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segunda-feira, julho 19

 

LÍNGUA DOS PÁSSAROS

Reproduzo, na íntegra, a minha (medíocre) tradução do artigo La Langue des Oiseaux, de René Guénon, publicado originalmente na revista Le Voile d'Isis em Novembro de 1931. Termino com um brevíssimo comentário ao texto,que praticamente dispensa conclusões.

"Wa eç-çâffâti çaffanm
Faz-zâjirâti zajran,
Fat-tâliyâti dhikran...

(«Por aqueles que estão dispostos em ordem,
E que caçam repelindo,
E que recitam a invocação...»)
(Corão, XXXVII, 1-3)



Menciona-se frequentemente, nas diversas tradições, uma linguagem misteriosa chamada «língua dos pássaros»: designação evidentemente simbólica, porque a própria importância que é atribuída ao conhecimento desta linguagem,como prerrogativa de uma alta iniciação, não permite tomá-la literalmente. É deste modo que se diz no Corão: «E Salomão foi o herdeiro de David; e ele disse: Ó homens, fomos instruidos na língua dos pássaros (ullimna mantiquat-tayri) e repletos de todas as coisas...» (XXVII, 15).
Por outro lado, vemos heróis vencedores do dragão, como Siegfried na lenda nórdica, compreender também a língua dos pássaros; e isto permite interpretar facilmente o simbolismo em questão. Com efeito, a vitória sobre o dragão tem por consequência imediata a conquista da imortalidade, figurada por qualquer objecto de que o dragão impediria a aproximação; e esta conquista da imortalidade implica essencialmente a reintegração no centro do estado humano, ou seja no ponto onde se estabelece a comunicação com os estados superiores do ser.
É esta comunicação que é representada pela compreensão da linguagem dos pássaros; e, de facto, os pássaros são tomados frequentemente como símbolos dos anjos, ou seja precisamente dos estados superiores. Tivemos ocasião de citar algures1 a parábola evangélica em questão, neste sentido, dos «pássaros do céu» que vêm repousar nos ramos da árvore, desta mesma árvore que representa o eixo que passa pelo centro de cada estado do ser ligando-os todos entre eles2.

No texto corânico que reproduzimos acima, o termo eç-çâffât é considerado como designando literalmente pássaros, mas aplicando-se simbolicamente aos anjos (el-malaïkah); e assim o primeiro versículo significa a constituição das hierarquias celestes ou espirituais3.
O segundo versículo exprime a luta dos anjos contra os demónios, das potências celestes contra as potências infernais, ou seja da oposição dos estados superiores e dos estados inferiores4; é, na tradição hindu, a luta dos Dêvas contra os Asuras, e também, seguindo um simbolismo semelhante àquele que aqui tratamos, o combate do Garuda contra o Nâga, no qual encontramos de resto a serpente ou o dragão do qual se falou atrás; o Garuda é a águia, e, aliás, ele é substituido por outros pássaros como o íbis, a cegonha, a garça, todos inimigos e destruidores dos répteis5.
Finalmente, no terceiro versículo, vemos os anjos a recitar o dhikr, o que, na interpretação mais habitual, é considerado como devendo ser entendido da recitação do Corão, e não, bem entendido, do Corão exprimido em linguagem humana, mas sim do seu protótipo eterno inscrito na «tábua guardada» (el-lawhul-mahfûz), que se estende dos céus à terra como a escada de Jacob, ou seja, através de todos os graus da Existência universal6.

Identicamente, na tradição hindu, é dito que os Dêvas, na sua luta contra os Asuras, se protegiam (achhan dayan) pela recitação dos hinos do Vêda, e que por esta razão os hinos receberam o nome de chhandas, palavra que designa propriamente «ritmo». A mesma ideia está, aliás, contida na palavra dhikr, que, no esoterismo islâmico, se aplica às fórmulas ritmadas cuja repetição tem por fim produzir uma harmonização dos diversos elementos do ser, e de determinar as vibrações susceptíveis, pela sua repercussão através da série de estados, em hierarquia indefinida, de abrir uma comunicação com os estados superiores, o que é aliás,de uma forma geral, a razão de ser essencial e primordial de todos os ritos.

