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segunda-feira, julho 12

 

SAYFUL-ISLAM

« Que serait-il advenu de moi, si j'avais rencontré les livres de Guénon au temps de ma jeunesse ? » - André Gide (1943).

Na minha conturbada e confusa caminhada de fé, vagueei muito e mudei muitas vezes de opinião, qual navio à deriva. Há pouco mais de dois anos deparei-me com a obra imensa e espantosa de René Guénon. Da pequenez dos meus vinte e sete anos, não estou em posição de falar como André Gide, e considero-me sortudo por ter encontrado os livros de Guénon ainda na minha juventude!
Devo dizer que, depois de folhear as primeiras páginas do primeiro livro de Guénon, foi como se tivesse deixado de andar à deriva. Como se tivesse chegado a um continente vastíssimo, mas de terra sólida! Desde então, não paro de desbravar esse continente, “chateando” todos à minha volta com a obra de Guénon. Aqui a Terra da Alegria parece ser a minha nova "presa" desta "paranóia guénoniana" dos últimos anos, que eu tenho considerado saudável e proveitosa.
Seguramente, a "Terra da Alegria" física encontra-se algures nesse continente ao qual aportei há dois anos...

Então, e qual é o meu mísero contributo para o dia dos convidados desta semana, aqui na TdA? É um excerto e comentário a um artigo de Guénon sobre o tema "Sayful-Islam", ou a "Espada do Islão", publicado pela primeira vez no periódico "Cahiers du Sud", em 1947, e que se encontra reeditado na colectânea póstuma intitulada "Symboles de la Science Sacrée".

A "Sayful-Islam" é um tema actualíssimo, pouco apropriado para esta “Terra” que se quer alegre, mas que me parece muito relevante. O objectivo ao qual me proponho com este pequeno excerto é o de usar os ensinamentos de Guénon para tentar evidenciar o carácter anti-tradicional, e portanto pseudo-islâmico, dos movimentos terroristas ditos "islâmicos". Têm-me sido dirigidas ultimamente acusações vindas de alguns meios anti-religiosos, dizendo-me que a minha forma peculiar de ver o Islão é a de recusar aceitar o terrorismo como o lado negro do Islão. Mas eu sou teimoso, e longe de evidenciar a "minha forma" de ver o que quer que seja, reduzo-me a um dispensável comentário no final, e abro espaço para deixar Guénon falar e mostrar-nos as bases doutrinais que permitem ver como esses actos terroristas pouco têm a ver com o Islão:

"Costuma-se, no mundo ocidental, considerar o islamismo como uma tradição essencialmente guerreira e, por tal, quando é questão nomeadamente do sabre ou da espada (es-sayf), toma-se a palavra unicamente no seu sentido literal, sem mesmo pensar em se questionar se na realidade não existe nesta outra coisa de diverso. Não é aliás contestável que um certo lado guerreiro existe no islamismo, e também que, longe de constituir um carácter particular deste, ele se encontra igualmente na maior parte das outras tradições, incluindo o cristianismo. Sem mesmo lembrar que o próprio Cristo disse: «Eu não vim para trazer a paz, mas a espada", o que pode ser entendido figuradamente, a história da Cristandade na Idade Média, ou seja na época em que ela teve a sua realização efectiva nas instituições sociais, fornece provas largamente suficientes; por outro lado, a própria tradição hindu, que certamente não passaria por especialmente guerreira, porque ela tende sobretudo a não dar grande importância à acção, contém também este aspecto, como nos podemos dar conta ao ler o Bhagavadgîtâ. A menos que se seja cego devido a certos preconceitos, é fácil compreender que assim seja, porque no domínio social, a guerra, quando dirigida contra aqueles que perturbam a ordem e tendo como fim trazê-los de volta a ela, constitui uma função legítima, que não passa no fundo de um dos aspectos da função de «justiça» entendida na sua acepção mais geral. Contudo, este constitui o lado mais exterior das coisas, e por isso o menos essencial: do ponto de vista tradicional, o que dá à guerra assim compreendida todo o seu valor é que ela simboliza a luta que o homem deve travar contra os inimigos que ele traz consigo mesmo, ou seja, contra todos os elementos que, nele, são contrários à ordem e à unidade. Nos dois casos, de resto, e quer se trate da ordem exterior e social ou da ordem interior e espiritual, a guerra deve sempre tender igualmente a estabelecer o equilíbrio e a harmonia (e é por esta razão que ela se relaciona propriamente com a «justiça»), e a unificar deste modo a multiplicidade dos elementos em oposição entre eles. Isto é o mesmo que dizer que o seu propósito normal, e que é definitivamente a sua razão de existir, é a paz (es-salâm), a qual não pode ser obtida verdadeiramente senão pela submissão à vontade divina (el-islâm), colocando cada um dos elementos no seu lugar para os fazer a todos concorrer à realização consciente de um mesmo plano; e importa fazer notar o quanto, na língua árabe, estes termos, el-islâm e es-salâm, são estreitamente aparentados entre si.
Na tradição islâmica, estes dois sentidos da guerra, bem como a relação que eles têm realmente entre eles, são exprimidos tão claramente quanto possível por um hadith do Profeta, pronunciado aquando do regresso de uma expedição contra os inimigos exteriores: «Regressámos da pequena guerra santa para a grande guerra santa» (Rajâna min el jihâdil-açghar ila 'l-jihâdil-akbar). Se a guerra exterior não é senão a «pequena guerra santa», enquanto que a guerra interior é a «grande guerra santa», é então porque a primeira tem uma importância secundária face à segunda, da qual ela é uma imagem sensível; é óbvio que, nestas condições, tudo o que serve à guerra exterior pode ser compreendido como símbolo do que diz respeito à guerra interior, o que no presente caso sucede com a espada." - René Guénon, "Symboles de la Science Sacrée", pp. 175-176.

