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quarta-feira, julho 28

 

nota editorial

A Terra da Alegria não vai de férias. Não tem para onde ir, pois é uma terra de todos os lugares, um espaço aberto, com o horizonte como única fronteira.
Mas durante o mês de Agosto as palavras darão lugar ao silêncio ou às mil palavras que dizem estar contidas numa imagem.
Voltamos, portanto, na primeira quarta-feira de Setembro. Até lá.


Gerard DAVID, The Rest on the Flight into Egypt (1510)

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PERGUNTAS (RETÓRICAS)

Um dos conceitos mais estranhos que utilizamos no nosso dia a dia é o conceito de culpa.
Mas, o que é a culpa?
Quando se pode dizer que temos culpa?
 A culpa é alguma espécie de rótulo para uma escolha errada?
Podemos escolher?
Uma criança que nasce com uma predisposição genética para comportamentos criminosos, tem culpa?
Uma criança cujos pais não lhe dão qualquer tipo de afecto ou de atenção, cujos professores a marginalizaram completamente, que cresceu num ambiente social e económico degradado em que os comportamentos criminosos são vistos como uma atitude valorizada, e depois comete um crime, tem culpa?
E em situações não tão extremas, podemos nós descobrir a culpa? O comportamento criminoso (ou outro qualquer) é algo que não seja apenas o produto do acaso e das circunstâncias em que nascemos,  crescemos e vivemos? E esta não são também o produto do acaso?
Alguém pode escolher?
Escolher os pais?
Escolher o meio?
Escolher as determinantes genéticas?
Escolher as condições e as circunstâncias em que nascemos e em que vivemos?
Se podemos escolher, quando é que podemos escolher?
Quando nascemos?
Quando crescemos?
Se escolhemos, como escolhemos?
Porque fazemos certas escolhas e não outras?
Baseados em que alternativas?
Aquilo que escolhemos é apenas o produto das nossas determinantes ou predisposições  genéticas, das condições em que nascemos e vivemos e das circunstâncias em que vivemos?
O acaso existe?
Se a Fé é uma mistura de misticismo e de ética (como li algures)  poder-se-á ver a Fé como uma mistura de misticismo ligado à natureza do acaso e de ética cuja essência seja a bondade e o estar ao serviço dos outros?
Será o cristianismo uma religião em que apenas eu sou responsável pelo Mal que pratico e em que quando os outros praticam o Mal são apenas o produto do acaso?
Fará isto sentido?
Será apenas esta a perspectiva em que o perdão total faz todo o sentido?
Apesar de (ou precisamente por) este post ter como título “Perguntas (retóricas)” gostava de o terminar com algo que não fosse uma pergunta. Pensei, escrevi, tornei a reescrever e não estava satisfeito. Escrevi na madrugada de domingo passado. Decidi desistir e deixar o texto assim. Tomei banho e fui à missa dominical da manhã. Na homília o padre explicou o que era e o que não era a oração. Oração não é pedirmos a Deus que Ele faça algo que eu quero para mim próprio. Oração é pedirmos a Deus que Ele faça através de mim aquilo que Ele quer. 

Timshel (TIMSHEL)

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JOB OU O PRINCÍPIO DA INCERTEZA

Há algumas semanas num texto em que eu confessava não saber “versicular”, fiz um pequeno inventário da minha limitada biliografia bíblica. Nessa altura, levado pelo meu habitual arranque retórico, cometi involuntariamente uma imprecisão. Foi quando referi ter lido o Livro de Job. Na realidade não o tinha lido: já tinha lido isso sim algumas versões resumidas, numerosos comentários e alusões e incontáveis citações. Todas elas enfatizando Job como o supremo tratado sobre a Teodicéia ou seja sobre o Mal que existe neste mundo, o Mal permitido ou infligido por Deus, o Mal que recai sobre nós e atormenta a nossa existência. Todas elas definindo Job como o arquétipo do justo que sabe aceitar tudo o que lhe acontece como sendo a Vontade de Deus.
Acontece que não gosto nada de mentir. Sobretudo por escrito. Ora, quando por vezes isso acontece, procuro rapidamente fazer com que a realidade se aproxime da minha afirmação para que esta, apesar de o ter sido, deixe rapidamente de ser uma mentira a martelar-me a consciência.
 Foi então o que fiz e não foi difícil: ler o Livro de Job! Mas também não foi fácil pois a versão que li foi a daquela colecção de livros bíblicos da Três Sinais Editores, cada um dos quais prefaciado por uma figura grande da nossa intelectualidade. Neste caso e apropriadamente por Manuel de Oliveira. Acontece que esta edição se atém a uma tradução fiel da Vulgata Latina de S.Jerónimo sem quaisquer concessões ao português moderno e corrente. Um bocado agreste mas trazendo toda a sumptuosa beleza literária desta obra, uma beleza quase rilkeana. Mas adiante.
 Li portanto Job e posso dizer que fiquei surpreendidíssimo pois vai muito além e, paradoxalmente, fica muito aquém da ideia que eu tinha construído sobre ele. E também porque fiquei também com a impressão de que a esmagadora maioria dos comentários, alusões e referências a este livro que me foram dados a ler também foram escritos por quem também não o leu ou já se esqueceu dele. Para que isto se possa perceber vou explicar resumidamente a ideia que me foi sendo interiorizada sobre esta história.
 Assim, Job seria um homem recto, justo e temente a Deus, até determinada altura abençoado com toda a sorte de graças terrenas que bem faziam jus à sua justiça. Porém, Deus decide testar a fé de Job e faz descarregar sobre ele toda uma série de catástrofes perante a incompreensão de Job que, apesar de tudo, das desgraças e das dúvidas, e devido ao grande amor que tem a Deus, preservera nesse amor e nessa fé inquebrantáveis. Terminava a história quando Deus decide pôr termo às provações de Job e o recompensa de novo com a graça da sua benevolência. A moral da história seria então que, sendo nós criaturas de Deus e sendo insondáveis os Seus desígnios, devemos aceitar o infortúnio como a boa fortuna e devemos sempre preserverar pois grande é o amor de Deus por nós. E seria esta a Teodicéia segundo Job. Era pelo menos aquilo que eu pensava até finalmente o ler.
 Vou então partilhar a leitura que fiz do Livro de Job.
 Depois da curta apresentação de Job, varão sincero e recto, que temia a Deus e se retirava do mal (...) rico de inúmeros bens e grande entre todos os orientais, relata-se a seguinte cena entre Deus e os anjos do Céu:
 Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, achou-se também Satanás entre eles. E o Senhor lhe disse: De onde vens tu? Ele respondeu dizendo: Girei a Terra e andei-a toda. E o Senhor lhe disse: Acaso consideraste o meu servo Job, que não há semelhante a ele na terra, varão sincero e recto, que teme a Deus, e que se afasta do mal? Satanás, respondendo, disse: Acaso Job teme debalde a Deus? Não o circunvalaste tu, a ele e à sua casa, e a todos os seus bens, não tens abençoado as obras das suas mãos, e as suas possessões não tem crescido na terra? Mas estende tu um pouco a tua mão, e toca em tudo o que ele possui, e verás se ele não te amaldiçoa na tua face. Disse pois o Senhor a Satanás: Olha tudo o que ele tem está em teu poder: somente não estendas a tua mão contra ele. (cap.1 6-12)
 Imediatamente Satanás inicia a sua obra, arrancando todos os bens de Job e tirando a vida aos seus filhos e filhas. Porém Job preservera , recusando a blasfémia, e diz: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá: O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim sucedeu: bendito seja o nome do Senhor! (cap 1, 21).
 Vendo isto Satanás apresenta-se a Deus e procura dobrar a parada: toca-lhe nos ossos e na carne e verás se ele não te amaldiçoa (cap.2, 5). Deus aceita e permite que Satanás atinja Job com a terrível lepra. Ao acontecer isto a mulher de Job, um arquétipo interessante, grita-lhe: ainda tu preserveras na tua simplicidade? Amaldiçoa a Deus, e morre! (cap 2, 10) Mas Job mantém-se ainda firme: Falas como uma das mulheres tolas; se nós temos recebido os bens da mão de Deus porque não recebemos também os males? (cap.2, 11)
 Acabasse já aqui o Livro e a ideia que eu tinha dele corresponderia exactamente ao que ele é. Acontece porém que, a seguir a estes dois capítulos iniciais, seguem-se outros quarenta, muito mais complexos e perturbantes e certamente por isso menos citados e conhecidos!
 Logo após àquela soberba réplica à sua indigna esposa, Job recebe a visita de três amigos, vindos para o consolar: Elifaz de Teman, Baldad de Suas e Sofar de Naamath, os quais tendo de longe levantado os olhos, não o conheceram e, exclamando, choraram, e rasgadas as suas vestes, lançaram pó ao ar sobre suas cabeças. E se assentaram com ele na terra sete dias e sete noites, e nenhum lhe dizia palavra; porque viam que a dor era excessiva. (cap.2, 12-13).
 Foi então, apenas então, que Job desabou da sua fé inquebrantável e, mortalmente ressentido pela injustiça com que Deus o atingira, lança um lamento doloroso e lindíssimo:
 
