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segunda-feira, julho 26

 

A IGREJA E OS JOVENS

Durante muito tempo me chateou ouvir, em espaços de Igreja, qualquer discurso em que se falasse "dos jovens". Os apelos à sua participação soavam-me a paternalismo. O desejo de que se envolvessem nas actividades da Igreja soava-me a uma mera intenção de aumento da assembleia. E então quando alguém dizia "os nossos jovens", eu estremecia - como se os jovens fossem posse de alguém.
Para mim o problema da participação ou não participação dos jovens sempre me pareceu colocado de uma perspectiva errada. Correndo o risco de generalizar, a maioria dos discursos falavam sempre de uma certa dose de "marketing" que seria necessário utilizar para, posteriormente, podermos "pregar" à vontade, depois dos jovens estarem devidamente cativados. Outra afirmação que me costuma pôr os cabelos em pé é a de que os espaços para os jovens têm de ser divertidos. Divertidos em geral quer dizer lúdicos, cheios de música e alegria mas com pouco espaço para diálogo, para interpelação, para um encontro sincero e questionante. Geralmente, estes tiques revelam uma perspectiva pastoral pouco interessada em acolher verdadeiramente as pessoas. Pouco interessada em ouvir e discutir as interpelações que os jovens lançam à Igreja e em os ajudar a discernir as interpelações que a fé traz à sua vida. «A Evangelização não seria completa se ela não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social dos homens»(1). Para que essa interpelação recíproca aconteça, é necessário diálogo assíduo e sincero. Não se faz com sermões rápidos ou juízos moralistas simples entremeados com umas canções do P.e Borga. Faz-se falando da vida concreta das pessoas, escutando-as, levando-as a sério.
As implicações destas questões na forma como aprendemos a oração são importantes. E antes de falar um pouco mais sobre isso, deixo um trecho de D. Pedro Casaldáliga sobre a oração:
«Chegamos a dizer: "tudo é oração, a luta também é oração". Pois não. A luta não é oração. Nem sequer a luta pela libertação. A luta é a luta e a oração é a oração. Para mim isto está muito claro. Neste ponto devemos ser muito claros e até taxativos… É evidente que muitos irmãos, na luta, na acção, no compromisso com os irmãos, também estão orando. Abertos explicitamente para Deus, às vezes formulando inclusive uma oração explícita, e tudo é oração. O que quero dizer é que não caiamos no simplismo cómodo de dizer que tudo é oração, para justificar o facto de que não fazemos oração explicitamente. A oração exige também a sua hora, seu tempo, seu lugar. Porém é evidente que à medida que nos comprometemos com Deus, à medida que nossa amizade com Ele cresça, e à medida que melhor "tratemos de amizade com Ele", mais normalmente a nossa vida e nossa luta serão oração. Iremos chegando a um ponto de confluência no qual será muito difícil distinguir as águas. Estaremos vivendo então o que os antigos chamavam "estado de oração"».

Compromisso e oração são duas faces da mesma moeda. Já o dizia o Zé Maria Brito, num texto aqui publicado há algumas semanas. Dizia, e bem, que um cristianismo vivido sem verdadeiro encontro com Jesus Cristo cai em activismo ou ideologia. O reverso da medalha, uma vivência religiosa desencarnada onde as implicações da fé na nossa vida não são claras, cai em alienação.
Só se aprende a rezar se estivermos dispostos a escutar Deus na nossa vida concreta. De pouco serve ensinar as fórmulas, mesmo que bem explicadas e com uma fundamentação catequética séria e profunda, se essa aprendizagem não seguir lado a lado a aprendizagem do compromisso com o Outro, da aprendizagem da liberdade ou, nas palavras de Casaldáliga, da luta pela libertação.
O que quer dizer essa luta pela libertação hoje, na nossa sociedade de bem estar? Quererá dizer o mesmo que disse a Casaldáliga e às comunidades eclesiais de base na América Latina? Naturalmente que os problemas dessa sociedade não são os mesmos que hoje se nos colocam. Porém a abordagem usada para descobrir Deus a partir da nossa vida, para aprendermos o compromisso com Deus e com as pessoas, deve ser a mesma:  olhar para a nossa história e para a nossa vida. O Deus dos cristãos revela-se na história. E para falar um pouco mais disso, socorro-me das palavras de Carlos Barbera (1):
«Deus na história. E o que é a história? A história não é o que se passa, nem tão pouco o que acontece às pessoas, mas o que as pessoas fazem com o que lhes acontece. A história é o que se faz, o que se constrói, dinamizado totalmente pelo futuro. É, assim, simultaneamente projecto e tarefa concreta.
Esta entrega de Deus no fazer e desfazer das pessoas é para muitos uma fonte permanente de escândalo. Da história humana pode sair algo bom? Nós dizemos: da história saiu Deus e na sua história encontra-se a possibilidade do nosso encontro com Ele
».
Daí que a abertura à vida concreta dos jovens seja mais importante do que quaisquer estratégias de marketing. Daí que a leitura crente da realidade seja essencial para aprender a oração.
De que falamos com "leitura crente da realidade"? Trata-se de uma expressão forjada entre os movimentos especializados da Acção Católica, que têm organizado a sua pedagogia com acento na acção e na transformação da realidade. A leitura crente supõe uma experiência activa. Não é unicamente uma reflexão sobre os acontecimentos, mas um esforço por ver como a nossa acção é também uma experiência de Deus. Isso aprende-se, em primeiro  lugar, olhando para a nossa vida, em diálogo, conversando, por vezes de forma aparentemente inútil, sobre o que se passa e sobre o que fazemos com o que se passa - sobre a história.
Além disso, a leitura crente da realidade «comporta, inevitavelmente, uma componente orante. O crente não é um esotérico que descobre na realidade significados ocultos. Não é, tão pouco, o pensador que espreme do real gotas de sabedoria. Ele é capaz de ver Deus onde outros só vêem causalidade, processos históricos, equações económicas. É aquele que experimenta a realidade como uma grande parábola de Deus». (2)
É a oração que evita que a leitura crente se transforme em ideologia. A realidade tem muitas leituras. Quem pode estar certo que a sua é a correcta e inocente? Se reconhecemos as nossas limitações em face do Absoluto, estamos dispostos a duvidar e corrigir as nossas leituras - a pedir perdão. Além disso, uma leitura crente pressupõe um horizonte de esperança que nos dinamiza. Um horizonte de esperança que não procura pintar de cor de rosa a realidade, mas que acredita que mesmo que a injustiça vença, ela não terá a última palavra - e aí a oração é de acção de graças.

Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

Notas:
1- Evangelii Nuntiandi nº29, Exortação Apostólica sobre a Evangelização.
2 - Carlos Barbera, “Lectura creyente y oración”, in Cuadernos de Oración, nº 39 (1986).


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