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quarta-feira, julho 14

 

O TEMPO ERA MAIOR DO QUE SE DIZIA

«E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho

Jorge de Sena

No intervalo de um mês morreram duas figuras notáveis daquilo a que se chama o “meio político português”. Refiro-me a Sousa Franco e a Maria de Lourdes Pintasilgo. Sei como é arriscado fazer comparações. Sei que tiveram percursos, atitudes e personalidades diferentes, mas até isso me leva a invocá-los num mesmo texto: foram pessoas que souberam encontrar um rumo pessoal muito próprio, que criaram, naturalmente, uma maneira pessoal de estar na vida pública.
Ambos foram membros activos da Acção Católica Portuguesa (ACP), nomeadamente na Juventude Universitária Católica (JUC) tendo aí exercido funções de direcção a nível nacional, em épocas diferentes.

E se evoco os seus nomes a propósito da proximidade da sua morte, faço-o sobretudo por serem dos exemplos mais visíveis do que foi a ACP para a formação de cristãos empenhados na construção de um mundo melhor.
A Acção Católica foi, durante o Estado Novo, um modo de juntar os cristãos, ao nível das paróquias, mas também nos meios laborais, rurais e estudantis, de modo a criar dinâmicas de evangelização que partiam dos leigos, pois estes é que estavam nas fábricas, nas empresas, no meio rural e nas escolas. E quando se fala de evangelização, não se trata apenas de aulas de catequese ou doutrinações proselitistas: trata-se de acção, de procurar perceber as necessidades da sociedade em que estavam inseridos e atender a elas a partir da reflexão aprofundada, tomando como ponto de partida o Evangelho, mas também o ensino do Magistério, sobretudo as encíclicas de incidência social: desde Leão XIII que a “questão social” era uma prioridade para a Igreja. A emergência por um lado do liberalismo individualista e centrado no poder económico e por outro de um ateísmo supostamente libertador, traziam a necessidade de criar novos modos de levar a mensagem libertadora de Jesus Cristo àqueles que se iam afastando dela.

“Ver, julgar e agir” foi um método que marcou milhares de cristãos na sua relação com o mundo. Mas as próprias mudanças sociais que permitiram a indiferença generalizada retiraram a força e o impacto a essas formas de associativismo. No entanto, subsistem ainda grupos da Acção Católica e outros movimentos que se regem por esse método, que a partir da mesma fórmula, vêem realidades diferentes, julgam de modo diferente e, consequentemente agem de modo e com capacidades diferentes, como demonstrou o Miguel, testemunhando a sua própria experiência, há duas semanas atrás.
E esse texto do Miguel remete também para uma dimensão muito mais pertinente nos anos 40, 50, 60 do século que passou: o facto de pôr as pessoas a pensar na realidade que as rodeia e a confrontá-la com o Evangelho obriga a sair do facilitismo, a ousar tomar atitudes desconcertantes como as de Jesus, a questionar os poderes e as regras instituídas. Tanto mais, quando essa ousadia é experienciada em dinâmica de grupo. E é natural que surjam os exageros de um lado e as super-protecções conservadoras do outro. Mas, creio eu, é um risco que a Igreja (nós) tem(os) que assumir, pois sabemos que na História, que não pode ser travada, o próprio Jesus Cristo nos acompanha e ilumina.

Tomei como ponto de partida deste texto o nome de duas personalidades que se destacaram no exercício de cargos públicos, mas são “apenas” bons exemplos da formação que a Acção Católica permitiu para que a Democracia se concretizasse e se continue a construir. Encontraremos certamente, noutras actividades, antigos membros da ACP que se destacam pela dedicação e atenção aos outro: no meio sindical, na gestão empresarial, nos vários tipos de associativismo, no voluntariado, no desempenho dedicado de uma profissão ou na vida familiar.

Sermos cristãos não torna nenhum de nós melhor que nenhum outro, mas se assumimos essa pertença ao Corpo de Jesus Cristo, então a Fé impele-nos para o empenhamento na construção de um Mundo onde a verdadeira felicidade é possível.
A Esperança que, como diz S. Paulo, não engana, permite-me perceber que sabermos sempre encontrar caminhos novos a partir destes testemunhos que a comunhão dos santos permite que sejam presentes.

Rui Almeida (RUIALME)

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