Somos assim levados directamente, como vemos, ao que diziamos no início sobre a «língua dos pássaros» que podemos também chamar de «língua angélica», e da qual a imagem no mundo humano é a linguagem ritmada, porque é sobre a «ciência do ritmo», que comporta aliás múltiplas aplicações, que se baseiam definitivamente todos os meios que podem ser operados para entrar em comunicação com os estados superiores. É por esta razão que uma tradição islâmica diz que Adão, no Paraíso terrestre, falava em verso, ou seja emlinguagem ritmada; trata-se da «língua siríaca» (loghah sûryâniyah) da qual falámos no nosso estudo precedente sobre a «ciência das letras», e que deve ser vista como traduzindo directamente a «iluminação solar» e «angélica» tal qual ela se manifesta no centro do estado humano.
É também por esta razão que os Livros sagrados são escritos em linguagem ritmada, o que, como vemos, faz deles outra coisa totalmente distinta de simples «poemas» no sentido puramente profano atribuido pelo preconceito antitradicional dos «críticos» modernos; aliás a poesia, originariamente, não era esta vã «literatura» na qual ela se tornou por uma degenerescência que explica a marcha descendente do ciclo humano, e tinha um carácter sagrado7.
Podemos encontrar traços até à antiguidade ocidental clássica, quando a poesia era ainda chamada de «língua dos Deuses», expressão equivalente às que indicámos, pois os «Deuses», ou os Dêvas8, são, como os anjos, a representação dos estados superiores.
 
Em latim, os versos eram chamados de carmina, designação que se refere ao seu uso no cumprimento dos ritos, porque a palavra carmen é idêntica ao sânscrito Karma, que deve ser tomado aqui no seu sentido especial de «acção ritual»9; e o próprio poeta,intérprete da «língua sagrada» através da qual transparece o Verbo divino, era vates, palavra que o designa como dotado de uma inspiração de certo modo profética. Mais tarde, por outra degenerescência, o vates passou a ser um vulgar «adivinho»10, e o carmen (de onde vem a palavra francesa «charme») um «encantamento», ou seja uma operação de baixa magia; é este ainda um exemplo do facto de que a magia, diga-se mesmo a feitiçaria, é o que subsiste como último vestígio de tradições desaparecidas.

Estas indicações bastarão, pensamos, para mostrar como estão errados aqueles que ridicularizam as narrativas onde se fala da «língua dos pássaros»; é verdadeiramente demasiado fácil e demasiado simples tratar desdenhosamente de «superstições» tudo o que não se compreende; mas os antigos, eles, sabiam bem o que diziam quando empregavam a linguagem simbólica. A verdadeira «superstição», no sentido estritamente etimológico (quod superstat), é o que sobrevive a si mesmo, ou seja, numa palavra só, a «letra morta»; mas esta mesma conservação, mesmo que pareça pouco digna de interesse, não é contudo uma coisa assim tão desprezável, porque o espírito, que «sopra onde quer» e quando quer, pode sempre vir reavivar os símbolos e os ritos, e restituir-lhes, com o seu sentido perdido, a plenitude da sua virtude   original.

