de potencializar o pouco que temos. O resto é com Deus… Contudo, perguntamo-nos vezes sem conta se este pouco que podemos e o muito que Deus pode não gera no mundo a injustiça. Se não devemos revoltar-nos contra ela. E assim, inquirimos o que andará Deus a fazer nos dias que antecedem e procedem do 11 de Setembro.
Não sabemos. E essa é a lição de Job. Mas dizer que não sabemos é de algum modo, curto e é também mentir. E essa é também a lição de Job.
Porque se não sabemos o que vai fazer Deus daqui a um pouco – e já agora, vai mesmo, porque Deus é presente e activo no mundo, não só mas também no milagre –, sabemos que sempre vai amar.
Contudo, se alguém perguntar onde está o amor em 11 de Setembro, e porque é que esse amor não se traduz no evitar que as torres caiam e que as crianças do Iraque sofram, ou se quisermos de um modo mais geral, porque não usa a omnipotência para acabar com o mal no mundo e para acabar no mundo com aqueles que no mundo fazem mal, voltamos novamente ao espanto – e por vezes à indignação de Job e dos salmos.
Até aqui, penso que não há novidade nenhuma. É corrente para muitos que a vontade de Deus é insondável e que não se traduz num transformar a terra no Paraíso. Ou se quisermos, que não se traduz hoje no acontecer hoje do Paraíso. Contudo, ainda assim qualquer coisa do Paraíso vem hoje até nós.

Se Jesus nos diz o que Deus nos quer dizer, diz-nos então que Deus não vai impor hoje o Paraíso pela força. Entretanto, se assim não o temos perto de nós, temos sempre qualquer coisa do Paraíso a brilhar em nós. Quer isto dizer que no meio de qualquer tormenta contemporânea e por maior que ela se apresente, se por um lado não é prometido que a tormenta acabe, é por outro prometido que a semente da paz – o amor – nunca naufragará no seu seio.
Dirão os mais cínicos Diz isso à criança queimada. Respondo: é mesmo isso que lhe é dito. Quando essas palavras se transformam em acções, nas faces que a televisão distorce, nas camas dos hospitais, há a certeza de que a paz não dorme. Nem morre. E isso é providencial.


Fernando Macedo [A BORDO]

(0) comments

Eis como imagino Deus (1)

Há uns tempos atrás o Lutz colocou algumas perguntas pertinentes (como é hábito) num comentário a um dos meus posts:
Se Deus não é omnipotente, a quem ou a o quê atribuis o que está fora do Seu alcance?
Não é, por definição, Deus a origem de tudo?
Existe, para ti, outra instância, ao lado Dele, para além dele?!
Tens dificuldade atribuir a Deus as injustiças da natureza, doenças etc.
Não acreditas na compensação na vida eterna?
O que é quem denominas como Deus? Um ser com quem se pode dialogar? Que é capaz de actos discricionários? E só de bons actos, segundo os teus critérios (que são os meus também...)?

O texto que se segue em três partes (três posts) irá, se Deus quiser, ser publicado ao longo das próximas três semanas. A primeira parte (o post de hoje) é imaginada a partir de um problema matemático conhecido sob o nome de problema de Monty Hall. Todos os textos (o de hoje e os próximos em que imagino Deus) são simplórios, maniqueístas, fantasioso e algo absurdos. São, além do mais, irreais e muito pouco ortodoxos. Não sei aliás se são compatíveis com uma visão católica do mundo. São apenas uma pequena brincadeira que me permite visualizar melhor Aquilo em que acredito.

