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quarta-feira, julho 7

 

SOPHIA, A CATÓLICA

“A mesma palavra repetida muitas vezes transforma-se em baba”. Com este provérbio Burundi, Sophia de Mello Breyner justificava, na homenagem que a Universidade Católica lhe fez em Fevereiro de 1995, a quase ausência da palavra Deus na sua Obra Poética.
Mas a Obra de Sophia, como a sua Vida, está cheia de sinais que nos indicam que a ausência dessa palavra não é ausência do que ela significa. Mesmo quando o poema revela a fragilidade da fé e o desconsolo perante a degradação do mundo, a Esperança é uma constante nas suas palavras. E, mesmo não sendo (aliás, exactamente porque não é) confessional (nem do ponto de vista pessoal, nem do ponto de vista de doutrina), a Obra de Sophia revela uma identidade com marcas profundamente católicas. Católicas porque universais; católicas porque manam duma fonte de fé.

Pessoalmente, tenho aprendido a perceber a liturgia, os ritos e os símbolos da minha fé, muito através da poesia e da arte. Particularmente, com o que vou lendo de Sophia, sinto-me confrontado com um universo marcado pela justeza que remete para a Justiça, onde cada palavra e cada evocação estão no lugar certo, o que tanto tem a ver com a profundidade da liturgia com que celebramos a fé. E se isso se revela na poesia, ainda mais se percebe nos contos e particularmente naqueles que escreveu para os seus filhos e se tornaram depois, naturalmente, património de todas as crianças: há neles uma envolvência, que quase se pode dizer milagrosa, que se refere a uma ética, a uma disciplina comandada pela beleza, onde cada elemento conduz a uma alegria indizível.

Esse sentido litúrgico que deles emana faz com que os textos de Sophia, não sendo imediatamente religiosos, tenham uma capacidade intrínseca de se tornarem em orações.
A Igreja, como tem feito com outros autores, poderá, sem problema algum, integrar na sua Liturgia “oficial” textos de Sophia de Mello Breyner; ocorre-me, por exemplo, que o poema “A Paz sem Vencedor nem Vencidos” (in Dual) seria perfeito como hino de laudes do dia 1 de Janeiro.
Mas um testemunho recente de Richard Zenith, fez-me perceber como essa noção de litugia e ritual lhe estava impregnada em todo o ser. Conta o amigo e tradutor da poetisa que, um dia, estando ela já bastante doente e fragilizada, a visitou e que ela lhe disse: “quando era mais jovem eu dançava, sozinha em casa, os versos que escrevia” e que depois, ao jantar, batendo com os dedos na mesa para fazer oscilar as pétalas de umas rosas numa jarra sobre a mesa, exclamou: “olhem como dançam! (...) Já que não posso mexer os pés mexo os dedos.” (revista Relâmpago, nº 9 - 10/2001)
Talvez para muitos isto não faça sentido: foi a maior lição de Liturgia que já recebi.

Um dos livros de Sophia chama-se No Tempo Dividido, e por toda a sua obra encontramos o confronto com essa divisão: “o nosso tempo é tempo / de pecado organizado” (Cantata da Paz) porque “este é o tempo em que os homens renunciam” (Este é o Tempo, in Mar Novo), mas “livres habitamos a substância do tempo” (25 de Abril, in O Nome das Coisas). Há um tempo em que a hipocrisia e a prepotência imperam aliadas à indiferença e à preguiça, e há um outro tempo da cidadania e da consciência cívica em que podemos olhar os outros nos olhos.

Mas não faria sentido nada disso se as palavras se limitassem a ser meras evocações de realidades abstractas. As palavras de Sophia (toda a verdadeira poesia, afinal...), tal como a liturgia, estão comprometidas e enraizadas na realidade, na dureza da realidade. Assim, podemos considerar as causas, as lutas ou os projectos cívicos, culturais e políticos em que Sophia se envolveu e empenhou, como fazendo parte de um todo com a sua Obra literária.
E é sempre a Unidade do tempo que está no horizonte e se resume na capacidade de ser feliz através da Beleza das coisas:

FELICIDADE

Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta

(in Livro Sexto)

Rui Almeida (RUIALME)

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