Porque não morri eu no ventre de minha mãe?
Porque não pereci tanto que saí dele?
Porque fui recebido entre os joelhos?
Porque me alimentaram com o leite dos peitos?
Porque agora, dormindo, estaria em silêncio,
e descansaria no meu sono,
juntamente com os reis e conselheiros da terra,
que fabricam para si solidões.
Ou com os príncipes, que possuem o ouro
e enchem as suas casas de prata.
Ou, como o aborto que se oculta, não existiria,
ou como os que, depois de concebidos, não viram a luz.
(...)
O pequeno e o grande ali estão,
e o escravo está livre do seu senhor.
Porque foi concedida luz ao miserável,
e vida aos que estão em amargura de ânimo?
(...)
Porquanto o temor, que temia, me veio
e me aconteceu o que receava.
Porventura não dissimulei? Não me calei?
Não estive sossegado?
E veio sobre mim a indignação.

(cap.3, 11-26) 

Inicia-se então uma longa e rija discussão (cap. 4 a 32!) entre Job dum lado e Elifaz, Baldad e Sofar do outro. Diga-se que todos os quatro partilham daquela crença desses tempos vetero-testamentários, que Cristo nos ensinou a considerar como tão absurda, segundo a qual, a doença, a desgraça, mesmo a pobreza, eram sinais visíveis do castigo divino aos pecados humanos, castigo esse transmissível mesmo ao longo das gerações. Acontece que Job, tanto ou mais do que a sua fé, possui uma indestrutível certeza da sua rectidão e da sua justiça, e gritando-a aos três amigos está verdadeiramente a invectivar Deus por o ter atingido por um castigo tão duro quanto injusto. Já os três amigos simplesmente não acreditam na injustiça divina, certamente por não a haverem experimentado. E sendo assim, apelam veementemente a Job para que se coloque no seu lugar de homem, para que não blasfeme ao querer interpelar Deus quanto às suas razões, para que, ao invés, tenha a humildade de procurar em si próprio e na sua vida os pecados que provocaram a ira de Deus sobre si.
 E ao longo de 28 espantosos capítulos sucedem-se os argumentos e contra-argumentos, a eloquência e a sabedoria, a dureza e a ironia, a veemência e a raiva. E Job, falando com os seu amigos, fala sempre com eles como se estivesse a conjurar Deus, para que ele surja ou fale e explique finalmente porque o atingiu tão dura e injustamente. E passam-se asim os tais 28 capítulos até que cessaram porém estes três homens de responder a Job, porque este se tinha por justo (cap.32, 1)!
 Surge então um personagem misterioso, Eliú, filho de Baraquel, mais jovem do que todos os outros e por isso retido até aí num obscuro silêncio. Mas a partir de agora será ele que fala: inflamou-se em ira contra Job, por este dizer que era justodiante de Deus. Irritou-se também contra seus três amigos, por não terem achado resposta conveniente, senão que somente haviam condenado a Job (cap.32, 2-3). Ele diz: atende Job, e ouve-me; e cala-te enquanto eu falo (cap.32, 31). E Job cala-se, calam-se todos enquanto o eloquente Eliú discursa longamente. E o que ele diz, parecendo a repetição do que os outros disseram quanto à infinita superioridade de Deus sobre o juízo do homem, acaba por trazer aqui e ali algo de totalmente novo. Vejamos aqui: Responderei que nisto foste injusto, pois Deus é maior do que o homem. Por que o acusas de não dar nenhuma resposta a teus discursos? Pois Deus fala de uma maneira e de outra e não prestas atenção.(...) então abre os ouvidos dos homens e os assusta com suas aparições, a fim de desviá-los do pecado e de preservá-los do orgulho, salvando a sua alma da corrupção e sua vida, para que não passe por espada. (cap.33, 12-18). E aqui: Ele pedirá perdão a Deus e Deus se lhe aplacará; e ele verá com júbilo a sua face e Deus justificará de novo este homem. Tornará a olhar para os homens e dirá: Pequei e deveras delinquí, e não tenho sido castigado como merecia. Deus livrou a sua alma para que não caminhasse à morte, senão que vivendo, visse a luz (cap.33, 26-28).
 E o misterioso Eliú termina, antes de desaparecer: Não podemos compreender (Deus) como merece; grande em fortaleza, e em juízo, e em justiça, ele é inefável. Por isso o temerão os homens, e não ousarão contemplá-lo todos aqueles que se persuadem ser sábios. (cap.37, 23-24).
 Este Eliú devia ser uma espécie de enviado pois calando-se ele, surge logo o Senhor, respondendo finalmente a Job, do meio de um redemoinho. E Deus fulmina Job logo de início, de forma terrível: Quem é este que mistura sentenças com discursos ignorantes? (...) Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra? (cap.38, 2-4). E continua por aí adiante até um momento em que diz ao pobre Job: Porventura farás tu vão o meu juízo? E me condenarás a mim, para te justificares a ti? (cap.40, 3).
 Chega finalmente o momento supremo em que respondendo Job ao Senhor, diz: Sei que tudo podes, e que nenhum pensamento te é oculto. Quem é este que, falto de conciência, encobre o conselho? Por isso tenho eu falado nesciamente e o que, sem comparação, excedia a minha ciência. Escuta-me, deixa-me falar: vou interrogar-te, tu me responderás. Meus ouvidos tinham escutado falar de ti, mas agora meus olhos te viram. Por isso me repreendo a mim mesmo e faço penitência no pó e na cinza (cap.42, 1-6).
 E pronto, perante isto, Deus restitui ao seu amado filho Job tudo aquilo que lhe tinha retirado: saúde, riquezas, sete filhos e três filhas e uma longa e ditosa vida. Nada é mencionado sobre a mulher de Job...

