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quarta-feira, julho 14

 

À BOLINA

É bem sabido que a maneira de cada um ver a vida, o mundo e as coisas resulta de uma infinidade de factores: os nossos pais, a educação que nos deram, as experiências de vida, os amigos que se tiveram, as coisas que se conseguiram e as que não se conseguiram. Tudo isso e muitas mais coisas, incluindo aquelas que são deterministicamente injustas. E duplamente injustas, pois o nível de felicidade a que podemos aspirar depende, mais do que de qualquer outra coisa, dessa tal maneira de se ver a vida, o mundo e as coisas. Mas não é disso nem de justiça social que quero hoje falar. Não. O que quero reflectir um pouco é sobre as estranhas e remotas origens das nossas convicções, atitudes e hábitos.
Há poucas semanas reencontrei um amigo de infância, chamemos-lhe João. Há coisa de 30 anos ele e eu conhecemo-nos num clube naval em Lisboa. Os pais de ambos, querendo repercutir vagas tradições marítimas familiares, despejaram-nos a ambos ali, todos os sábados, fizesse chuva ou sol, durante pelo menos 4 anos, em que de certa forma crescemos juntos. No meu caso, o meu Pai meteu-me ali sobretudo para ver se eu deixava de ser um trambolho enrascado, tímido e desajeitado, como eu o era pelos meus 10-11 anos. O João não, esse era um poço de energia que infernizava o juízo aos pais dele, tanto que o punham ali logo às 8 da manhã. Foi ali que aprendemos a navegar, eu à vela, naqueles barquinhos minúsculos e precários, chamados Optimistas, e o João no remo, mais adequado a uma energia férrea e teimosa. Andámos por ali, juntos, durante uns bons anos, até que eu, pelos meus 15 anos, me fartei do “aparelha, desaparelha, lava, arruma, lava outra vez”, e me fartei também das regatas e do seu castrador efeito contra o puro gozo de navegar a todo o pano. Ficou-me todavia o gosto e mais tarde voltei a praticar algo parecido. O João, esse continuou até hoje e veio a ser grande na canoagem nacional.
Quando há semanas nos reencontrámos, ao almoço e boa parte da tarde, pusemos a conversa em dia e falámos abertamente do que somos hoje e de como as opções de vida que tínhamos tomado nos tinham moldado a cada um de nós. Foi uma conversa que me fez recordar muitas coisas, boas e más, e fez também pensar bastante. Nomeadamente nos efeitos que os anos de vela tiveram sobre mim. Em tudo. E é disso que vou falar hoje.
Para os menos versados no assunto, esclareça-se que o único vento que impede um barco à vela de atingir determinado ponto é a sua total ausência. Só aí é que não há nada a fazer. De resto todos os ventos são favoráveis desde que ponham o barco a andar. E, sim, é possível navegar contra ventos e marés: bolinando, ou seja apanhando o vendo sucessivamente por cada um dos lados do barco e avançando sempre, mais ou menos depressa, obliquamente à direcção de onde o vento vem. Da minha incipiente experiência vélica, retirei algumas conclusões básicas e, para mim, estruturantes. Uma espécie de 10 mandamentos:

1º) velejar é mais fácil do que remar.
2º) sabendo de onde vem o vento é possível avançar contra ele.
3º) um vento de través dá infinitamente mais gozo que um vento de popa. Nada é mais chato do que um vento de popa.
4º) o vento pode virar o barco mas também ajuda a voltar um barco virado.
5º) o caminho mais eficiente não é o mais a direito mas aquele em que se navega mais facilmente, mais depressa.
6º) o vento, venha donde vier, pode sempre ser aproveitado.
7º) nós queremos sempre ir para de onde vem o vento.
8º) se não houver mesmo vento nenhum rema-se com o leme.
9º) à cautela leva-se um remo de reserva.
10º) há que saber sempre para onde queremos ir. A deriva deve ser evitada a todo o custo.

