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quarta-feira, julho 7

 

ALGUNS RATOS E UMA JUMENTA

Quem me segue a bordo, sabe que cito muitas vezes de memória e quem me lê deve ter aqui e ali dado conta de alguns lapsos. Por isso, talvez não devesse fazer o mesmo aqui na Terra mas ainda assim vou fazê-lo. Pois, se é verdade que as razões que me levam a fazê-lo talvez pouco interessem a quem a lê, a verdade é que o que tenho para dizer me parece mais interessante do que o rigor com que a minha memória recolhe os factos. Sendo assim passemos então às experiências com ratos e à jumenta de Balaão.

Há anos, penso que num filme de um realizador suíço, apareceu uma experiência com ratos muito interessante. O filme, se a memória não me atraiçoa e se assim não me engano, tinha a intriga pontuada por considerações de natureza psicológica e tais considerações marcadas por uma corrente de pensamento psicológico que não sei como designar. A sua estratégia construtiva consistia mais ou menos no seguinte: havia uma história, e aquilo que as personagens faziam ou iam fazer era explicado por cortes onde uma dada corrente psicológica era utilizada.

Num desses cortes, o filme apresentou uma experiência com ratos. Nesta experiência os ratos encontravam-se na seguinte situação: havia um conjunto de ratos, ou apenas um rato, – já não sei –, colocados num beco sem saída, onde eram sistematicamente martirizados – talvez, com choques eléctricos. O filme seguia a reacção dos animais.

Segundo o filme, esta experiência impunha os seguintes resultados. Os ratos depois de lutarem para alterar a situação negativa, quando reconheciam que eram incapazes de a alterar, passavam a apresentar comportamentos patológicos e auto-destrutivos.

Este corte no filme servia para fornecer um prognóstico acerca do comportamento de uma das personagens principais. No filme, essa personagem viva uma situação em que todos os caminhos de futuro estavam tapados e um presente de choques eléctricos.

A partir desta situação, previa-se que tal personagem mais dia, menos dia, começaria a ter comportamentos patológicos e auto-destrutivos.

Não sei como a história acabou. No entanto, ela serve-me para pensar que estamos habituados a pensar que a alteração das nossas circunstâncias é fundamental. E que abona em favor da nossa tendência para pensar que é a alteração das condições que nos rodeiam que resolvem os nossos problemas. Por exemplo, e pensando apenas num fenómeno, no divórcio, é frequente pensar-se que a alteração de parceiro tem de ser feita para que acabem os problemas de relacionamento prolongado com o sexo oposto.

Seria tolo da minha parte, não conceder que é evidente que as situações nos fornecem alguma dose do caldo de problemas com que temos de lidar. Mas penso, entretanto, que não é a alteração dessas condições que nos põe perante o elixir da resolução dos nossos problemas.

No entanto, parece que isto vai frontalmente contra os dados que são recolhidos na experiência que foi feita com ratos... Para ajudar a nossa tese recorremos a outros animais. E pedimos ajuda à jumenta de Balaão.

Nos Números, quando os Judeus passam por perto do seu território, Balac convoca Balaão para o ajudar com a sua magia a aniquilá-los. Deus fica zangado com Balaão. Balaão parte com os inimigos dos Judeus, montado na sua jumenta.

Um anjo adianta-se no caminho para o impedir de prosseguir. A certa altura, de espada na mão, prepara-se para dar a morte a Balaão que não o consegue ver. No entanto, a jumenta vê o anjo e afasta-o do encontro com a espada. Balaão vergasta a jumenta para que ela volte ao trajecto inicial. Mas acontece novamente o mesmo: a espada do anjo, a jumenta a procurar novo caminho, Balaão a agredir o animal. O animal ofendido acaba por falar com Balaão e repreende-o pelos castigos sofridos. Após o diálogo, o anjo mostra-se a Balaão e Balaão reconhece o erro em que vinha incorrendo.

Os ratos do laboratório não falam connosco. Ou talvez não saibamos ouvi-los. Porque se falassem talvez dissessem como a jumenta que a espada da morte é a circunstância que se encontra à nossa frente. Mas que aquilo que é importante não é essa circunstância, nem sequer evitá-la, o que é de todo impossível, mas aquilo que somos na hora de a enfrentar.

Fernando Macedo (A BORDO)

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