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quarta-feira, julho 14

 

O VÉU DA CRIAÇÃO

«Em primeiro lugar, porque da meditação sobre as obras podemos admirar e considerar a sabedoria divina. Pois (…) Deus produz as coisas segundo a sua sabedoria, por isso nos diz o Salmo: “Tudo fizeste com sabedoria” (103, 24). Por isso, da consideração das obras podemos elevar-nos ao conhecimento da sabedoria divina, já que as fez comunicando-lhes e imprimindo-lhes alguma semelhança sua, como diz a Escritura: “Derramou a sua sabedoria sobre todas as coisas” (Eccli. 1, 10). (…) Em segundo lugar, esta meditação leva-nos à admiração do altíssimo poder divino e em consequência produz nos corações uma profunda reverência. (…) Em terceiro lugar, esta meditação eleva a alma do homem ao amor da bondade divina.» (São Tomás, Suma contra os gentios, livro II, capítulo II – A consideração das criaturas é útil para nos instruirmos na fé).

Muitas coisas concorrem para que o conceito de Criação seja um conceito cada vez mais literário. E com isto quero aqui dizer, ficcional... A Criação diz que Deus criou o mundo, e por isso diz a Sua acção, o Seu efeito em nós e no mundo. Por nos criar e por criar o mundo, podemos ser lidos como sinais. Pois é tradicional conceder que se Deus criou o Universo, o Universo contém alguma semelhança a Deus. Daqui que seja também clássico a procura de compreender Deus procurando compreender o Universo que criou.
No entanto, hoje, a tarefa de tentar compreender Deus a partir da compreensão do mundo parece difícil. As razões teóricas são conhecidas. Antropologicamente, porque somos pensados dentro de um horizonte de humanidade restrita. Cosmologicamente, porque em grande medida, a cosmologia de hoje é ateia e não afirma a presença de Deus no Universo, no seu início, meio ou fim. Entretanto, é a própria natureza tal como hoje a temos que não dá ou dá apenas pistas fracas para lermos a natureza de Deus. Disto nos ocuparemos.
No Universo, e no Universo mais próximo, a Terra, a mão de Deus está cada vez mais oculta pela mão do homem. As cidades, as casas, os arquitectos e os empreiteiros, evidenciam o trabalho de reconstrução humana. Quando queremos deparar com o mundo e o espaço tal como Deus o criou, temos de percorrer longas estradas e serpentear filas de automóveis, lojas, bancos, arranha-céus, percorrer cidades que encolhem o espaço porque nos colocam a todos no mesmo espaço, temos andar pelo asfalto humano que se quer total em quilómetros quadrados.
Se a cidade se constitui como nosso espaço habitual, a casa reproduz o fenómeno da humanização dos nossos contextos. Os fogões deixaram de serem povoados pelo fogo, as lareiras são animais em via de extinção, a luz do dia é substituída pela lâmpada, o cheiro do pavio e da cera dá lugar ao inodoro eléctrico. Os cheiros da carne, das batatas e do peixe, são colhidos pelo exaustor.
Não é preciso ser marxista, nem Marcuse, para aceitar que o tempo que enquadra as nossas acções está hoje sujeito a processos acelerados de racionalização humana. São relógios e relógios, horas de Verão e de Inverno, horários para levantar, para trabalhar, para almoçar, para ver televisão e dormir. A mão humana marca e reconstrói o tempo. E tanto que não concede ao tempo aquilo que lhe foi concedido por Deus. Assim, tende a desaparecer o dia do descanso que Deus concedeu a todos e também aos burros. Trabalhamos aos sábados e aos domingos.
Assim, com o tempo e o espaço oculto pela mão do homem, temos alguma dificuldade em encontrar os meios para desvelar no tempo e no espaço, o espaço e o tempo que Deus criou, aquilo que Ele nos quer dizer por tê-los assim criado.

Fernando Macedo (A BORDO)

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