Segue-se o primeiro texto:
Imagine o leitor deste post que se encontra diante de três portas. Por detrás de duas delas encontra-se o Mal e por detrás da outra encontra-se o Bem.
Pode abrir apenas uma das portas. A abertura de uma das duas portas do Mal implica, nomeadamente, a guerra, a fome, a miséria, o sofrimento e a infelicidade e não é portanto desejável. O objectivo é abrir a porta do Bem para permitir a paz, a bondade, a generosidade, a disponibilidade, a humildade, a felicidade, etc.
Sendo as portas todas iguais (apenas com as letras «A», «B» e «C» respectivamente em cima de cada porta) e nada permitindo saber o que está por detrás de cada uma delas, o leitor não tem outra alternativa senão dirigir-se a uma delas ao acaso, esperando (no óbvio pressuposto que quer o Bem) escolher a porta do Bem e não qualquer uma das duas portas do Mal. Segura na maçaneta da porta «C» para abrir a porta e, nesse momento aparece Deus que lhe diz o seguinte :
«Antes de abrires essa porta vou-te dar uma informação:
Não sei se a porta que vais abrir é uma porta do Bem ou do Mal. Embora se pense que sou omnisciente, na realidade não o sou e não sei se gostaria de o ser. Alguma coisa sei no entanto e julgo que posso ajudar-te: sei que a porta «B» é uma porta do Mal.
Infelizmente, não posso dizer mais nada. Embora muita gente que acredita em Mim julgue que sou omnipotente, tal é outra tolice sem sentido. Posso fazer alguma coisa, mas para fazer muita coisa preciso também de ti. O acaso é demasiado poderoso para, sozinho, poder fazer com que dele só saia o Bem. Apenas a prática humana do Bem me pode ajudar decisivamente a desequilibrar os pratos na balança do acaso e é em termos universais e não por um simples e egoísta sistema de trocas individual que tal se passa. Os meus poderes não vão além de uma simples porta.
Para chegares ao Bem compete-te agora decidir se queres persistir nas escolhas que fizeste inicialmente sem a minha ajuda ou se entendes que deves fazer agora uma escolha diferente daquela que fizeste baseado apenas em ti próprio.
Qual escolhes : a porta «C» determinada apenas pela tua escolha ou a porta «A» que é a tua única alternativa à porta «C» na sequência da minha intervenção? Ou consideras que não te ajudei em nada pois é indiferente escolher uma ou outra porta porque as probabilidades de por detrás de cada uma delas se encontrar o Bem são idênticas?»

Este problema, no seu aspecto puramente lógico-abstracto, abstraindo do carácter divino da intervenção e do contexto religioso da sua formulação, tem duas hipóteses de resposta possíveis, embora só uma delas esteja correcta de um ponto de vista lógico-matemático.
Primeira resposta: Existem probabilidades idênticas de, após a intervenção divina, se escolher a porta certa de entre as portas «A» e «C».
Segunda resposta: Depois da intervenção divina, existem mais probabilidades de acertar na porta certa se mudarmos de escolha da porta «C» para a porta «A».

Apenas para divertimento de quem leia este post, e não saiba ainda a solução matemática do problema ou não esteja disposto a ir à internet vê-la, não coloco hoje aqui a resposta matemática correcta (mas essa também é a que menos interessa aos objectivos desta pequena história). Colocá-la-ei aqui para a semana no post que constituirá a segunda parte deste texto.

Timóteo Shel [TIMSHEL]

(0) comments

segunda-feira, setembro 20

 

Comentário à...

... Carta aos bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo
(recebido por e-mail)

É este o título dum documento assinado pelo cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cuja leitura atenta se recomenda vivamente, não tanto pelo que diz, mas talvez e sobretudo pelo que (ainda) não diz, mas que já se vai percebendo por entrelinhas e na preocupação de abordar estes assuntos e porque demonstra o rumo que (já) se prevê incontornável em relação à “colaboração (do homem e) da mulher na Igreja…”
É a este documento que me proponho fazer um comentário, mas há sempre um receio em dar uma opinião sobre assuntos de Igreja, parece que se está a entrar em assuntos de Fé, onde podemos influenciar negativamente outras pessoas e dizer disparates que estão mais que demonstrados e evidentes, para não falar na hipótese de dizer heresias ou blasfémias, ou correr o risco de ser excomungado. Pois bem, dando assim um pouco de liberdade à pena, quer dizer ao teclado, e indo um pouco ao sabor do balanço, aceitando o desafio que o texto nos provoca e fazendo uma leitura como se estivesse a ser demonstrado o contrário…
Penso que nunca tinha lido um documento assinado pelo Cardeal Joseph Ratzinger que, criticado por uns e elogiado ou temido por outros, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, se dizia que estava muito bem posicionado para substituir o actual Papa João Paulo II e que conduzia aquela Congregação com mão de ferro, talvez comparável a um possível actual presidente do tribunal central de Inquisição soft dos tempos modernos, mas frente ao qual ninguém desejava ficar na lista negra.
Pois agora com este documento
se verifica que o Cardeal Ratzinger argumenta com grandes conhecimentos, concretamente na área antropológica e bíblica, é um homem que reflecte nos actuais problemas da Igreja e que parece pensar bastante na questão das mulheres, o que, já de si, é (um muito) bom sinal.
Nesta Carta vem dizer aos Bispos de todo o mundo (é a eles que esta carta se dirige) a vossa posição deve continuar a ser esta, como se se temesse que pudessem começar a vir reflexões ou opiniões diferentes. E é aqui que se podem começar a ler as entrelinhas.


