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quarta-feira, julho 14

 

DE UM PONTO DE VISTA MERAMENTE LÓGICO

Talvez a questão central que determina o sentido da nossa existência seja precisamente essa questão: a do sentido da existência.
Quando adquirimos aquilo a que António Damásio chama a consciência alargada, mais exactamente aquilo a que ele chama «o super-sentido da consciência alargada», aquilo que «traz finalmente para a luz o edifício inteiro do ser » (pag. 36 de «O Sentimento de Si», Publicações Europa-América), e nos confrontamos com o Si, isto é, quando o Si se confronta consigo próprio (continuando a utilizar uma terminologia «damasiana») e com a possível teleologia do ser humano que nós somos, isto é, quando nos confrontamos com as questões «porque razão existimos» e «com que objectivo existimos», existem apenas duas respostas possíveis (embora na prática elas raramente existam em estado puro).
A primeira resposta possível é : eu existo para mim próprio, existo para eu poder ter o máximo bem-estar. As outras pessoas são apenas elementos da realidade (tal como as cadeiras, os frigoríficos, etc.). No quadro desta resposta, as pessoas, tal como as coisas, têm apenas o valor da sua utilidade para o meu bem-estar.
A segunda resposta possível é: eu existo para os outros. O sentido da minha existência tem que ver com a felicidade dos outros. Mas quem são os outros? No episódio do Evangelho lido no domingo passado, alguém perguntava a Cristo “Mas quem é o meu próximo?” E Cristo, na belíssima parábola do bom samaritano indicava a resposta: os teus próximo são aqueles que precisam de ti. Ou porque sofrem ou porque se encontram debilitados ou porque são fracos ou porque não conseguem sobreviver pelos seus próprios meios. São aqueles que precisam de ti.
Curiosamente as razões porque acredito em Deus e em Cristo são fundamentalmente intelectuais, racionais e lógicas. Se por detrás do sentido da nossa existência estão aquelas duas escolhas opostas sobre o objectivo da nossa vida e se uma das escolhas é evidente de per se (a de que eu só existo para procurar o meu próprio bem-estar) isto quer dizer que a outra tem que ter o carácter de um imperativo ético, necessariamente de origem divina. De origem divina porque não existe nenhuma razão científica ou utilitária para que eu, seja em que circunstâncias for, ter que sempre obedecer a esse mandamento: ama o teu próximo como a ti mesmo. Cristo não nos manda amar o próximo quando isso nos for útil. Cristo manda-nos amar o próximo sempre: amai os vossos inimigos!
De um ponto de vista puramente intelectual e lógico não existem mais do que dois tipos de moral: a moral utilitária e a moral divina.
Ou acreditamos que a moral é apenas uma superestrutura de origem humana destinada a regular as relações entre os seres humanos e então só é moral aquilo que for útil. O assassínio, o desprezo pelo sofrimento do outro, a tortura, o desprezo pelo outro que é incapaz, fraco ou ineficaz só são imorais em certas circunstâncias. Por detrás desta moral «sociológica» existe uma mensagem subliminar : tem sobretudo cuidado para que não te apanhem porque tudo é relativo.
Ou acreditamos que a moral não é de origem humana e estamos obrigados a cumprir os mandamentos de Deus em toda e qualquer circunstância. Não matarás, não infligirás sofrimento, ama o teu próximo, ama os teus inimigos. Tudo isto são mandamentos absolutos aos quais devemos sempre obediência independentemente de toda e qualquer circunstância.
Não existindo alternativa lógica entre um e outro tipo de moral, tenho que escolher. Se escolho o amor pelo próximo sempre, seja em que circunstância for, de um ponto de vista racional e lógico a minha única fundamentação para tal mandamento é ele não ser de origem humana. Terá portanto que ser um mandamento de origem divina, um mandamento de Deus.
Duas palavras finais.
Uma para responder à constatação de que apenas um homem, o filho de Deus, viveu apenas para os outros, dando a sua vida por eles. Podemos nós, a maioria dos cristãos não conseguir viver os mandamentos de Deus como Cristo os viveu. Mas já é importante saber para onde vivemos virados (como escrevia no saudoso companheiro secreto Tolentino), qual a nossa resposta à escolha fundamental: eu ou os outros ? E mais uma vez não resisto a citar algo que já aqui citei, salvo erro no primeiro Terra da Alegria, o Manuel do palombella rossa: «Só saberá ser cristão quem assumir a ressurreição como uma superação de todos os limites. Talvez assim a fasquia esteja mesmo alta demais. Mas não é de todo inatingível. Porque cada pequena conversão antecipa, em pequena escala, a ressurreição plena».
Finalmente, gostaria de recordar de novo a parábola do bom samaritano. Nessa parábola, quem ajudou a pessoa fraca que sofria não foi o «padre» nem o «cristão» mas sim o «ateu», o «herege». Mais importante do que acreditar em Deus é comportarmo-nos como se Deus existisse.
Os discursos destinados a concluir racionalmente, de um ponto de vista lógico e intelectual, de que é imperiosa a existência de Deus são simples bizantinices intelectuais sem grande importância.

Timshel (TIMSHEL)

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