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quarta-feira, julho 7

 

EU NÃO SEI VERSICULAR

Às vezes pergunto-me que autoridade tenho eu para manter um blogue como o Guia dos Perplexos. Falo de autoridade moral mas também e sobretudo de autoridade intelectual e teológica. Deixem-me explicar melhor. Parece-me possível que, às vezes eu dê a impressão de ter sorvido a minha visão de Deus e da Fé da leitura persistente, atenta, anotada, repetida, da Bíblia, toda ela, das obras dos doutores da Igreja, dos grandes teólogos e pensadores. Mas tenho que confessar que não é nada assim!
O que é que eu li afinal? Li os quatro Evangelhos, lá isso li. Embora o de Marcos já há muitos anos. Não li os Actos dos Apóstolos. Epístolas li apenas as duas aos Coríntios. Comecei Romanos mas não acabei. Apocalipse? Nem pensar. Li isso sim a extraordinária Carta a Diogneto mas essa não é do Cânone. E quanto ao Antigo Testamento? Li, com gosto e proveito, o Génesis e o Êxodo, na versão da Vulgata e na versão da Torah. Mas naufraguei no Levítico, Números e Deuteronómio. Li um bocadinho de Samuel e dos Reis. Li (e adorei) Job e Eclesiastes. Li (e horrorizei-me com) Ester e já não não li Rute. E mai nada! Nem Salmos nem Cânticos. Nem Esdras nem Neemias. Nem Provérbios nem Lamentações. Nem Crónicas nem Cantares. E por aí adiante.
Quanto aos Doutores da Igreja, aí sou prático. Li sobre Agostinho mas não li Agostinho. Não li Tomás de Aquino mas li sobre ele. Idem para João da Cruz, Teresa de Ávila, Teresa de Jesus, Bernardo de Clairval, Francisco de Assis, Inácio de Loyola e por aí adiante.
Tenho lido também um bocado de História do Cristianismo e da Igreja. Por autores cristãos e não-cristãos. Li também alguma coisa sobre outras religiões: Judaísmo, Islamismo e Hinduísmo, sobretudo. Li até a História do Ateísmo, de Minois.
Mas então, perguntar-me-ão, e as sagradas escrituras do Cristianismo? É como descrevi acima. E há outra coisa embaraçosa: mesmo naquilo que li sou absolutamente incapaz de identificar ou citar um versículo. Absolutamente nenhum. Das escrituras que li tenho alguma noção do conteúdo e sobretudo do espírito, mas uma noção muito mais vaga da letra. E ao escrever ou conversar sou absolutamente incapaz de esmaltar o discurso com crípticas citações bíblicas.
E, sinceramente, parece-me que esta deficiência não é apenas minha, é comum a quase todos os católicos. Tenho um bom amigo que é padre, de sólida e profunda teologia, e também ele mete um bocado água nos versículos. Ora, os nossos irmãos protestantes, particularmente os evangélicos, não são nada assim. A escola dominical parece dar-lhes uma admirável e invejável proficiência bíblica, incomparável à dos católicos.
Eu penso verdadeiramente que tudo isto tem a ver com a história da relação dos fiéis católicos com a Escritura. É algo que vem da Igreja Romana Latina, separada já da Igreja Ortodoxa Bizantina. Enquanto que nesta a língua grega, a original das Escrituras, se manteve comum entre a sociedade e a Igreja, já no Ocidente a história foi diferente. Aí a línguas dos povos barbarizados evolui do latim para uma multiplicidade de vernáculos enquanto que a Igreja pegou na tradução latina das Escrituras, sacralizou-a e tornou-a definitiva e intocável. Durante séculos a Bíblia esteve inacessível ao povo de Deus e durante mais séculos ainda a missa foi rezada aos católicos em latim. A questão da tradução da Bíblia para a língua comum foi tremenda e gerou o cisma da Reforma. Pode-se assim dizer que, ao contrário dos protestantes, a nossa relação directa com a palavra de Deus é muito mas muito recente: data dos anos 60, do Vaticano II. Até então estivemos muito mal habituados: o clero é que nos explicava a escritura e a esclarecia sobre a sua interpretação.
Isto explicará certamente a deficiente conhecimento que os católicos leigos tem das escrituras e o meu problema com os versículos.
Acontece porém, e isso é o meu ponto, que eu não vejo este facto necessariamente como uma desvantagem em termos de Fé. Talvez seja mesmo uma vantagem! Vou tentar explicar.
Começaria por dizer que nas questões da Fé, como em tudo, é muito importante e proveitoso distinguir o essencial do acessório pois este distrai-nos e desvia-nos daquele. Ora acontece que, na minha humilde opinião, a Fé Cristã é uma Fé que tem uma carga escritural muito pesada com um cânone carregadíssimo de livros sagrados mas, naquilo que é verdadeiramente essencial, é uma Fé extremamente simples.
Talvez seja o Evangelho de João que resume tudo: Cristo, Verbo de Deus encarnado entre nós, veio dar-nos testemunho Dele e do Seu amor paternal por nós. Fez isto através das palavras e do exemplo de vida que nos deixou mas foi pela sua morte na Cruz que o seu testemunho se tornou absoluto e completo. Foi aí que nos deu a verdadeira dimensão do amor divino por nós Seus filhos: um Amor de Pai, aquele que é capaz de dar a vida pelos filhos amados. E reafirmando assim a nossa condição de filhos de Deus convida-nos a viver em amor fraterno uns com os outros. Diz João no fim do seu Evangelho (não sei agora o versículo) que o escreveu para que acreditássemos que Cristo é o Messias, o Filho de Deus, e para que acreditando, tenhamos a nossa vida em Seu nome.
Para mim, este é verdadeiramente o núcleo essencial da Fé Cristã. Quem acredita nisto e vive de acordo com isto já estará em Deus, a caminho do Seu encontro. Claro que o facto de ser simples não quer dizer que seja fácil, pelo contrário. Nada é mais tremendamente difícil do que, em verdade, viver em nome de Cristo.
Tudo o resto da Palavra revelada de Deus aos homens é importante no seu todo e nas suas partes. Acontece que, penso eu, mais nenhuma das partes pode ser considerada por si só como essencial na nossa fé. E é precisamente por isso que o conhecimento profundo e exegético de toda a Bíblia pode fazer com que nós, inteligências limitadas mas orgulhosas, possamos vir a perder de vista a compreensão do espírito essencial da Palavra de Deus, sendo certo que este nunca é a soma de todos os acessórios.
Entendo pois que por esta e também por outras razões, a valorização excessiva da palavra escrita pode conduzir a uma compreensão limitada e estreita da mesma. Jesus disse algures que “o meu jugo é leve”. Talvez isto queira dizer também que a carga escritural sobre os nossos ombros deve ser leve e simples para que transportando-a, possamos fazer o nosso caminho até Deus.
Sei bem que muitos dirão que isto que afirmo é uma visão edulcorada do Cristianismo e permite afinal todo o tipo de distorções interpretativas e cómodos desvios à Vontade revelada de Deus. E dirão que eu sigo pelo caminho mais fácil. Aceito que me digam isso mas acho também que um caminho, por ser difícil, não é necessáriamente o caminho verdadeiro. Às vezes o caminho correcto pode ser aquele mesmo que parece ser mais fácil. E há ainda outra coisa. Com toda a sinceridade, eu acredito e confio profundamente no Espírito Santo, inteligência de Deus em nós, revelado por Cristo. Acredito e confio que Ele, a par da vontade que Deus tem que nos salvemos, nos continuará a orientar. Para além de todas as Escrituras.

JOSÉ (GUIA DOS PERPLEXOS)

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