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segunda-feira, julho 19

 

"LETTRE À UN RELIGIEUX"

Por sorte e com a ajuda do Bookcrossing consegui caçar a "Carta a um Homem Religioso" que alguém amavelmente deixou na Casa da Cultura de Coimbra à minha espera. Foi publicada em Novembro de 2003 pela editora conimbricense Ariadne. É desse livro que vos falarei hoje. A bem dizer, falarei pouco, antes dando voz a Simone Weil.

Trata-se de uma carta escrita em Novembro de 1942 (menos de um ano antes da morte da sua autora), dirigida ao padre Couturier (um dos primeiros dinamizadores do movimento ecuménico e promotor da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos) e a Jean Wahl. Nessa carta enumera um conjunto de trinta e cinco questões que se colocam como obstáculos à sua adesão à Igreja. Pede ao seu interlocutor uma resposta inequívoca e categórica sobre a compatibilidade ou incompatibilidade de cada uma dessas ideias com a pertença à Igreja. Lembro que estamos em 1942, vinte anos antes do papa João XXIII dar início às sessões do Concílio Vaticano II. E para dar conta disso, deixo-vos o trecho inicial desta carta, que muitos de nós certamente subscreveríamos:
«Quando leio o catecismo do Concílio de Trento parece-me que nada tenho a ver com o que ele expõe. Quando leio o Novo Testamento, as místicas, a liturgia, quando vejo celebrar a missa, sinto como que uma espécie de certeza de que esta fé é a minha, ou mais exactamente, seria a minha se não existisse entre ela e eu a distância criada pela minha imperfeição.»
Não conheci a Igreja antes do Vaticano II senão pelo que vou lendo e ouvindo. Claramente muitas das questões colocadas por Simone Weil foram alvo de discussão e reformulação no Concílio. Salientarei algumas, por puro critério de interesse pessoal.

o ecumenismo antes de Cristo
São múltiplas as interrogações e discussões à volta das tradições que contribuíram para o nascimento do cristianismo. A herança hebraica, encarada como a única fundadora é questionada: «Israel aprendeu a verdade mais essencial sobre Deus (a saber, que Deus é bom antes de ser poderoso) de tradições estrangeiras, caldeias, persas ou gregas e por meio do exílio.» Abundam as referências às figuras mitológicas destas e de outras tradições e à sua influência no que hoje é o cristianismo. Dando um passo mais adiante, discute-se o carácter sacramental de outros ritos e o carácter messiânico de outros messias:
«As cerimónias dos mistérios de Elêusis e de Osíris eram encaradas como sacramentos, tal como os encaramos hoje. E talvez até fossem mesmo sacramentos, com as mesmas virtudes do Baptismo e da Eucaristia, excluindo a virtude que poderia ter ligação com a Paixão de Cristo, já que a Paixão ainda estava para acontecer. Actualmente ela já aconteceu. O passado e o futuro são simétricos.»
«Houve, talvez, em vários povos (Índia, Egipto, China, Grécia), escrituras sagradas da mesma qualidade que as escrituras judaico-cristãs. Alguns textos que subsistem hoje são talvez fragmentos ou ecos.»
As referências à antiguidade pré-cristã multiplicam-se, com citações de imensas personagens reais e mitológicas (muitas ainda que não sabemos bem distinguir!). Qual a importância disso hoje, 2000 anos depois de Cristo? Simone Weil quer reconciliar-nos com o nosso passado mais longínquo e porventura mais esquecido e com isso reconciliar a nossa vida e a nossa organização social com a mensagem cristã:
«A extrema importância actual deste problema está no facto de ser urgente remediar o divórcio que existe desde há vinte séculos e que tem tendência a agravar-se, entre a civilização profana e a espiritualidade nos países cristãos. A nossa civilização não deve nada a Israel e muito pouco deve ao cristianismo; ela deve quase tudo à antiguidade pré-cristã (Germanos, Druidas, Roma, Grécia, Egeico-Cretenses, Fenícios, Egípcios, Babilónicos,...). Se existe separação estanque entre esta antiguidade e o cristianismo, a mesma existirá entre a nossa vida profana e a nossa vida espiritual. Para que o cristianismo se encarne verdadeiramente, para que a inspiração cristã impregne toda a nossa vida, é necessário reconhecer, à partida, que, historicamente, a nossa civilização profana procede de uma inspiração religiosa que, ainda que cronologicamente pré-cristã, é cristã na sua essência. A Sabedoria de Deus deve ser vista como a única fonte de toda a luz neste mundo, mesmo as luzes menos claras que iluminam as coisas deste mundo.»