Como vemos, Guénon não nega o carácter guerreiro das investidas expedicionárias do Profeta. Fazê-lo seria tolo. Mas que abismo separa as "jihâds" do Profeta dos atentados da Al-Qaeda, por exemplo! Como explica Guénon, a única forma de legitimar uma guerra é encontrar nela um propósito unificador de desordens. E no plano social, estas "desordens" são tipicamente ameaças à tradição estabelecida, pelo que uma reacção de auto-defesa será, à partida, legítima. Tentando olhar com imparcialidade para a questão, do ponto de vista de um devoto e honesto membro da Al-Qaeda (será que o os há?), o "esforço" ("jihâd") do "mártir" seria o de tentar repor a ordem islâmica num mundo invadido pela anti-religiosidade e pelo anti-tradicionalismo ocidental. Então, onde falha, em termos rigorosos da "sayful-islam", este falso tipo de “mártir” moderno?

Falha, porque o que faz não se coaduna nunca com a "justiça". A Justiça, relembremos, tem como símbolo principal o da balança, de tal forma é a sua relação estreita com o conceito de equilíbrio. Ao exercer a auto-defesa dos seus ideais através de métodos injustos, o terrorista invalida automaticamente a sua "jihâd". Guénon explicita, numa nota de rodapé, que a «pequena guerra santa só o é desde que seja determinada por motivos de ordem tradicional; toda outra guerra é "harb" e não "jihâd"». Assim, o terrorismo que nos invade os telejornais todos os dias é “harb” e da mais suja e revoltante, nada tendo a ver com “jihâd”! Não são os inocentes mortos em atentados terroristas a verdadeira causa da desordem que todo o muçulmano consciente sente às portas de sua casa! É, por isso, infame que se atente contra pessoas inocentes. Indo mais longe, uma aplicação rigorosa do termo "justiça" invalida que se apliquem medidas desproporcionadas face à ameaça em causa. E a dissolução do mundo tradicional islâmico é um perigo em cozedura lenta, pelo que a resposta a este perigo não pode ser feita à custa da infâmia do assassinato de inocentes. Em vez de ser um "esforço" justo e corajoso, esta nova e falsa "jihâd" não passa de um "esforço" tresloucado e desesperado.

Para terminar, o efeito do terrorismo dito "islâmico" (melhor seria dizer "terrorismo pseudo-islâmico") é sempre o de amplificar a espiral de destruição niilista. Paradoxalmente, os modernos praticantes desta forma pervertida de "jihâd" estão a participar activa e decisivamente na pulsão niilista que acomete contra as muralhas da verdadeira espiritualidade por esse mundo fora. Longe de neutralizar uma ameaça externa e repor o equilíbrio, a falsa "jihâd" propagandeada pela Al-Qaeda funciona como uma perturbação de ressonância, que só faz aumentar o desequilíbrio e dissolver a unidade da doutrina islâmica no caos niilista do terror.

Bernardo Sanchez da Motta (ESPECTADORES)

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