 Agora que parei finalmente, respiro um pouco e posso dizer que, agora sim, entendo a riqueza da mensagem do Livro de Job. Entendo agora que a sua teodicéia é muito mais rica e mais satisfatória do que me parecia antes.
 Aquilo que entendo e acredito é que aquele aparente capricho de Deus simboliza o princípio da incerteza a que a nossa condição humana está sujeita, pela razão mesma da liberdade que nos foi concedida. Acredito também que o castigo de Job teve uma forte razão de ser: um pecado que é o pior dos pecados, o orgulho dos justos, convictos da sua justiça, seguros que a vida que construíram garante por si só a sua salvação. Essa era, é e será a maior das iniquidades pois leva a que a prática do bem seja não um fim em si mesmo mas um meio mais na negociata particular que se pensa ter com Deus. E, mais do que tudo, acredito que Deus Pai nos ama e nos perdoa. E que, embora muitas vezes não o percebamos, Ele nos estende sempre mais uma oportunidade.
 
José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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NUNO TEOTÓNIO PEREIRA: CIDADÃO E ARQUITECTO

Fui há dias ver a exposição que está no Centro Cultural de Belém, sobre a obra de Nuno Teotónio Pereira, intitulada Arquitectura e Cidadania. É a retrospectiva do trabalho de um arquitecto com mais de 50 anos de carreira e a prova de que é possível lutar por uma construção que tenha em conta o bem estar individual e colectivo das pessoas.
Em entrevista recente (Jornal de Letras, n.º 880 de 23 de Junho), Teotónio Pereira, com 82 anos, afirma que esta exposição veio na melhor altura, pois ainda não se reformou, mas já está perto disso.
Na mesma entrevista, o arquitecto refere que já não se considera católico, mas que o foi durante muitos anos de uma maneira militante e activa. E a sua obra reflecte esse empenho na construção duma sociedade mais justa e de uma Igreja mais unida e interveniente. De facto, na sua profissão, Nuno Teotónio Pereira, tem-se batido para que os edifícios sejam lugares onde as pessoas se sintam bem e que se enquadrem no seu contexto de cidade, que permita a habitação de qualidade a todos e introduzindo a beleza da arte. Bateu-se também pela adaptação dos espaços litúrgicos às novas realidades de Igreja que passam pelo encontro do crente com Deus e das pessoas umas com as outras, integrando esse espaço numa envolvência de outros aspectos da acção dos fiéis e não omitindo a longa tradição da arte religiosa, antes recontextualizando-a. Foi fundador do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, contribuindo assim para uma reflexão séria neste campo tão importante da vivência da fé.
Mas a sua acção militante e cívica não se resume ao exercício da sua profissão, prolonga-se na intervenção firme de cidadão que intervém e que luta contra as injustiças. Criou, antes do 25 de abril, com outros católicos a Cooperativa PRAGMA, espaço livre de debate e reflexão sobre temas pertinentes, tais como a liberdade de expressão ou a guerra colonial e participou noutros movimentos de oposição ao regime tendo sido inclusivamente preso na sequência da famosa vigília do dia da paz na Capela do Rato.
Mesmo sem nunca ter formalmente leccionado, Teotónio Pereira é uma referência de mestre na arquitectura para as gerações que se lhe seguiram, criou um estilo de atelier colectivo que quase se pode dizer comunitário, envolvendo colegas de várias gerações e dando espaço à criatividade pessoal de cada um.
Creio que, mesmo já não se considerando católico, Nuno Teotónio Pereira continua a ser uma referência e um exemplo para os católicos do nosso tempo.

Notas:
1) a exposição está no Centro Cultural de Belém até dia 31 de Outubro e conta com o alto patrocínio do Presidente da República;
2) "O Instituto Português do Património Arquitectónico vai classificar a igreja de Águas, em Penamacor, e a igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, dando assim um contributo fundamental para que estas obras do presente possam ficar na história.
As igrejas têm a assinatura do arquitecto Nuno Teotónio Pereira (na igreja do Sagrado Coração de Jesus em parceira com Nuno Portas) e estão já abrangidas pelo estatuto de bens protegidos, estatuto que vai manter-se até que termine o processo de
classificação, da responsabilidade do IPPAR." (informação da Agência Ecclesia, 6 de Julho de 2004)
3) em 1996 o jornal Público editou um livrinho intitulado “Tempos, Lugares, Pessoas”, que reúne um valioso conjunto de artigos de Teotónio Pereira, sobre diversos assuntos, para aquele diário. Pelo menos em Lisboa é relativamente fácil encontrá-lo em alfarrabistas ou nas feiras de escoamento de fundos editoriais, a preço muito acessível.


Rui Almeida (RUIALME)

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DEUS MORREU.

A frase, exclamação, máxima, “Deus morreu”, da pena do russo, Fiódor Dostoiévski, teve longa vida, prenúncios e ecos. Por exemplo, em Nietzsche, no existencialismo francês. Como é sabido, Dostoiévski acrescentou à frase, “tudo é permitido”. Digamos então: “Deus morreu, então tudo é permitido”.
Quem lê a frase em Dostoiévski, nos Possessos ou nos Irmãos, vê a frase carregada de dramatismo e pode notar na enunciação o anúncio de um cataclismo; por isso, assume nessas obras tons de prenúncio apocalíptico. Aqui, se existir verdade na frase, e se ela corresponder de algum modo ao mundo social e cultural do século dezanove, poderemos dizer que o século dezanove viva o anúncio do fim de uma era como um fim que era seu. Do mesmo modo, se o existencialismo francês reconhecia verdade na frase e se essa verdade era verdadeira, e se essa verdade dava conta de um novo modo de viver, podemos dizer que o século vinte viveu na crença que um novo mundo se inaugurava nos tempos que vivia.
Dezanove via chegar ao fim uma era; vinte o advento de outra. Antes, pensava-se que o comportamento era sujeito a obrigações. Depois, pensou-se que o comportamento tinha o mundo todo à sua frente.
Antes de avançarmos, apenas um parênteses. Hoje, ninguém discute – ou quase ninguém discute – as proibições ou as libertações comportamentais em função da frase. Ou dos termos que a frase utiliza. Ou ainda com mais rigor em função do termo “Deus”, fulcral na economia da frase. Discutimos hoje o que é permitido ou proibido em função de outros conceitos e raramente em função do conceito “Deus”. Por isso, alguma irrealidade nos toca quando lemos as obras de Dostoiévski; achamos que quando um dos heróis dos Possessos se mata para provar que cada um se pode tornar pelo suicídio um novo Deus, algo no mínimo despropositado. Do mesmo modo, achamos um dos meios que Dostoiévski encontra para regressar ao convívio com Deus, a confissão pública dos pecados – do erro, se se lhe quiser chamar assim –, pouco compreensível e para sempre inutilizado.
Por isso, a frase soa estranha. E também pelo seguinte. Pois se a frase em dezanove vive o fim de um reino que restringia o leque dos comportamentos possíveis, e se em vinte vivia o inaugurar uma nova era na liberdade comportamental, e se essa liberdade foi concebida como algo que poderia dar origem a todo o tipo de comportamento, a verdade é que se dezanove acabou, depois de vinte não acabaram as obrigações comportamentais, nem se vive um regime onde todos os comportamentos sejam permitidos.
Há mais razões. E cristãs. Mas fiquemos por outra. A verdade é que se Deus morreu, não caminhamos para o sartriano “sou quem decido o que fazer com a existência”. E isto porque o reino de Deus só desapareceu para dar origem ao reino do ídolo, ao simulacro do divino… A uma cultura marcada pelas interpretações do que Deus queria dizer e daquilo que nos ditava como tarefa, não sucedeu uma cultura onde cada um dita a si o que quer fazer, mas uma cultura onde os ídolos e os seus intérpretes nos dizem o que devemos fazer… Esta não é sem dúvida uma razão nova. Tem apenas a particularidade de não ser consensual e recolher a maioria das provas.

