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quarta-feira, julho 21

 

DOUTRINA, CATEQUESE E INFERNO

Ultimamente tenho-me sentido algo desconfortável com aquilo que ando aqui a escrever. Às vezes pergunto a mim próprio se a minha caminhada pela Fé não me leva às vezes a saír dos limites doutrinais do catolicismo. Devo aliás dizer, com toda a honestidade, que eu tenho uma noção bastante vaga de quais são esses limites. Nem tenho bem a certeza que eles existam ou devam existir.
Já há duas ou três semanas eu referi aqui o meu incompletíssimo conhecimento dos textos bíblicos. E o mesmo acontece, ainda em maior grau, com o corpo doutrinal oficial, canónico, da minha Igreja. Não li o Novo Catecismo. Nunca li uma encíclica! Terei lido algumas notas pastorais e alguns textos da Conferência Episcopal Portuguesa. E é tudo. A minha condição de católico tem sobretudo a ver com a sensação de pertença a uma comunidade e a uma Igreja que me oferece, de uma maneira que me é satisfatória, o acesso à Palavra de Cristo. Tem também a ver com uma atitude teológica geral com que me identifico no essencial. Tem a ver com uma linguagem que aprendi de certa forma a descodificar. Tem a ver com um ritual compatível com a minha maneira de ser. Tem obviamente a ver com um grande número de católicos, padres e leigos, por quem sinto uma grande afinidade – e aqui na Terra estão uma série deles. E tem também a ver com uma análise histórica que tenho vindo a fazer e que me conforta com a continuidade espiritual e apostólica que entendo existir na Igreja Católica e que recua até aos tempos da verdadeira implantação do cristianismo enquanto fé universalista. Claro que o mesmo se poderia dizer da Igreja Ortodoxa, definitivamente separada da nossa pela transcendentalíssima questão do filioque. Mas eu nasci latino e não grego. Também por isso sou católico. Agora o que não posso dizer é que o sou por me rever totalmente num corpo doutrinal cujos detalhes tão mal conheço.
Vem tudo isto a propósito de um comentário que recebi há dias, segundo o qual o meu blogue (que é, acreditem, a expressão mais completa da minha Fé) é confessional mas nada catequético! Ora isto é absolutamente correcto do ponto de vista do catolicismo a que pertenço. Nem poderia ser de outra forma pois falta-me precisamente a matéria-prima catequética. E como falta, vou muitas vezes buscá-la às mais variadas fontes. Talvez até demais.
Vou dar um exemplo prático para perceberem o meu problema. Perguntam-me muitas vezes se acredito no Inferno, como é que o concebo, quem lá vai parar, etc.,etc. Ora o problema é que verdadeiramente não sei dizer nada de relevante sobre este importante tema de fé dum ponto de vista bíblico ou doutrinal-católico.
A mim, quando me falam do Inferno, do que me lembro logo em primeiro lugar, triste é dizê-lo, é de Sartre e da sua frase lapidar "O inferno são os outros". E isso provoca-me sempre um rewind da minha memória, levando-me até há 22 anos atrás quando no sétimo ano da Alliance Française estudei o "Huis Clos", obra onde Sartre nos atirou à cara esta frase desagradável. Era um livro forte e perturbante pelo menos para a minha adolescência de então. Deixem-me resumir a história:
Cinco ou seis pessoas, depois de morrerem, eram fechadas num quarto eternamente iluminado e com as pálpebras removidas. Aí­, sem poderem dormir, sem poderem sequer fechar os olhos, eram confrontadas com a imagem que tinham deixado no Mundo, naqueles com quem tinham vivido; eram confrontadas com o seu passado, com os seus crimes, fraquezas, omissões, crueldades. E com aquela irresistí­vel tendência humana, disparavam para o lado, rematavam para canto, causando assim um sofrimento ainda maior aos seus companheiros de quarto e de destino. Depois, com o passar do tempo, esta gente era confrontada com o esquecimento dos vivos, com a impossibilidade do regresso e com a impossibilidade de fuga para longe daqueles companheiros onde reviam a sua própria monstruosidade. E por fim percebiam que aquilo ia ser para sempre. Era o Inferno, infinitamente pior do que Bosch imaginara. E Sartre concluiu, pela voz dum daqueles desgraçados, a voz de quem descobriu algo de irreparável, que o Inferno eram os outros.
Recordo-me hoje, perfeitamente, de na altura ter achado que a conclusão a tirar não era nada essa! O que achei, e disse-o numa aula, perante a complacência da professora e dos meus colegas, quase todos eles mais velhos do que eu, o que achei era que o que aquilo tudo queria dizer era que o inferno não são nada os outros, o inferno somos nós próprios!
É claro que o tal Sartre concluía uma coisa totalmente diversa mas afinal ele era apenas o autor do livro e não o autor da interpretação que dele fazemos...
Mais tarde, quando reaprendi a minha Fé, voltei várias vezes a pensar nisto. E hoje, quando ainda não sei bem o que é o Céu e o Inferno, sei de algum modo que Deus, com a liberdade que nos deu, ofereceu-nos a possibilidade de sermos o nosso próprio Inferno. Ou o nosso Céu. Em vida e depois dela. Quero eu dizer com isto que acredito um bocado que, quando morremos, nada levamos senão aquilo que somos, aquilo em que nos tornámos. E isso, para o bem ou para o mal, será aquilo que irá ver ou não ver a Deus, será aquilo que irá ou não ser visto por Ele. Talvez seja por isto que se diz que, embora oferecida por Deus, a Salvação está em nós próprios exactamente como o está a Condenação.
Mas não sei. Será já areia demais para a minha camioneta. Seja como fôr, isto é tudo o que este católico pensou e tem a dizer sobre este assunto transcendente... e talvez não tão importante assim.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)


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