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segunda-feira, julho 26

 

LEITURAS, KRISHNAMURTI

Em 1978, quando terminei o liceu, ainda não tinha sido registado para o serviço militar obrigatório, o que me deu tempo para fazer uma minha grande viagem. Trabalhar seis(!) semanas como servente de armazém, o que, na Alemanha Ocidental rica e nestes tempos de vacas gordas, era o suficiente para juntar o dinheiro que me iria sustentar durante os próximos oito meses nos países pobres que ia visitar. Através de auto-stop, de comboio, camioneta, camião, fiz-me ao caminho para Índia. Não tinha nem percurso planeado nem agenda, só um molho de dólares outro de travellers-cheques, o passaporte alemão e uma imensa ingenuidade em relação ao que me esperava.
(Pode-se - e muito bem - raciocinar sobre a justificabilidade ou não duma viagem dum ocioso pós-adolescente europeu à custa do abissal declive de riqueza entre o seu primeiro e o terceiro mundo que visita, mas isso fica para outra ocasião...)

Não fiz a viagem, como outros neste anos, por razões da droga e menos ainda por motivos religiosos: Não estava decididamente a procura dum guru. Para dizer a verdade, para além dum difuso desejo de aventura, o motivo mais forte era um desgosto amoroso, que me tornou especialmente aliciante a ideia de afastar-me tanto da rapariga em questão como de todo o meio de amigos que ela e eu partilhámos.
Foi então um rapaz um pouco triste, inseguro e muito só que percorreu estes países de genuína miséria, culturas de raízes muito diferentes, embora também, especialmente nas cidades, já muito corrompidos e transformados pelo passado colonial britânico e o presente impacto do modelo (sonho) americano.

A solidão que sentia era de facto uma das coisas mais importantes es fortes que me ficaram. Na altura, contra essa solidão eu tinha um remédio especial, que era ler. Nunca ler era tão, como nestes meses, necessário para o meu equilíbrio emocional.
Sempre li muito, mas sempre fiz especial questão em ler com critério. Era um snob, que lia as obras completas de Beckett (apesar de me aborrecerem, na altura, indizivelmente), mas não li O Senhor dos Anéis, exactamente porque a trilogia estava muito na berra nestes anos e porque não havia amigo (amiga!) que não mo recomendasse.
Certamente não lia coisas suspeitas de esoterismo, coisa que desprezava não por motivos religiosos, mas por causa do referido snobismo. Também não lia literatura religiosa “séria”, porque a religião me era mesmo muito indiferente na altura.
Assim, cheguei a Índia, este pais tão fértil em profetas e santos, sem mais preparação do que uma leitura de Siddharta de Hermann Hesse.

Era então pela razão da solidão estava que sedento de leitura. E como um turista de mochila não pode levar a sua biblioteca consigo, tem que contentar-se com aquilo que lhe aparece pela frente. Deixei de ler com critério. Na viagem de comboio de Madras para Delhi (que demorou três dias) cheguei até a ler e reler os folhetos de contra-indicações dos meus medicamentos. No que de resto consegui deitar mão era dependente das circunstâncias: Livros de bolso em inglês que se vendiam nos quiosques nas estações, o que me levou a descobrir Agatha Christie (vários), E.M Forster (A Passage to India), Emily Brontë (Wuthering Heights), Dostoievski (The Gambler, Crime and Punishment), o Kamasutra, por um lado, e o que se trocava com outros viajantes de mochila ou se encontrava nos second hand bookshops frequentados por estes. E esta selecção reflectia naturalmente os interesses deste grupo de pessoas, ao qual pertencia, apesar de toda a solidão que orgulhosamente suportava e todo o individualismo que me era tão caro. Assim cheguei a ler Tania Blixen (Out of Africa), Jack Kerouac (Lonesome Traveller, On the Road), J.D. Salinger (The Catcher in the Rye, Franny and Zoey), Wilhelm Reich (Character Analysis, The Function of the Orgasm) Erich Fromm (The Art of Loving, Anatomy of Human Destructivity), J.C. Lily (The Centre of the Cyclone), Carlos Castaneda (Jorney to Ixtlan), e Jiddu Krishnamurti.