Fernando Macedo (A BORDO)

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E SE DEUS FOSSE DE FÉRIAS?

Na cabeça de qualquer destinatário (aqueles que pregam é o destino! com toda a força), o argumento para este filme era simples. Na linha de qualquer "blockbuster" apocalíptico de Hollywood anunciaria o fim do mundo em pinceladas de terror, drama, tragédia, com uma pitada de amor e um arremesso de gesta heróica do protagonista de serviço. Deus estava de férias, sem que nada o atormentasse. Porventura, a gozar uma das últimas delícias do mundo não habitado, sem turistas nem aventureiros. Deus estava de férias - e o homem entregue ao seu destino tornaria realidade o "remake" de má qualidade daquele "blockbuster".
Na cabeça de muitos não crentes, Deus já foi de férias há muito. Se Deus fosse Deus, dizem, se existisse mesmo, nada de Mal existiria no mundo. Deus não permitiria o Holocausto, as guerras, o genocídio no Darfur, a morte em Telavive ou Gaza, o terror do 11-M ou do 11-S. Deus não permitiria homens maus, não deixaria que a morte roubasse quem amamos no momento mais inesperado.
Entre os destinatários e estes fatalistas (ou, numa imagem grosseira, mas que me diverte: uns "neoliberais", que acham que o mercado é senhor e nós pouco podemos fazer, outros "intervencionistas" que esperam tudo do Estado-deus), as diferenças serão poucas. Afinal, ambos acreditam no destino, num deus-machina, que do alto (é sempre lá no alto, não é?) controla as nossas vidas, o momento da morte, o instante da glória. Como se este deus condenasse um pobre a ser pobre eternamente (infelizes os idiotas que acham que os pobres devem ser "mantidos" nos reinos da terra). Como se deus pudesse desejar um círculo vicioso de guerra no Médio Oriente. Ou nos Grandes Lagos. Ou na floresta colombiana. Ou no Sudão.
Deus não destina as nossas vidas. Deus não intervém para combater o Mal. É o homem e a mulher que decidem dos seus caminhos. Não é o deus de Bush nem o deus de Bin Laden que decidem partir para a guerra. É Bush e Bin Laden que a fazem. Em nome deles próprios, não de um qualquer deus.
Deus não quer saber se partimos hoje um braço ou nos zangámos com a nossa namorada ou se defendemos o penalti para ir a pé a Fátima. Deus tem mais do que pensar. Tem de ir férias. Aliás, já foi de férias. Mas não se esqueceu de nós, de cada um de nós. «Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, Jesus respondeu-lhes: "O Reino de Deus não vem de maneira ostensiva. Ninguém poderá afirmar: ‘Ei-lo aqui’ ou ‘Ei-lo ali’, pois o Reino de Deus está entre vós."» [Lc. 17, 20-21]

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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segunda-feira, julho 26

 

DIREITOS HUMANOS

Os prémios Nobel são atribuídos a pessoas que se destacam em diferentes áreas das actividades humanas e merecem nossa atenção; todos os anos se falam em candidatos; E quando os nomes escolhidos são anunciados surgem as reacções de pessoas que os conhecem ou que conhecem o seu trabalho.
O Nobel da Paz é talvez o que desperta mais atenção. De alguma forma, este prémio tem sido usado para chamar a atenção da comunidade mundial para problemas de alguns povos ou sociedades. Em alguns casos, consegue ser uma alavanca para a resolução de problemas relacionados com a paz e o bem-estar dos povos.
Quando o prémio foi atribuído a Ximenes Belo e a Ramos Horta, a Comunidade Internacional passou a prestar muito mais atenção ao problema de Timor-Leste. Passados alguns anos, Timor alcançava a desejada independência. Quando em 1992, o prémio foi atribuído a Rigoberta Menchu, a questão dos índios da Guatemala era um tema desconhecido da comunidade internacional. Neste ano o Relatório do Desenvolvimento Humano dedica atenção à população indígena da Guatemala e assinala alguns progressos na sua situação. (p.96 RDH-2004)
No ano passado, este prémio foi atribuído a Shirin Ebadi, uma advogada iraniana, tida como activista dos direitos humanos naquele país. É natural que algumas pessoas alimentem expectativas sobre eventuais mudanças naquele país.
O Irão é daqueles países cujas notícias acompanho com interesse; foi ali que nasceu a religião Bahá'í. Confesso que nunca tinha ouvido falar desta advogada. Lembro-me do seu discurso de aceitação do prémio (achei-o espantoso!); mas pouco mais sei sobre os seus ideais. Já vi referências elogiosas e comentários negativos a seu respeito.
Recentemente encontrei este texto de sua autoria que me parece merecedor de maior divulgação:
As pessoas são diferentes, como diferentes são as suas culturas.
As pessoas vivem de modos diferentes e as civilizações também diferem.
As pessoas falam em várias línguas.
As pessoas são guiadas por diversas religiões
As pessoas nascem com cores diferentes e muitas tradições influenciam a sua vida, com cores e sombras variadas.
As pessoas vestem-se de modo diferente e adaptam-se ao seu ambiente de forma diferente.
As pessoas exprimem-se de modo diferente, A música, literatura e a arte também reflectem estilos diferentes.
Mas apesar dessas diferenças, todas as pessoas têm em comum um atributo simples: são seres humanos, nada mais, nada menos.
E por mais diferentes que sejam, todas as culturas incluem certos princípios comuns.
Nenhuma cultura tolera a exploração de seres humanos.
Nenhuma religião permite que se mate o inocente.
Nenhuma civilização aceita a violência ou o terror.
A brutalidade e a crueldade são horríveis em todas as tradições.

