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quarta-feira, julho 21

 

ESQUERDA, DIREITA, VOLVER

Não viajo hoje pelo comboio da História, para retomar argumentos dirimidos aqui e acolá , sobre a pertinência da esquerda e direita. Não percorro as ruas da Paris a gritar Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Não me perco nas labirínticas vielas de um bairro operário inglês nos dias da industrialização acelerada. Não espreito os campos americanos onde George-de-outra-cepa-Washington forjou um país livre.  

O que aqui conto é na primeira pessoa. Se calhar, trarei episódios já escritos, mas apetece-me abrir as páginas de um certo diário que nunca escrevi sobre a participação política que fui construindo ao longo destes anos. Afinal, prometi-o, «aquilo que aqui me trará [são] todas as pessoas, mesmo aquelas que encontrei apenas uma vez» - e nesse encontro forjei esta construção.  

Redundância, para quem se dá ao trabalho de me ler (ou tresler): os tijolos que foram assentando nos alicerces desta casa confundem-se com a minha participação em coisas da Igreja Católica - primeiro, num acanhado T1 (uma incipiente catequese), depois, alargando a tipologia da casa para um razoável T3 (o saudavelmente rebelde MCE*), onde mais tarde pude entrar em vários anexos e num imenso "hall" de encontro com outras pessoas, outras histórias, outras casas
 
Foi neste T3 que mais cresci: no MCE tínhamos várias manias (ainda se mantêm). Nos conselhos nacionais (uma assembleia geral do condomínio) os militantes defendiam-se com estatutos, regimentos, programas e moções. Havia exercícios quase masoquistas, como uma discussão de alteração estatutária, às 3 da manhã, por causa de uma vírgula (muito antes de um famoso artigo em O Independente sobre a vírgula de uma lei). Outros extraordinários, para melhorar a pintura de um determinado documento sobre moral sexual. Depois votava-se em momentos mais ou menos unanimistas, noutros fracturantes, e até de rejeição...  

"Votos contra", "abstenções", "a favor" - e assim nascia em longas secas uma aprendizagem para a democracia. Não são palavras vãs, quando nos confrontávamos em reuniões gerais de alunos, no mínimo caóticas, nas faculdades que explodiam com as propinas.  
«Assim nascia». Assim... e com muitos outros exercícios. Nem todos longas secas: a democracia pode ser divertida (e não falo de um determinado primeiro-ministro). Adiante.  

Depois os textos de programa. As linhas de orientação. E as moções. Ainda Timor-Leste não era moda - com a diplomacia portuguesa a parecer baquear na frente externa - e meia-dúzia de grupúsculos cristãos acendiam velas por aquele território mártir. E o MCE estava lá. Depois olhava-se para a Escola e a Universidade e procuravam-se respostas, inquietações, propostas para a Educação. Mil e um papéis ajudaram-me a pensar o Mundo, esta outra nossa casa

Pensar o financiamento do ensino superior público, reflectir sobre a anunciada televisão da Igreja, questionar modelos de evangelização com a marca vaticana, lembrar a luta e a vontade de autodeterminação de Timor-Leste, entender a (indi)gestão da vida... Estes e outros muitos assuntos, factos da nossa vida, eram próximos de nós. Nesses tempos, um dia, um senhor padre escreveu um texto entre o indignado e o irónico sobre as preocupações do MCE: que aquilo tinha pouco de católico, não eram preocupações de crentes, coisas como «o longínquo Timor». Esta ficou-me atravessada. «O longínquo Timor» era (é) muito mais importante que qualquer missa. Mais vale queimar as pestanas com longínquas coisas que bater no peito contristado. Coisas minhas. Cá desta minha casa.
 
* - Para quem não tem que saber estas coisas das siglas: com estas três letrinhas apenas queremos dizer Movimento Católico de Estudantes.
 
Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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