1. L'Homme et son devenir selon le Vêdanta, cap. III.
2. No símbolo medieval do Peridexion (corruptela de Paradision), vemos pássaros sobre os ramos da árvore e o dragão ao seu pé (ver Le   symbolisme de la Croix, cap. IV). - Num estudo sobre o simbolismo do «pássaro do paraíso» (Le rayonnement intellectuel, Maio-Junho de 1930), o senhor L. Charbonneau-Lassay reproduziu uma escultura onde este pássaro é   representado apenas com uma cabeça e asas, forma pela qual são frequentemente representados os anjos.
3. A palavra çaff, «ordem», é uma das palavras, alías numerosas, das quais alguns quiseram encontrar a origem dos termos çûfî e taçawwuf;   é certo que esta derivação não parece aceitável de um ponto de vista puramente linguístico, mas não é menos verdade que, do mesmo modo que vários outros do mesmo género, ela representa uma das ideias contidas realmente nestes termos, porque as «hierarquias espirituais» identificam-se essencialmente aos graus da   iniciação.
4. Esta oposição traduz-se em todo o ser pela das duas tendências ascendente e descendente, chamadas sattwa e tamas pela doutrina hindu. É o que o Mazdeísmo também simboliza pelo antagonismo entre a luz e as trevas, personificados respectivamente em Ormuzd e Ahriman.
5. Ver, a este respeito, o notável trabalho do senhor Charbonneau-Lassay sobre os símbolos animais do Cristo. Importa notar que a oposição simbólica do pássaro e da serpente apenas se aplica quando este último é visto no seu aspecto maléfico; pelo contrário, sob o seu aspecto benéfico, ele se une por vezes ao pássaro, como na figura do Quetzalcohuatl das antigas tradições americanas; aliás, encontramos também no México o combate da águia contra a   serpente. Podemos, para o caso da associação entre o pássaro e a serpente, lembrar o texto evangélico: «Sejam dóceis como as pombas e prudentes como as serpentes» (São Mateus, X, 16).
6. Sobre o simbolismo do Livro, ao qual este diz respeito directamente, ver Le symbolisme de la Croix, cap. XIV.
7. Podemo dizer, aliás, de uma forma geral, que as artes e as ciências apenas se tornaram profanas por uma degenerescência, que as privou do seu carácter tradicional e, em consequência, de todo o significado de ordem superior; explicámo-nos a este respeito em L'Ésotérisme de Dante, cap. II, e em  La Crise du monde moderne, cap. IV.
8. O sânscrito Dêva e o latino Deus não são senão uma e a mesma palavra.
9. A palavra «poesia» deriva também do verbo grego poiein, que tem o mesmo significado que raiz sânscrita Kri, de onde vem Karma, e que se encontra no verbo latino creare entendido na sua acepção primitiva; originalmente, tratava-se então de outra coisa totalmente diferente da simples produção de uma obra artística ou literária, no sentido profano que Aristóteles parecia ter unicamente em vista quando falava do que ele chamou de «ciências poéticas».
10. A própria palavra «adivinho» não está menos desviada do seu sentido, porque etimologicamente, não é outra coisa que divinus, significando aqui «intérprete dos deuses». Os «auspícios» (de aves spicere, «observar os pássaros»), presságios tirados do voo e do canto dos pássaros, estão especialmente próximos da «língua dos pássaros», entendida agora no sentido mais material, mas contudo identificada ainda à «língua dos deuses» pois que estes eram vistos como manifestando a sua vontade por estes presságios, e os pássaros fariam assim o papel de «mensageiros» análogo ao que é geralmente atribuido aos anjos (de onde vem o seu nome, pois é esse o sentido próprio da palavra grega angelos), se bem que tomada sob um aspecto muito inferior. "

 

Este texto dispensa comentários, de tal forma é claro, abrangente, e ao mesmo tempo sucinto. René Guénon demonstra cabalmente, recorrendo a exemplos de inúmeras tradições (muitas das quais nunca tiveram contacto físico entre si), que a angeologia apresenta significados e interpretações simbólicas surpreendentemente idênticos e coerentes através das várias tradições espirituais do Homem. Sinal evidente (para quem ainda vê) de que estes conceitos não possuem origem humana, tendo origem imediata e directa no revelatum.

Apenas para terminar, queria deixar aqui uma nota de suspeição em relação aos fenómenos "carismáticos" que abundam em certos movimentos cristãos. Na minha opinião, torna-se inevitável ver na incompreensível verborreia dos carismáticos uma paródia algo suspeita à verdadeira "língua dos pássaros" ou "língua dos anjos" ou mais geralmente, ao "dom das línguas".

 

Bernardo Sanchez da Motta (ESPECTADORES)


Comments:
Incrível o texto! Adorei! Muito rico e surpreendente! Parabéns!!
LucianaFP*
 
Nossa, excelente texto!
 
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