Em suma, estes princípios comuns, que são partilhados por todas as civilizações, reflectem os nosso direitos humanos fundamentais. Esses direitos são muito apreciados e acarinhados por toda a gente, em toda a parte.
Assim, a relatividade cultural nunca devia ser usada como pretexto para violar os direitos humanos, uma vez que estes direitos incorporam os valores mais fundamentais das civilizações humanas. É preciso que a Declaração Universal dos Direitos Humanos seja universal, aplicável tanto a Leste como a Oeste. É compatível com toda a fé e religião. Fracassar no respeito pelos direitos humanos só mina a nossa humanidade.
Não destruamos esta verdade fundamental; se o fizermos, os fracos não terão uma alternativa.

Marco Oliveira (POVO DE BAHÁ)

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LEITURAS, KRISHNAMURTI

Em 1978, quando terminei o liceu, ainda não tinha sido registado para o serviço militar obrigatório, o que me deu tempo para fazer uma minha grande viagem. Trabalhar seis(!) semanas como servente de armazém, o que, na Alemanha Ocidental rica e nestes tempos de vacas gordas, era o suficiente para juntar o dinheiro que me iria sustentar durante os próximos oito meses nos países pobres que ia visitar. Através de auto-stop, de comboio, camioneta, camião, fiz-me ao caminho para Índia. Não tinha nem percurso planeado nem agenda, só um molho de dólares outro de travellers-cheques, o passaporte alemão e uma imensa ingenuidade em relação ao que me esperava.
(Pode-se - e muito bem - raciocinar sobre a justificabilidade ou não duma viagem dum ocioso pós-adolescente europeu à custa do abissal declive de riqueza entre o seu primeiro e o terceiro mundo que visita, mas isso fica para outra ocasião...)

Não fiz a viagem, como outros neste anos, por razões da droga e menos ainda por motivos religiosos: Não estava decididamente a procura dum guru. Para dizer a verdade, para além dum difuso desejo de aventura, o motivo mais forte era um desgosto amoroso, que me tornou especialmente aliciante a ideia de afastar-me tanto da rapariga em questão como de todo o meio de amigos que ela e eu partilhámos.
Foi então um rapaz um pouco triste, inseguro e muito só que percorreu estes países de genuína miséria, culturas de raízes muito diferentes, embora também, especialmente nas cidades, já muito corrompidos e transformados pelo passado colonial britânico e o presente impacto do modelo (sonho) americano.

A solidão que sentia era de facto uma das coisas mais importantes es fortes que me ficaram. Na altura, contra essa solidão eu tinha um remédio especial, que era ler. Nunca ler era tão, como nestes meses, necessário para o meu equilíbrio emocional.
Sempre li muito, mas sempre fiz especial questão em ler com critério. Era um snob, que lia as obras completas de Beckett (apesar de me aborrecerem, na altura, indizivelmente), mas não li O Senhor dos Anéis, exactamente porque a trilogia estava muito na berra nestes anos e porque não havia amigo (amiga!) que não mo recomendasse.
Certamente não lia coisas suspeitas de esoterismo, coisa que desprezava não por motivos religiosos, mas por causa do referido snobismo. Também não lia literatura religiosa “séria”, porque a religião me era mesmo muito indiferente na altura.
Assim, cheguei a Índia, este pais tão fértil em profetas e santos, sem mais preparação do que uma leitura de Siddharta de Hermann Hesse.

Era então pela razão da solidão estava que sedento de leitura. E como um turista de mochila não pode levar a sua biblioteca consigo, tem que contentar-se com aquilo que lhe aparece pela frente. Deixei de ler com critério. Na viagem de comboio de Madras para Delhi (que demorou três dias) cheguei até a ler e reler os folhetos de contra-indicações dos meus medicamentos. No que de resto consegui deitar mão era dependente das circunstâncias: Livros de bolso em inglês que se vendiam nos quiosques nas estações, o que me levou a descobrir Agatha Christie (vários), E.M Forster (A Passage to India), Emily Brontë (Wuthering Heights), Dostoievski (The Gambler, Crime and Punishment), o Kamasutra, por um lado, e o que se trocava com outros viajantes de mochila ou se encontrava nos second hand bookshops frequentados por estes. E esta selecção reflectia naturalmente os interesses deste grupo de pessoas, ao qual pertencia, apesar de toda a solidão que orgulhosamente suportava e todo o individualismo que me era tão caro. Assim cheguei a ler Tania Blixen (Out of Africa), Jack Kerouac (Lonesome Traveller, On the Road), J.D. Salinger (The Catcher in the Rye, Franny and Zoey), Wilhelm Reich (Character Analysis, The Function of the Orgasm) Erich Fromm (The Art of Loving, Anatomy of Human Destructivity), J.C. Lily (The Centre of the Cyclone), Carlos Castaneda (Jorney to Ixtlan), e Jiddu Krishnamurti.

É uma longa introdução para o texto que quero apresentar desta vez, que é de Jiddu Krishnamurti. Já não tenho o livro que encontrei num quarto duma pensão em Kathmandu, perdi-o há muito e não me lembro sequer do título dele. O texto que aqui apresento encontrei na Internet, quando andava a procura de material sobre Meister Eckhart há umas semanas atrás, e assim lembrei me dele: Pois é, Krishnamurti.
Calculo que qualquer secção de esoterismo que se preze, ou de “Lebenshilfe” - como é que se chama em português essa secção em que se encontram os livros com títulos do tipo “como ser confiante e ter sucesso na vida”? - deve ter Krishnamurti na oferta. Não frequento essas secções de esoterismo, por isso não sei ao certo. De qualquer forma: é essa a razão porque contei a história como o descobri:
Embora Krishnamurti seja arrumado num genre de reputação – merecidamente - duvidosa, e embora haja autores religiosos que gosto mais porque escrevem melhor, de forma mais poética, que têm melhor bagagem filosófica, maior riqueza terminológica e de conceitos, ele é de levar a sério.
A razão porque simpatizo mesmo muito nele, é a coerência com a qual se manteve à margem de todas as organizações que se ocupam de questões religiosas.
Eis o exemplo:
Krishnamurti foi descoberto pela Sociedade Teosófica com 13 anos de idade, que o considerou como encarnação do “Mestre do Mundo” (“Weltenlehrer”), cuja chegada tinha anunciada.
Krishnamurti desenvolveu-se de acordo com as melhores expectativas dessa sociedade, revelando carisma e um espírito forte e independente, mas em 1929, com 34 anos, recusou o papel de Messias, para o qual o tinham preparado durante toda a sua vida.

