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quarta-feira, julho 28

 

DEUS MORREU.

A frase, exclamação, máxima, “Deus morreu”, da pena do russo, Fiódor Dostoiévski, teve longa vida, prenúncios e ecos. Por exemplo, em Nietzsche, no existencialismo francês. Como é sabido, Dostoiévski acrescentou à frase, “tudo é permitido”. Digamos então: “Deus morreu, então tudo é permitido”.
Quem lê a frase em Dostoiévski, nos Possessos ou nos Irmãos, vê a frase carregada de dramatismo e pode notar na enunciação o anúncio de um cataclismo; por isso, assume nessas obras tons de prenúncio apocalíptico. Aqui, se existir verdade na frase, e se ela corresponder de algum modo ao mundo social e cultural do século dezanove, poderemos dizer que o século dezanove viva o anúncio do fim de uma era como um fim que era seu. Do mesmo modo, se o existencialismo francês reconhecia verdade na frase e se essa verdade era verdadeira, e se essa verdade dava conta de um novo modo de viver, podemos dizer que o século vinte viveu na crença que um novo mundo se inaugurava nos tempos que vivia.
Dezanove via chegar ao fim uma era; vinte o advento de outra. Antes, pensava-se que o comportamento era sujeito a obrigações. Depois, pensou-se que o comportamento tinha o mundo todo à sua frente.
Antes de avançarmos, apenas um parênteses. Hoje, ninguém discute – ou quase ninguém discute – as proibições ou as libertações comportamentais em função da frase. Ou dos termos que a frase utiliza. Ou ainda com mais rigor em função do termo “Deus”, fulcral na economia da frase. Discutimos hoje o que é permitido ou proibido em função de outros conceitos e raramente em função do conceito “Deus”. Por isso, alguma irrealidade nos toca quando lemos as obras de Dostoiévski; achamos que quando um dos heróis dos Possessos se mata para provar que cada um se pode tornar pelo suicídio um novo Deus, algo no mínimo despropositado. Do mesmo modo, achamos um dos meios que Dostoiévski encontra para regressar ao convívio com Deus, a confissão pública dos pecados – do erro, se se lhe quiser chamar assim –, pouco compreensível e para sempre inutilizado.
Por isso, a frase soa estranha. E também pelo seguinte. Pois se a frase em dezanove vive o fim de um reino que restringia o leque dos comportamentos possíveis, e se em vinte vivia o inaugurar uma nova era na liberdade comportamental, e se essa liberdade foi concebida como algo que poderia dar origem a todo o tipo de comportamento, a verdade é que se dezanove acabou, depois de vinte não acabaram as obrigações comportamentais, nem se vive um regime onde todos os comportamentos sejam permitidos.
Há mais razões. E cristãs. Mas fiquemos por outra. A verdade é que se Deus morreu, não caminhamos para o sartriano “sou quem decido o que fazer com a existência”. E isto porque o reino de Deus só desapareceu para dar origem ao reino do ídolo, ao simulacro do divino… A uma cultura marcada pelas interpretações do que Deus queria dizer e daquilo que nos ditava como tarefa, não sucedeu uma cultura onde cada um dita a si o que quer fazer, mas uma cultura onde os ídolos e os seus intérpretes nos dizem o que devemos fazer… Esta não é sem dúvida uma razão nova. Tem apenas a particularidade de não ser consensual e recolher a maioria das provas.

Fernando Macedo (A BORDO)

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