Mas vamos ainda um pouco atrás. A Igreja é (continua a ser) uma Organização que tem na sua base e estrutura o homem celibatário. O sexo ou mais exactamente o prazer sexual é algo com que a Igreja ainda se debate com alguns preconceitos ou tabus a resolver. A mulher é um ser criado à imagem e semelhança de Deus - tal como o homem - e com igual dignidade e com os mesmos direitos e deveres na família, na sociedade, no trabalho, na política… e na Igreja também é quase igual!
O casamento ainda tem riscos imponderáveis. Demasiados!

A Igreja, como Organização e estrutura, é mantida apenas por homens, que a mantém e da qual se mantêm, num equilíbrio com um cavalheirismo suficiente para se manter, com algumas estaladelas de verniz e escapadelas por aqui ou por ali, ainda assim compreensíveis no ser humano.
Em Cristo o poder tem um sentido do serviço! No homem o poder tem a tentação do domínio do outro… e isso é mau! É mau no homem em relação à mulher, tal como é mau na mulher em relação ao homem. Ou em qualquer outra situação, quer seja no casamento, na sociedade, no trabalho, na política, na Igreja, etc. Isto é mau e não é preciso complicar muito as coisas com elaborados argumentos para se perceber que é mau.
É fácil carregar a cor da tinta e escurecer a leitura (fora do contexto) que se faça do passado sublinhando apenas o domínio exercido pelo homem sobre a mulher, por exemplo no casamento, já os domínios da mulher sobre o homem serão mais difíceis de perscrutar, mas não deixarão, por isso, de ser violentos e desumanos. E ambos são maus!

Pertencemos a uma cultura em que a mulher sempre foi mais da casa e dos filhos e o homem mais da rua e do sustento. O emprego desafiou a mulher para a rua e a sua participação no trabalho e na sociedade pô-la ao lado do homem, desafiando-o no seu espaço, (e em muitos casos superando-o) e autonomizando-a no sustento. Perderam importância a casa e os filhos. A mulher sente-se mais igual ao homem, fazendo disso coluna da sua realização e felicidade, e o que perdeu… é significativo?
Na sua luta e conquista ainda falta à mulher ser padre ou bispo, são as próximas barreiras a vencer… Visto deste modo é pobre! Parece um argumento de domínio, de poder, não de serviço. Parece uma conquista, com a derrota de alguém.

No documento que nos é dado ler faz-se o elogio da mulher como ser humano, igual ao homem, criada por Deus e, tal como o homem, criada à sua imagem e semelhança. Iguais em dignidade, em direitos e deveres! Colocada assim, e ainda bem, ao lado do homem, tal como Deus a criou.
Parece soar a oco não reconhecer essa igualdade na Igreja.
É esta a contradição do documento. A argumentação está lá. A conclusão é que (ainda) falta. Ao centrar o problema, no ponto 2, o autor parece dizer: as mulheres não deviam ser tão arrogantes, deviam ser mais humildes.
No ponto 5, nos argumentos fundamentais da antropologia bíblica, pode-se fazer uma leitura paralela, entre linhas, como sendo a justificação de que os padres deveriam casar. O quadro afinal parece outro daquele que se desejava pintar.
Parece sempre fácil ler aqueles argumentos como se eles estivessem e ser usados para demonstrar a posição contrária. Afinal o que testemunha Jesus Cristo, o que é seu sinal; o que demonstra o amor de Deus pelo homem… Pode ver-se espelhado no casamento, no homem ou na mulher…«E serão meus discípulos»...!
Afinal quando Cristo disse «fazei isto em memória de mim», não penso que estivesse a excluir as mulheres e imagino no futuro poder ser uma mulher ou um homem ou mesmo um casal a fazê-lo conjuntamente, na Paróquia ou em família na celebração do aniversário do seu Matrimónio. Uma comunidade que se reúne para celebrar e testemunhar a sua Fé, em nome de Cristo!
Aqui d’el Rei que o Cristianismo pode saltar para fora da Igreja!
Ou será que a Igreja (ainda) poderá ser diferente?