No dia 3 de Agosto de 1929 fez um discurso, com o qual dissolveu a “Ordem da Estrela”, e do qual era principal. Aqui alguns extractos:
«Eu proclamo que a Verdade é um país sem trilhos. Não se pode aproximar Dela em trilho nenhum, nem pela religião, nem por uma Seita. Isto é a minha posição, e mantenho a de forma absoluta e incondicional. A Verdade, que não tem fronteiras nem condições não é passível de ser organizada... Não é possível fê-la descer para nós, cada um tem que submeter ao esforço para subir para Ela. Não se pode levar o cume para o vale. Para chegar ao cume, você tem que atravessar o vale, subir encostas íngremes e não temer os abismos perigosos. Tem que escalar em direcção a Verdade, ela não pode ser transformada para um nível inferior para si ou organizada».
«A dissolução da ordem não é nenhum grande feito. Não desejo seguidores e realmente pretendo o que digo. No momento em que segue a alguém, deixa de seguir a Verdade. Não me preocupo com o facto se me oiço ou não. Quero desempenhar um determinado trabalho neste mundo e faço o com concentração e determinação. Tenho só um objectivo: libertar o homem. Quero libertá-lo de todas as prisões e de todos os medos e não fundar novas religiões ou seitas ou introduzir novas filosofias. Naturalmente me perguntarão, porque então viajo pelo mundo todo e falo permanentemente. Vou-lhe dizer a razão. Não viajo para ganhar seguidores ou porque quisesse um determinado grupo de discípulos. Não tenho discípulos, nem apóstolos, nem na terra nem no mundo do Espírito».
«Quero que aqueles, que querem perceber-me, são livres. Não quero que me seguem e me transformam numa jaula que chamam religião ou seita. Quero, pelo contrário, que deixam para trás todos os medos – o medo da religião, o medo da salvação, o medo da espiritualidade, o medo do amor, o medo da morte e até o medo da vida. Assim como um pintor pinta um quadro, simplesmente porque lhe da alegria pintar exactamente este quadro, porque é uma expressão do seu eu, a sua beleza, o seu bem estar, assim faço-o [discorrer, LB] – e não, porque quero algo de alguém».
«No lugar de anteriores classificações espirituais, no lugar de deuses antigos criaram novos deuses. Você faz depender a sua espiritualidade, a sua felicidade, a sua iluminação depender de outrem. Embora vocês se prepararam para mim durante dezoito anos, nenhum de vocês está disposto para olhar para dentro, quando digo que todas essas coisas são desnecessárias; quando digo, que têm que deixar cair todas essas superficialidade e procurar a iluminação, o esplendor, a clareza, a incorruptibilidade do vosso eu no vosso interior».
«Estão habituados que lhe digam como avançado estão no desenvolvimento espiritual, qual grau de espiritualidade alcançou. Tão infantil! Quem, se não você pode dizer-lhe, se está incorruptível? Não está a ser sério com essas coisas».
«Essas são algumas razões porque depois de dois anos de ponderação exaustiva tomei essa decisão. Não nasceu dum impulso momentâneo. Ninguém me persuadiu para isso. Não se pode persuadir-me para uma coisa dessas. Dois anos pensei nisto, lentamente, meticulosamente, pacientemente. Agora decidiu dissolver a ordem, porque por acaso sou o seu principal. Você pode fundar outras ordens e esperar por alguém outro. Isso não me preocupa, nem a criação de novas prisões ou novas decorações para estas prisões. A minha única preocupação é com a absoluta, incondicional libertação do homem».
Jiddu Krishnamurti (1895 Madanapalle, Índia - 1986 Ojai, California) 

 Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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CAMINHAR, APESAR DO MAL

Muito se tem reflectido e escrito sobre o mal . E não pretendo aqui acrescentar nada à sua compreensão filosófica ou teológica. Apenas dar testemunho de que aos seres humanos é possível caminhar, apesar do mal.
E o mal surge-nos ainda como o maior de todos os enigmas com que nos confrontamos diariamente. Acredito, no entanto, que parte do enigma poderá ser desfeito se conseguirmos distinguir o mal inevitável do mal inaceitável; isto é, se não colocarmos no mesmo saco questões como a doença, o sofrimento e a morte, as calamidades naturais como cheias e terramotos, juntamente com o terrorismo, o tráfico de droga, as guerras, a violência sobre as crianças e os acidentes de automóveis, por exemplo.
Há no entanto que reconhecer os laços existentes entre o mal sofrido e o mal cometido. Primeiro, porque o mal cometido é sempre mal que faz sofrer alguém (e é quando um homem se sente vítima da maldade de outro homem que o grito da lamentação é mais agudo). Depois, o mal cometido paga-se frequentemente com uma pena que provoca sofrimento.
Quanto ao mal inevitável, já que dificilmente o poderemos compreender (embora se reconheçam os esforços de teólogos e filósofos que o vêm fazendo, de que Leibniz  é modelo, a questão do mal continua em aberto na filosofia contemporânea) resta-nos descrevê-lo e explicá-lo (e a ciência, se não nos permite ainda evitar as catástrofes naturais, é capaz de as explicar  e possibilita, frequentemente, prevenir consequências mais dramáticas).
Por outro lado, já em 7 de Maio escrevi aqui que «na medida em que fazer mal, cometer o mal, é fazer sofrer alguém, toda a acção, ética ou política, tem em si a capacidade para reduzir o mal e, portanto, o sofrimento no mundo: ao diminuirmos a violência no mundo, o sofrimento dos homens provocado pelos homens, diminuiremos o sofrimento no mundo – e pouco restará, certamente»  e recordei a nossa obrigação moral de agir contra o mal inaceitável, que P. Ricœur apresenta num imperativo: «age unicamente segundo a máxima que faz com que tu possas querer ao mesmo tempo que não seja o que não deveria ser, a saber, o mal» (1).
Mas esta resposta prática não será suficiente já que existem sempre vítimas inocentes, não só da indiscriminada repartição do sofrimento infligido pelos homens, mas também de catástrofes naturais, das doenças, do envelhecimento e da morte. A nossa acção não será suficiente para responder à questão que permanece: “Porquê eu?”. Ou como interroga o poeta:

Que quem já é pecador / Sofra tormentos, enfim! / Mas as crianças, Senhor, / Porque lhes dais tanta dor?!... / Porque padecem assim?!...
(Augusto Gil, Balada da Neve)

Quem contacta frequentemente com sofredores, vítimas inocentes de qualquer mal inevitável, como é o caso das doenças de mau prognóstico, vai percebendo que é possível a transformação dos sentimentos que alimentam a lamentação e a queixa: primeiro, integrando a ignorância sobre o mal no trabalho de luto, levando ao fracasso da teoria da retribuição - a tendência para quem sofre se sentir culpado exige da nossa parte uma resposta iniludível: Deus não quis isso, não quis punir. Depois, deixar surgir a própria queixa contra Deus, deixar protestar contra a "permissão" divina; e por fim, o estádio da espiritualização da lamentação – descobrir que é possível acreditar em Deus apesar do mal, porque as razões de acreditar nada têm a ver com a necessidade de explicar a origem do sofrimento; compreender Deus como a fonte de tudo o que é bom na criação, o que inclui a indignação contra o mal, a coragem de suportá-lo e a soli­dariedade para com as vítimas.
E no meio do sofrimento maior é possível descobrir ainda que há quem avance solitaria­mente no caminho da renúncia à própria queixa, chegando, como Job, a amar Deus por nada, isto é, a amar por amar. E entre estes, alguns encontram ainda no caminho da renúncia uma consolação sem igual na ideia de que o próprio Deus sofre e que a Aliança, além dos seus aspectos conflituosos, culmina numa participação das dores de Cristo.
Mas este caminho só pode ser encontrado ou ser não encontrado; só pode ser caminhado ou não caminhado; só poder ser aprendido e nunca ensinado

(1) RICŒUR, Paul - Soi-même comme un autre, Paris: Edictions du Seuil, 1990, p. 254.