o diálogo inter-religioso
Mas nem só o passado necessita de reconciliação. Também entre as Igrejas e entre as Religiões o diálogo sincero é necessário. Antes da Igreja proclamar que nela apenas “subsiste a Igreja de Cristo”, não detendo ela o exclusivo da Revelação e da Salvação, Simone Weil pediu que aprendêssemos com as outras tradições religiosas:
« A religião católica contém explicitamente verdades que outras religiões contêm implicitamente. Mas reciprocamente, outras religiões contêm explicitamente verdades que só são implícitas no cristianismo. O cristão melhor instruído pode ainda aprender muito sobre as coisas divinas noutras tradições religiosas, ainda que a luz interior possa também fazer com que ele perceba tudo através da sua. Todavia, se estas outras religiões desaparecessem da face da terra seria uma perda irreparável.» Simone Weil gostaria de ter lido a declaração do Concílio sobre “A Igreja e as Religiões não-cristãs”...

os milagres
Uma coisa que sempre me assustou foi a crença suportada por milagres. Como se a nossa fé se pudesse fortalecer por passes de mágico. Do ponto de vista fenomenológico os milagres são perfeitamente indiferentes para a minha fé:
«No que concerne à autenticidade histórica dos factos que denominamos milagres, não existem motivos suficientes para a confirmar nem para a negar categoricamente.
Se admitirmos esta autenticidade, existem várias formas possíveis de conceber a natureza destes factos.
Há uma que é compatível com a concepção científica do mundo. Para o efeito, esta é a preferível. A concepção científica do mundo, bem entendido, não deve ser separada da verdadeira fé. Deus criou este Universo como um tecido de causas secundárias; parece existir impiedade em supor que o tecido tem buracos, como se Deus não conseguisse atingir os seus fins sem atentar contra a sua própria obra.
»

distinguir o essencial
«A afirmação de S. Tomás [de Aquino] que diz que quem recusa a sua adesão a um só artigo de fé não tem fé em grau algum, é falsa (...).» Esta convicção inspira várias passagens da Carta, onde se exige uma distinção entre o que é essencial e o que é secundário na fé cristã, de uma forma radical:
«”Todo aquele que acredita que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus” (1ª carta de S. João 5,1) Logo, todo aquele que acredita nisto, mesmo se não aderir a mais nada do que afirma a Igreja, tem a verdadeira fé.»
O que é essencial e que é secundário nos ensinamentos da Igreja? É uma questão pertinente ainda hoje. Uma das questões que Eduardo Prado Coelho coloca a D. José Policarpo nos artigos que trocaram no Diário de Notícias (recentemente editados no livro "Diálogos sobre a Fé" pela Editorial Notícias) passa precisamente por esta discussão: está hoje em voga cada um elaborar a sua fé pessoal prescindindo de vários ensinamentos da Igreja no que Prado Coelho chama de "religião por ementa, numa espécie de bricolage, em que cada um pega no que lhe serve melhor, mas ninguém arrisca por inteiro". O Cardeal Patriarca não chega a responder directamente a esta questão. Mas deixa claro que é necessário distinguir o essencial do acessório. E que essa distinção é morosa e exige paciência. Referindo-se à expressão «tralha figurativa da religião» que Prado Coelho usa mais adiante, utiliza uma metáfora para falar da doutrina da Igreja: a experiência de arrumar um sótão velho, onde as memórias se acumulam: «Há no sótão da Igreja outras peças que precisam de ser limpas, porventura descartada, ao ritmo das exigências de adaptação da Igreja à novidade do tempo. Mas isso tem de ser feito com paciência: há sempre alguém que resolve defender e recuperar todo o recheio do sótão de família.»


Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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