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quarta-feira, julho 14

 

A CONSTRUÇÃO DE JESUS – Uma Leitura de José Tolentino Mendonça

Um fariseu convidou Jesus para comer em sua casa. Jesus foi e sentou-se à mesa. Uma mulher pecadora da cidade, ao saber que Jesus estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume; e, estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela enxugava-os com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume. Ao presenciar isto, o fariseu, que o tinha convidado, dizia consigo mesmo: Se este homem fosse profeta, bem saberia que espécie de mulher é esta que lhe está a tocar nos pés, pois é uma pecadora. Então Jesus disse ao fariseu: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Fala, Mestre, disse ele. E Jesus falou assim: Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro, cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos a sua dívida. Qual deles o amará mais? Simão respondeu: A meu ver, aquele a quem ele mais perdoou. Jesus replicou-lhe: Julgaste bem. E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas ela lavou-mos com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Não me recebeste com um beijo; mas ela, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo; mas ela, com perfume, ungiu-me os pés. Por isso te digo: os seus numerosos pecados foram-lhe perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas a quem pouco se perdoa, pouco ama. Depois disse à mulher: Os teus pecados estão perdoados. Nisto, os outros convidados puseram-se a comentar assim:: Quem é este homem que até perdoa pecados? Mas Jesus, dirigindo-se à mulher, disse-lhe: A tua fé te salvou; vai em paz.
(LUCAS 7,36-50)

O Padre José Tolentino Mendonça apresentou, no passado dia 6 de Julho, a sua Dissertação de Doutoramento em Teologia Bíblica, na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, intitulada A Construção de Jesus – Uma Leitura narrativa de Lc. 7,36-50, orientada pelo Professor Doutor Jean-Noël Aletti.
A tese defende uma abordagem à exegese bíblica centrada nas estruturas narrativas presentes ao longo dos textos sagrados, de forma a recuperar o espaço metafórico e narrativo da verdade. Diz o autor que «Jesus foi um contador de histórias e os seus discípulos formaram uma comunidade narrante». Para Tolentino Mendonça, «o exercício hermenêutico não se deve realizar como sobreposição, mas como escuta», devendo-se tornar ao texto e respeitar os seus mecanismos. O método proposto – chamado método de análise narrativa – assenta, assim, numa «plataforma interdisciplinar onde a Exegese bíblica estabelece importantes relações com outras áreas como os Estudos Literários, a Teoria do Texto, a Linguística, a Teoria da Comunicação, a Retórica ou Pragmática Linguística». Trata-se, no fundo, de «retomar o precioso e milenar património da narrativa, uma arte que serviu, tanto a judeus como a cristãos, para expressar a fé».
No evangelho de Lucas – um exemplar autor no uso da narrativa –, Jesus é construído gradativamente ao longo dos vários relatos no seu livro, em que a personagem de Jesus é caracterizada através de elementos dispersos no relato. «Aquilo que ele diz e faz (ou silencia); o modo como se dá a sua interacção com os outros actores; os comentários e recursos do narrador; a simbólica que exala do espaço; as continuidades e descontinuidades do tempo, tudo é matéria de revelação».
Partindo da perícope de Lc 7, 36-50 (que foi objecto de disputa teológica até começos do séc. XX, entre as posições católica, que via nele uma prova da necessidade da contrição perfeita para a absolvição dos pecados; e a protestante que argumentava que aí se provava que só a fé poderia ser entendida como verdadeira causa do perdão), Tolentino Mendonça mostra como Lucas constrói a figura de Jesus e nos mostra o seu processo revelatório, seguindo o clássico paradigma triádico: acção (vv. 36-38); reacção (vv. 39-47) e desfecho (vv. 48-50).
Aqui, Lucas, ao descrever tão demoradamente a mulher anónima como paradigma de todos os crentes, quer tenham mais ou menos pecados, parece querer levar o leitor a identificar-se com ela, numa construção do leitor e do discípulo.
Assim, ao longo da leitura deste texto (como doutros), a presença de Jesus é-nos mostrada como anunciadora do perdão, como uma transfiguração do espaço doméstico onde se desenrola a acção, como uma superação do tempo histórico pelo plano do tempo da Salvação.
A tese de Doutoramento de José Tolentino Mendonça foi distinguida com a nota máxima: summa cum laude. Parabéns, amigo Tolentino.

Carlos Cunha (PARTÍCULAS ELEMENTARES)

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