Marvi ((IN)FIRMUS)

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A IGREJA E OS JOVENS

Durante muito tempo me chateou ouvir, em espaços de Igreja, qualquer discurso em que se falasse "dos jovens". Os apelos à sua participação soavam-me a paternalismo. O desejo de que se envolvessem nas actividades da Igreja soava-me a uma mera intenção de aumento da assembleia. E então quando alguém dizia "os nossos jovens", eu estremecia - como se os jovens fossem posse de alguém.
Para mim o problema da participação ou não participação dos jovens sempre me pareceu colocado de uma perspectiva errada. Correndo o risco de generalizar, a maioria dos discursos falavam sempre de uma certa dose de "marketing" que seria necessário utilizar para, posteriormente, podermos "pregar" à vontade, depois dos jovens estarem devidamente cativados. Outra afirmação que me costuma pôr os cabelos em pé é a de que os espaços para os jovens têm de ser divertidos. Divertidos em geral quer dizer lúdicos, cheios de música e alegria mas com pouco espaço para diálogo, para interpelação, para um encontro sincero e questionante. Geralmente, estes tiques revelam uma perspectiva pastoral pouco interessada em acolher verdadeiramente as pessoas. Pouco interessada em ouvir e discutir as interpelações que os jovens lançam à Igreja e em os ajudar a discernir as interpelações que a fé traz à sua vida. «A Evangelização não seria completa se ela não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social dos homens»(1). Para que essa interpelação recíproca aconteça, é necessário diálogo assíduo e sincero. Não se faz com sermões rápidos ou juízos moralistas simples entremeados com umas canções do P.e Borga. Faz-se falando da vida concreta das pessoas, escutando-as, levando-as a sério.
As implicações destas questões na forma como aprendemos a oração são importantes. E antes de falar um pouco mais sobre isso, deixo um trecho de D. Pedro Casaldáliga sobre a oração:
«Chegamos a dizer: "tudo é oração, a luta também é oração". Pois não. A luta não é oração. Nem sequer a luta pela libertação. A luta é a luta e a oração é a oração. Para mim isto está muito claro. Neste ponto devemos ser muito claros e até taxativos… É evidente que muitos irmãos, na luta, na acção, no compromisso com os irmãos, também estão orando. Abertos explicitamente para Deus, às vezes formulando inclusive uma oração explícita, e tudo é oração. O que quero dizer é que não caiamos no simplismo cómodo de dizer que tudo é oração, para justificar o facto de que não fazemos oração explicitamente. A oração exige também a sua hora, seu tempo, seu lugar. Porém é evidente que à medida que nos comprometemos com Deus, à medida que nossa amizade com Ele cresça, e à medida que melhor "tratemos de amizade com Ele", mais normalmente a nossa vida e nossa luta serão oração. Iremos chegando a um ponto de confluência no qual será muito difícil distinguir as águas. Estaremos vivendo então o que os antigos chamavam "estado de oração"».

Compromisso e oração são duas faces da mesma moeda. Já o dizia o Zé Maria Brito, num texto aqui publicado há algumas semanas. Dizia, e bem, que um cristianismo vivido sem verdadeiro encontro com Jesus Cristo cai em activismo ou ideologia. O reverso da medalha, uma vivência religiosa desencarnada onde as implicações da fé na nossa vida não são claras, cai em alienação.
Só se aprende a rezar se estivermos dispostos a escutar Deus na nossa vida concreta. De pouco serve ensinar as fórmulas, mesmo que bem explicadas e com uma fundamentação catequética séria e profunda, se essa aprendizagem não seguir lado a lado a aprendizagem do compromisso com o Outro, da aprendizagem da liberdade ou, nas palavras de Casaldáliga, da luta pela libertação.
O que quer dizer essa luta pela libertação hoje, na nossa sociedade de bem estar? Quererá dizer o mesmo que disse a Casaldáliga e às comunidades eclesiais de base na América Latina? Naturalmente que os problemas dessa sociedade não são os mesmos que hoje se nos colocam. Porém a abordagem usada para descobrir Deus a partir da nossa vida, para aprendermos o compromisso com Deus e com as pessoas, deve ser a mesma:  olhar para a nossa história e para a nossa vida. O Deus dos cristãos revela-se na história. E para falar um pouco mais disso, socorro-me das palavras de Carlos Barbera (1):
«Deus na história. E o que é a história? A história não é o que se passa, nem tão pouco o que acontece às pessoas, mas o que as pessoas fazem com o que lhes acontece. A história é o que se faz, o que se constrói, dinamizado totalmente pelo futuro. É, assim, simultaneamente projecto e tarefa concreta.
Esta entrega de Deus no fazer e desfazer das pessoas é para muitos uma fonte permanente de escândalo. Da história humana pode sair algo bom? Nós dizemos: da história saiu Deus e na sua história encontra-se a possibilidade do nosso encontro com Ele
».
Daí que a abertura à vida concreta dos jovens seja mais importante do que quaisquer estratégias de marketing. Daí que a leitura crente da realidade seja essencial para aprender a oração.
De que falamos com "leitura crente da realidade"? Trata-se de uma expressão forjada entre os movimentos especializados da Acção Católica, que têm organizado a sua pedagogia com acento na acção e na transformação da realidade. A leitura crente supõe uma experiência activa. Não é unicamente uma reflexão sobre os acontecimentos, mas um esforço por ver como a nossa acção é também uma experiência de Deus. Isso aprende-se, em primeiro  lugar, olhando para a nossa vida, em diálogo, conversando, por vezes de forma aparentemente inútil, sobre o que se passa e sobre o que fazemos com o que se passa - sobre a história.
Além disso, a leitura crente da realidade «comporta, inevitavelmente, uma componente orante. O crente não é um esotérico que descobre na realidade significados ocultos. Não é, tão pouco, o pensador que espreme do real gotas de sabedoria. Ele é capaz de ver Deus onde outros só vêem causalidade, processos históricos, equações económicas. É aquele que experimenta a realidade como uma grande parábola de Deus». (2)
É a oração que evita que a leitura crente se transforme em ideologia. A realidade tem muitas leituras. Quem pode estar certo que a sua é a correcta e inocente? Se reconhecemos as nossas limitações em face do Absoluto, estamos dispostos a duvidar e corrigir as nossas leituras - a pedir perdão. Além disso, uma leitura crente pressupõe um horizonte de esperança que nos dinamiza. Um horizonte de esperança que não procura pintar de cor de rosa a realidade, mas que acredita que mesmo que a injustiça vença, ela não terá a última palavra - e aí a oração é de acção de graças.

Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

Notas:
1- Evangelii Nuntiandi nº29, Exortação Apostólica sobre a Evangelização.
2 - Carlos Barbera, “Lectura creyente y oración”, in Cuadernos de Oración, nº 39 (1986).