É uma longa introdução para o texto que quero apresentar desta vez, que é de Jiddu Krishnamurti. Já não tenho o livro que encontrei num quarto duma pensão em Kathmandu, perdi-o há muito e não me lembro sequer do título dele. O texto que aqui apresento encontrei na Internet, quando andava a procura de material sobre Meister Eckhart há umas semanas atrás, e assim lembrei me dele: Pois é, Krishnamurti.
Calculo que qualquer secção de esoterismo que se preze, ou de “Lebenshilfe” - como é que se chama em português essa secção em que se encontram os livros com títulos do tipo “como ser confiante e ter sucesso na vida”? - deve ter Krishnamurti na oferta. Não frequento essas secções de esoterismo, por isso não sei ao certo. De qualquer forma: é essa a razão porque contei a história como o descobri:
Embora Krishnamurti seja arrumado num genre de reputação – merecidamente - duvidosa, e embora haja autores religiosos que gosto mais porque escrevem melhor, de forma mais poética, que têm melhor bagagem filosófica, maior riqueza terminológica e de conceitos, ele é de levar a sério.
A razão porque simpatizo mesmo muito nele, é a coerência com a qual se manteve à margem de todas as organizações que se ocupam de questões religiosas.
Eis o exemplo:
Krishnamurti foi descoberto pela Sociedade Teosófica com 13 anos de idade, que o considerou como encarnação do “Mestre do Mundo” (“Weltenlehrer”), cuja chegada tinha anunciada.
Krishnamurti desenvolveu-se de acordo com as melhores expectativas dessa sociedade, revelando carisma e um espírito forte e independente, mas em 1929, com 34 anos, recusou o papel de Messias, para o qual o tinham preparado durante toda a sua vida.

No dia 3 de Agosto de 1929 fez um discurso, com o qual dissolveu a “Ordem da Estrela”, e do qual era principal. Aqui alguns extractos:
«Eu proclamo que a Verdade é um país sem trilhos. Não se pode aproximar Dela em trilho nenhum, nem pela religião, nem por uma Seita. Isto é a minha posição, e mantenho a de forma absoluta e incondicional. A Verdade, que não tem fronteiras nem condições não é passível de ser organizada... Não é possível fê-la descer para nós, cada um tem que submeter ao esforço para subir para Ela. Não se pode levar o cume para o vale. Para chegar ao cume, você tem que atravessar o vale, subir encostas íngremes e não temer os abismos perigosos. Tem que escalar em direcção a Verdade, ela não pode ser transformada para um nível inferior para si ou organizada».
«A dissolução da ordem não é nenhum grande feito. Não desejo seguidores e realmente pretendo o que digo. No momento em que segue a alguém, deixa de seguir a Verdade. Não me preocupo com o facto se me oiço ou não. Quero desempenhar um determinado trabalho neste mundo e faço o com concentração e determinação. Tenho só um objectivo: libertar o homem. Quero libertá-lo de todas as prisões e de todos os medos e não fundar novas religiões ou seitas ou introduzir novas filosofias. Naturalmente me perguntarão, porque então viajo pelo mundo todo e falo permanentemente. Vou-lhe dizer a razão. Não viajo para ganhar seguidores ou porque quisesse um determinado grupo de discípulos. Não tenho discípulos, nem apóstolos, nem na terra nem no mundo do Espírito».
«Quero que aqueles, que querem perceber-me, são livres. Não quero que me seguem e me transformam numa jaula que chamam religião ou seita. Quero, pelo contrário, que deixam para trás todos os medos – o medo da religião, o medo da salvação, o medo da espiritualidade, o medo do amor, o medo da morte e até o medo da vida. Assim como um pintor pinta um quadro, simplesmente porque lhe da alegria pintar exactamente este quadro, porque é uma expressão do seu eu, a sua beleza, o seu bem estar, assim faço-o [discorrer, LB] – e não, porque quero algo de alguém».
«No lugar de anteriores classificações espirituais, no lugar de deuses antigos criaram novos deuses. Você faz depender a sua espiritualidade, a sua felicidade, a sua iluminação depender de outrem. Embora vocês se prepararam para mim durante dezoito anos, nenhum de vocês está disposto para olhar para dentro, quando digo que todas essas coisas são desnecessárias; quando digo, que têm que deixar cair todas essas superficialidade e procurar a iluminação, o esplendor, a clareza, a incorruptibilidade do vosso eu no vosso interior».
«Estão habituados que lhe digam como avançado estão no desenvolvimento espiritual, qual grau de espiritualidade alcançou. Tão infantil! Quem, se não você pode dizer-lhe, se está incorruptível? Não está a ser sério com essas coisas».
«Essas são algumas razões porque depois de dois anos de ponderação exaustiva tomei essa decisão. Não nasceu dum impulso momentâneo. Ninguém me persuadiu para isso. Não se pode persuadir-me para uma coisa dessas. Dois anos pensei nisto, lentamente, meticulosamente, pacientemente. Agora decidiu dissolver a ordem, porque por acaso sou o seu principal. Você pode fundar outras ordens e esperar por alguém outro. Isso não me preocupa, nem a criação de novas prisões ou novas decorações para estas prisões. A minha única preocupação é com a absoluta, incondicional libertação do homem».
Jiddu Krishnamurti (1895 Madanapalle, Índia - 1986 Ojai, California) 

 Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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