Isto pode parecer bacôco mas, vendo agora, estas conclusões de aprendiz de velejador acabaram por ser para mim autênticos princípios de vida. Toda a minha reflexão existencial feita a partir do fim da minha adolescência foi feita a partir destes princípios norteadores. E isto em termos de estudos e mais tarde de trabalho, em termos de miúdas e mais tarde de casamento e família. E, last but not least, em termos de Fé e da forma de procurar Deus e a Sua vontade.
Quero eu dizer com isto que, metaforicamente falando, o meu percurso de vida foi feito muito mais à vela do que a remos. E o mesmo pode dizer-se do meu percurso de Fé. Ora é disso mesmo que eu vou falar para alívio dos leitores que, adivinho, já estarão a pensar saltar para o artigo seguinte.
Vem pois tudo isto a propósito da minha condição de cristão e mais particularmente de católico. Vamos a ver se me consigo explicar. Comecemos pelos aspectos epistemológicos da Fé.
Para alguns, a Fé Cristã, o caminho para Deus é algo que é e deve ser difícil e árduo. São aqueles que procuram no todo da imensidão da Palavra de Deus a chave para a Sua coerência. São aqueles que perante os versículos mais duros os enfrentam de frente em vez de comodamente preferirem a sua relativização interpretativa. São aqueles que, nas palavras do grande Tertuliano, querem “crer porque é absurdo”; direi eu: porque é difícil, porque transcende a condição de homens. São aqueles que assumem, contritos mas determinados, a condição de humanidade decaída pelo peso esmagador do pecado, são os que suspeitam a maldade inata do homem, são aqueles que sabem ser estreito o caminho da salvação e recusam tudo quanto possa engordar os egos. São aqueles que recusam intercessões diluidoras da sua responsabilidade individual perante Deus. São aqueles que as aceitam se e só se forem formas de maior endurance devocional. São aqueles a quem, com todo o respeito, chamo de “remadores da Fé”. Não se pense apressadamente que estou a falar dos evangélicos. Estou talvez a falar daquilo que eu penso que eles são. E estou a falar de outros que conheço melhor, de vários católicos que se enquadram neste perfil.
Para outros, como eu, o caminho para Deus não deve ser assim tão difícil. Começamos por, logo à partida, valorar muito o amor paternal de Deus por nós seus filhos, criados à Sua imagem e semelhança. E assim sendo custa-nos a crer que Deus não queira chamar a todos os que O reconheçam. Somos aqueles que acreditam que, tendo nós uma alma vinda de Deus e que regressará a Ele, a nossa natureza não pode ser inteiramente má, pelo que em todos nós há a possibilidade do Bem. Somos aqueles que vêem a Paixão de Cristo como supremo sinal do Amor de Deus e não como origem preocupante do decaimento da nossa condição, promessa de futuras expiações. Somos aqueles que de João preferem ler o Evangelho em vez do Apocalipse. Somos aqueles que preferem o Filho Pródigo, aqueles que escolhem Coríntios. Mas também somos aqueles que preferem fechar os olhos a certos versículos. De certa forma, a ânsia que temos de chegar Àquele de onde vem o vento, nos faz ir escolhendo o melhor lado para o apanhar, bolinando, avançando assim e gozando também a brisa. Talvez a nossa Fé seja assim menos perfeita e completa. Talvez a facto inegável de não seguirmos a direito possa fazer-nos transviar mais pelo caminho. Talvez este caminho, colocado à nossa frente mas decidido pelo nosso arbítrio, seja mais propício a perdermos a nossa humildade de criaturas de Deus. Teremos certamente de ter muito cuidado com tudo isso. Mas este é um caminho que, de certo modo, nos permite um antegosto de Deus e da Sua plenitude. Em termos mais prosaicos, será um caminho que proporciona de per si uma antevisão do gozo de Deus.
Não sei se isto que disse acima é católico, embora pense que sim. Mas tenho a certeza de que é cristão.
Termino dizendo que quando eu velejava, respeitava imensamente os remadores como o meu grande amigo João. Cheguei muitas vezes a achar que ele tinha mais mérito do que eu.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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