Luís Almeida - leitor

(0) comments

Oração preferida

Várias pessoas na comunidade bahá’í sabem que eu tenho um gosto especial por uma oração do Báb. Sabem que se me pedirem para eu ler alguma oração, a minha escolha será sempre a mesma. É daquelas preferências que apenas quando estou com bahá’ís.
Trata-se de uma oração onde se confessa a omnipotência do Criador e a nossa fragilidade, a nossa total dependência da vontade de Deus. É como se nós fossemos apenas uma folha que é levada pelo vento da vontade de Deus.
Por vezes penso que sou viciado nesta oração.

Glorificado és Tu, ó Senhor meu Deus!
És, em verdade, o Rei dos Reis.
Conferes soberania a quem quer que desejes e dela privas qualquer um que Tu queiras.
Exaltas a quem quer que desejes e rebaixas qualquer um que Tu queiras.
Tornas vitorioso quem quer que desejes e humilhas qualquer um que Tu queiras.
Concedes riqueza a quem quer que desejes e reduzes à pobreza qualquer um que Tu queiras.
Fazes que quem quer que desejes prevaleça sobre qualquer um que Tu queiras.
Em Tuas mãos seguras o império de todas as coisas criadas, e através da potência de Teu mandamento soberano chamas à existência quem quer que Tu desejes.
Em verdade, Tu és o Omnisciente, o Omnipotente, o Senhor de Poder.


Para quem contacta pela primeira vez com as escrituras bahá’ís, recomendo que não interpretem o texto de forma literal. Pensem um pouco no que podem simbolizar palavras como “soberania”, “exaltação”, “rebaixamento”, “riqueza”, “pobreza”. A multiplicidade de significados dessas palavras e frases apenas aumenta a beleza da oração.


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

(0) comments

Histórias de vida e alegria, nesta terra (#2)

Subia as escadas lentamente, de olhos no chão, quando cruzou comigo. Costumava vê-la por ali quase todos os dias, mas nunca passava do último banco. Sentava-se e ficava de olhar vago, fitando o Sacrário. Várias vezes dei comigo interrogando-me sobre os seus pensamentos e as suas orações. Eu reconheço que não tenho nada com isso, mas gostaria de perceber aquele olhar...
Desta vez olhou-me hesitante.
- Desculpe…
- Sim?
- Vai ali para aquela sala, atender os pobres?
Sorri. Ela conhecia-me. Talvez melhor do que eu a conhecia a ela...
- Vou para a sala, sim. Mas pobres não são só os que atendemos, somos todos nós. Ali partilhamos o que temos e recebemos o que nos trazem.
É de facto isso que pensamos, os que passamos ali algumas horas por semana, atendendo quem chega. Muitos imigrantes pedindo sapatos (há sempre quem dê uma peça de roupa mas sapatos não, contam) e comida “que não precise de fogão” que não têm; muitas pessoas pedindo para pagar a receita que já devia ter sido aviada, mas o subsídio ou a pensão não chega; muitas mães jovens desempregadas, que querem dar de comer aos filhos e a quem “a mercearia já não fia”; muitos idosos a quem é preciso ajudar a matar a solidão em que vivem…
Contei-lhe que a “sala” não era um serviço público; ali distribuíamos o que a comunidade oferecia. E confidenciei o que recebíamos em troca.
Primeiro olhou-me incrédula e depois, hesitante, perguntou porquê. Sim, porquê. Ela pensava que ali trabalhavam “assistentes sociais” e sabia que isso é um “emprego”, que essas “senhoras” costumam receber ordenado. Mas se não era um emprego, então éramos todas reformadas? Pela minha cara achava que eu ainda não tinha idade. E não trabalhávamos? Sim, claro que trabalhamos. Expliquei que alguns voluntários são de facto reformados, outros estudantes, mas a maior parte é gente comum que vive de outro trabalho e que ali só procuram a felicidade de fazer outros menos infelizes. Entretanto tínhamos chegada à “sala”. Sentamo-nos e recomeçou.
- A felicidade… - hesitou e continuou: houve um tempo em que eu era feliz. Pelo menos pensava que era. Talvez fosse. Depois o meu marido morreu. Custou-me muito, mas já me tinha habituado. Agora o meu rapaz…
A voz sumiu-se e as lágrimas brotaram. Encostei-me um pouco mais a ela, esperando que continuasse.
Eu pensava na minha mãe e no tempo que se seguiu à morte do meu irmão. Sei que a experiência da morte de um filho é inenarrável para a maior parte dos pais. O sentimento que sobrevém é o de viver um paradoxo que invade toda a existência: dos filhos espera-se que continuem a existência dos pais; não é suportável, por isso, que morram antes deles. Por que vivem agora os pais? Para quem vivem agora os pais? Não se é pai nem mãe sem a existência de um filho. Quem nunca o foi não poderá jamais compreender o drama de continuar a ser a mesma pessoa, sem poder sê-lo mais.
E continuou: - Não consigo entender... nada é como antes. A minha vida terminou. Há muito que a minha vida era ser a mãe do João. Ele tinha 23 anos. Quem sou eu agora? Para que vivo agora?
Trabalhando em pediatria já assisti e acompanhei alguns pais após a morte dos filhos. Alguns mudam completamente os seus hábitos e estilos de vida, as suas relações sociais alteram-se, desaparecem todas as razões de existir com o desaparecimento daquela que era a razão maior. Alguns adoecem irremediavelmente. Outros perdem fé e não perdoam a um Deus que acreditavam omnipotente e que lhe tirou o filho amado.
Olhou-me de novo e por entre as lágrimas vi a angústia de quem se encontra à beira do abismo.
E surgiu o lamento feito apelo: Diga-me, se tem fé: onde está Deus? Será que ele não vê o meu sofrimento?
- Eu acho… - hesitei, por minha vez.
O que posso dizer nestes momentos?
Eu acho que Ele chora connosco… - arrisquei.
Iniciamos então um caminho juntas. Hoje somos amigas. Ela é voluntária, partilha o seu tempo e a sua experiência; recebe muito daqueles que ajuda.
Antes, do último banco, os seus olhos fitavam o Sacrário como quem enfrentava um inimigo. Agora, caminha entre os bancos e vai confiante sentar-se no primeiro. Sabe que é amada, que Ele está com ela. Sabe que tem uma razão para viver.
Agora vejo os seus olhos sorrir e agradecer.


