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quarta-feira, julho 21

 

ARREPENDIMENTO E FÉ

A propósito de uma questão colocada pelo José no seu blog, Guia dos Perplexos, onde faz uma reflexão de um post do Carlos colocado na Terra da Alegria, e que acaba com a questão: “ou estarei a ver mal a coisa?”, depois de discutir a relação entre arrependimento e fé e onde acaba por correlacioná-las, digo que é também assim que a vejo: como o José, vejo o arrependimento abrir espaço para a fé e a fé abrir espaço para o arrependimento… é então deste modo que leio o excerto de Lucas (7,36-50), onde Lucas dá conta do arrependimento de uma pecador e daquilo que Jesus lhe diz.

Para aí, nada mais há a acrescentar. No entanto, o José introduz neste post a questão das discussões teológicas. E deixa algumas ficar no ar algumas perplexidades. Por isso, deixo agora ficar aqui algumas notas, no que concerne à bizantinice das disputas teológicas e em particular quanto à discussão da predominância da fé ou do arrependimento.

A Reforma levou a dois movimentos conhecidos: reforma que era jogou na continuação do edifício teológico anterior; por isso, não pode de deixar ter em conta tudo o que a tradição cristã tinha de produzido ao longo dos séculos; aqui, não seria preciso lembrar o apego dos reformados a S. Agostinho, ou esquecer que Agostinho é produto dos séculos anteriores e promotor do pensar cristianizado posterior.
Por outro, Reforma foi reconstrução; e nessa reconstrução, tendeu a acentuar algumas dimensões em detrimento de outras; é conhecida na disputa luterana entre obras e fé, a ênfase na segunda vertente.
A partir daqui e partir da reacção católica à Reforma e aquilo que ela enfatizou, podemos dizer que o catolicismo viveu muito debaixo do signo da reacção; e não só em relação à Reforma; mas também em relação à filosofia – dito de um modo breve – iluminista.
Por isso, por este clima de reacção e contra-reacção, não é de estranhar que no início do século vinte, muitas discussões e também muitos equívocos se mantivessem de pé.

No entanto, mais interessante, neste momento, do que dar conta disso, talvez seja mais interessante realçar alguns factos positivos. E então dizer que de um lado e do outro tem havido todo um longo trabalho de reposição e reequilíbrio nas posições. E que isso tem sido feito e tem levado à reposição de muito que durante muito tempo foram dados adquiridos no cerne do pensar cristão.

Na questão vertente, arrependimento e fé, e para pegar apenas num dos momentos terminais de uma longa meditação sobre estes dois conceitos e que começaram bem cedo, pense-se em S. Paulo, podemos ver em Tomás de Aquino uma tensão no modo como é pensada a relação entre fé e arrependimento – e uma bem católica afirmação – como de resto não poderia deixar de ser – da predominância da fé em relação ao arrependimento, na medida em que Deus é pensado sob o signo da liberdade: não há pecador algum que possa dizer ser possuidor do mérito que possa obrigar Deus a dar-lhe fé; a fé é graça e por isso dádiva gratuita de Deus. Aqui, poder-se-ia perguntar: então o homem não precisa de fazer nada? – Precisa: abrir-se; no caso do pecado, de arrepender-se.

Por aqui se delineia claramente uma tensão no modo como Deus e o homem contactam, pois é afirmada por um lado a liberdade e a acção de Deus e por outro também a liberdade e a acção do homem. Como pode a acção do homem pode ser dotada de autonomia se depende da acção divina e das dádivas de Deus? Como pode ser a acção do homem ser dotada de liberdade, se implica a sua submissão aos ditames da fé que lhe é concedida? - Estas questões ajudam a perceber que se podemos ser claros quanto à tensão, estamos bem longe da clareza quando pensamos a misteriosa relação que Deus estabelece com os homens e a misteriosa relação que os homens estabelecem com Deus.
 
Fernando Macedo (A BORDO)

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