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quarta-feira, julho 7

 

NO LEITOR DE CD

A paz assusta - mesmo para quem a defenda. É difícil todos os dias sublinhar atitudes de paz. Quem não gosta, prefere os tambores da guerra. O troar é guerreiro. Qualquer filme ilustra a cena da batalha com fortes ribombares ou violinos em cavalgadas quase ensurdecedoras. Mas é possível fazer da música terra de paz.

Não falo da new age delicodoce carregada de dedilhados misticismos. Experimento antes aventurar-me nas palavras e tons visceralmente diferentes daqueles que todos os dias ecoam das nossas rádios formatadas. Pode parecer absurdo, mas julgo que pela aprendizagem da música fazemos a aprendizagem da paz.

Parêntesis: não consigo ler uma pauta, ouço a música que gosto, tenho uma pequena discoteca à medida de uma bolsa portuguesa.

Em Portugal, queixava-se há dias um artigo de jornal que a música sacra em Portugal é inexistente - ou incipiente. Não penso num regresso ao canto gregoriano, como parecia ser ali sugerido. Mas é um facto. Pouco se faz, com velhas linguagens recicladas da pop-guitarra-e-voz de "it's-the-song-of-silence" ou blowin'in-the-wind" (já é do reino da provocação o punk-evangélico do "profeta" Tiago).

A escola não ajuda: não se cultiva a música. Lembro-me mal das aulas de pífaro em dois anos de «educação musical». Não ficou nada. Há anos que ouço pedagogos e professores falarem da excelência que seria o ensino com (a atenção à) arte. Mas os opinadores da "velha escola" já devem ter assustado os filhos de Rousseau.

Arrisquemos nova pauta, antes de retomar a partitura: numa altura em que se democratizou o gosto de viajar, a bagagem continua a ter pouco lugar para a música. Prefere-se o biquini do Verão tropical ou o perfume apressado do "duty free". Mas a coisa boa da globalização é o mundo todo num clique da internet e as lojas que vendem as bandeiras "made in China" ou o CD "fabriqué au Sénegal".

Tomássemos o gosto também por estas descobertas e saberíamos ouvir o Outro de outro modo - na política, nas igrejas, na vida.

Começar a viagem com Baaba Maal a «chamar-nos à Oração», como os imãs das mesquitas do Oriente, ou escutar em silêncio os ventos andinos de um «Kyrie» de uma "Misa Criolla". Tropeçar num casamento "klezmer" com os Muzsikás ou na festa dos Klezmatics. Percorrer os desertos da alma "sufi" com o afegão Mohammad Rahim Khushnawaz ou o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan. Visitar os banhos do Istanbul Oriental Ensemble ou cair nos braços de Sheila Chandra. Adormecer, por fim, ao som do violão de Ricardo Cobo ou bater uma «soneca» com a voz de Mónica Salmaso. Ou misturar todos os caminhos num só, como na «terra de abrigo» da Ronda dos Quatro Caminhos, acompanhada por coros alentejanos, orquestra e as vozes de Amina Alaoui e Kátia Guerreiro.

Parece uma enciclopédia para mostrar apressadamente que se sabe ou conhece. É fraco este nosso saber: a breve viagem que vos propomos é um exercício de alteridade que só nos pode ajudar a pensar e a sentir que, como cantava alguém, um mundo é suficiente para todos nós.

«A palavra "guerra" significa em hebraico "aproximar-se demasiado um do outro", a ponto de não se conseguir respirar. A paz significa "afastar-se um pouco, para que eu possa respirar". Hoje, sufocamos», escreveu Elias Chacour, que é (num mundo de definições fechadas) palestiniano, árabe, cidadão israelita, cristão. Podemos descobrir a música afastados apenas o suficiente para respirarmos. Podemos descobrir a paz.


Fontes discográficas - para a viagem: «Argentine - Des Andes à La Pampa» (Caravage/Sony, 1998), «Passion - Sources» (Real World, 1989), «The Soul of Klezmer - Rêve et Passion» (Network, 1998), «Sufi Soul - Echos du Paradis» (Network, 1997), «Sultan's Secret Door», do Istanbul Oriental Ensemble, dirigido por Burhan Öçal (Network, 1997), «Terra de Abrigo», da Ronda dos Quatro Caminhos e Coros do Alentejo com Orquestra Sinfónica de Córdoba (Ocarina, 2003), «World Music for Little Ears - Authentic Lullabies from Around the World» (Ellipsis Arts, 1999).

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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