marvi [(IN)FIRMUS]

(0) comments

quarta-feira, setembro 15

 

Viagem à Madeira (1991-1992) – breves apontamentos

Recuemos a 1991 ou 1992. Na Madeira, a pedofilia dos miúdos das caixinhas não atormentava a opinião pública que hoje devora a novela da Casa Pia, nem afugentava os turistas que procuravam uma alternativa mais próxima que a Tailândia ou as Filipinas. Na altura ainda não tinha sido ainda descoberto o «défice democrático» da região, na feliz expressão de António Guterres, infelizmente esquecida nos seus tempos de governação.
Então: um grupo de jovens padres resolveu atirar uma pedrada no charco. O documento chamou-se «mais democracia, melhor democracia», se a memória não me atraiçoa. Quem se sentiu atraiçoado foi o bispo local, pressionado pelas forças vivas locais. Afinal, como se atreviam aqueles rapazolas?
Atreveram-se: nas páginas dos jornais locais, nalguns nacionais e no advento da televisão privada, percebia-se que a Igreja Católica na Madeira não era monolítica. As páginas do documento sublinhavam o óbvio. Uma região (ainda hoje) dependente de um governo regional assistencialista e empregador, onde não era permitida a mínima discordância de orientações – sob pena de se sofrer insulto maior pelo insultador-mor, Alberto João.
Mas o essencial no texto era a denúncia da relação doentia da Igreja Católica com o governo caciquista local: a opção evangelizadora pelos que vivem nas margens não se compadece com benesses e benfeitorias do poder.
Por esses anos, num encontro com o bispo do Funchal, dávamos a conhecer-lhe algumas linhas de actuação do Movimento Católico de Estudantes (MCE). Entre as preocupações de jovens militantes, a pobreza era (porventura) a mais significativa. A este discurso – que queria verter em agir concreto a Utopia das palavras – o senhor bispo reagiu: «Ah!, isso da pobreza é lá em África». Como o turismo sexual é no Sudoeste asiático, não é vossa reverência?


Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

[Leia uma nova viagem à Madeira na próxima semana]

(0) comments

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?