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quarta-feira, julho 21

 

DOUTRINA, CATEQUESE E INFERNO

Ultimamente tenho-me sentido algo desconfortável com aquilo que ando aqui a escrever. Às vezes pergunto a mim próprio se a minha caminhada pela Fé não me leva às vezes a saír dos limites doutrinais do catolicismo. Devo aliás dizer, com toda a honestidade, que eu tenho uma noção bastante vaga de quais são esses limites. Nem tenho bem a certeza que eles existam ou devam existir.
Já há duas ou três semanas eu referi aqui o meu incompletíssimo conhecimento dos textos bíblicos. E o mesmo acontece, ainda em maior grau, com o corpo doutrinal oficial, canónico, da minha Igreja. Não li o Novo Catecismo. Nunca li uma encíclica! Terei lido algumas notas pastorais e alguns textos da Conferência Episcopal Portuguesa. E é tudo. A minha condição de católico tem sobretudo a ver com a sensação de pertença a uma comunidade e a uma Igreja que me oferece, de uma maneira que me é satisfatória, o acesso à Palavra de Cristo. Tem também a ver com uma atitude teológica geral com que me identifico no essencial. Tem a ver com uma linguagem que aprendi de certa forma a descodificar. Tem a ver com um ritual compatível com a minha maneira de ser. Tem obviamente a ver com um grande número de católicos, padres e leigos, por quem sinto uma grande afinidade – e aqui na Terra estão uma série deles. E tem também a ver com uma análise histórica que tenho vindo a fazer e que me conforta com a continuidade espiritual e apostólica que entendo existir na Igreja Católica e que recua até aos tempos da verdadeira implantação do cristianismo enquanto fé universalista. Claro que o mesmo se poderia dizer da Igreja Ortodoxa, definitivamente separada da nossa pela transcendentalíssima questão do filioque. Mas eu nasci latino e não grego. Também por isso sou católico. Agora o que não posso dizer é que o sou por me rever totalmente num corpo doutrinal cujos detalhes tão mal conheço.
Vem tudo isto a propósito de um comentário que recebi há dias, segundo o qual o meu blogue (que é, acreditem, a expressão mais completa da minha Fé) é confessional mas nada catequético! Ora isto é absolutamente correcto do ponto de vista do catolicismo a que pertenço. Nem poderia ser de outra forma pois falta-me precisamente a matéria-prima catequética. E como falta, vou muitas vezes buscá-la às mais variadas fontes. Talvez até demais.
Vou dar um exemplo prático para perceberem o meu problema. Perguntam-me muitas vezes se acredito no Inferno, como é que o concebo, quem lá vai parar, etc.,etc. Ora o problema é que verdadeiramente não sei dizer nada de relevante sobre este importante tema de fé dum ponto de vista bíblico ou doutrinal-católico.
A mim, quando me falam do Inferno, do que me lembro logo em primeiro lugar, triste é dizê-lo, é de Sartre e da sua frase lapidar "O inferno são os outros". E isso provoca-me sempre um rewind da minha memória, levando-me até há 22 anos atrás quando no sétimo ano da Alliance Française estudei o "Huis Clos", obra onde Sartre nos atirou à cara esta frase desagradável. Era um livro forte e perturbante pelo menos para a minha adolescência de então. Deixem-me resumir a história:
Cinco ou seis pessoas, depois de morrerem, eram fechadas num quarto eternamente iluminado e com as pálpebras removidas. Aí­, sem poderem dormir, sem poderem sequer fechar os olhos, eram confrontadas com a imagem que tinham deixado no Mundo, naqueles com quem tinham vivido; eram confrontadas com o seu passado, com os seus crimes, fraquezas, omissões, crueldades. E com aquela irresistí­vel tendência humana, disparavam para o lado, rematavam para canto, causando assim um sofrimento ainda maior aos seus companheiros de quarto e de destino. Depois, com o passar do tempo, esta gente era confrontada com o esquecimento dos vivos, com a impossibilidade do regresso e com a impossibilidade de fuga para longe daqueles companheiros onde reviam a sua própria monstruosidade. E por fim percebiam que aquilo ia ser para sempre. Era o Inferno, infinitamente pior do que Bosch imaginara. E Sartre concluiu, pela voz dum daqueles desgraçados, a voz de quem descobriu algo de irreparável, que o Inferno eram os outros.
Recordo-me hoje, perfeitamente, de na altura ter achado que a conclusão a tirar não era nada essa! O que achei, e disse-o numa aula, perante a complacência da professora e dos meus colegas, quase todos eles mais velhos do que eu, o que achei era que o que aquilo tudo queria dizer era que o inferno não são nada os outros, o inferno somos nós próprios!
É claro que o tal Sartre concluía uma coisa totalmente diversa mas afinal ele era apenas o autor do livro e não o autor da interpretação que dele fazemos...
Mais tarde, quando reaprendi a minha Fé, voltei várias vezes a pensar nisto. E hoje, quando ainda não sei bem o que é o Céu e o Inferno, sei de algum modo que Deus, com a liberdade que nos deu, ofereceu-nos a possibilidade de sermos o nosso próprio Inferno. Ou o nosso Céu. Em vida e depois dela. Quero eu dizer com isto que acredito um bocado que, quando morremos, nada levamos senão aquilo que somos, aquilo em que nos tornámos. E isso, para o bem ou para o mal, será aquilo que irá ver ou não ver a Deus, será aquilo que irá ou não ser visto por Ele. Talvez seja por isto que se diz que, embora oferecida por Deus, a Salvação está em nós próprios exactamente como o está a Condenação.
Mas não sei. Será já areia demais para a minha camioneta. Seja como fôr, isto é tudo o que este católico pensou e tem a dizer sobre este assunto transcendente... e talvez não tão importante assim.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)


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TODOS SOMOS PECADORES

Num post do partículas elementares, o CC fazia uma análise elogiosa (que me parece extremamente correcta) da atitude de JPP relativamente ao seu lugar como embaixador na UNESCO. 
Num dos comentários a esse post alguém escreveu o seguinte : 
Espero, sinceramente, que não te venhas a arrepender do que escreveste, para nosso bem!”  
Este pequeno texto pode-se considerar o desenvolvimento do comentário que na altura lá escrevi.  
Existe uma perspectiva invulgarmente totalitária em determinados blogues e comentadores que se pode resumir do seguinte modo.  
A realidade é a preto e branco. Nós somos os bons, os outros são os maus. Os da nossa cor são completamente inteligentes, os outros são completamente estúpidos. Os da nossa sensibilidade são completamente bons, os outros são completamente maus. Quando um dos outros toma uma atitude correcta não se fala nisso (como foi o caso de certos blogues claramente de intervenção política auto-denominados de esquerda que nem uma palavra disseram sobre esta atitude do JPP) ou, então escreve-se o menos possível sobre isso (o Barnabé escreveu exactamente linha e meia sobre essa atitude do JPP). Um blogue que me surpreendeu pela positiva relativamente a esta atitude do JPP foi o Causa Nossa (embora tenha muitas dúvidas se o Causa Nossa teria a mesma posição relativamente a outra pessoa que tivesse adoptado a mesma atitude que não fosse o JPP).
 
Quando se diz que os políticos estão longe das pessoas reais e que estas desconfiam dos políticos, tal parece-me dever-se, nomeadamente, a este maniqueísmo infantil e infantilizante de alguns dos nossos políticos. Este tipo de políticos vive imerso num mundo de certezas, sempre sem dúvidas, eternamente a preto e branco, onde tudo o que é bom é nosso e tudo o que é mau é dos outros. 
Pior. Quando a realidade contraria esta idiossincrasia, eles apagam a realidade. Estaline apagou as fotografias de Trotzky, Paulo Portas apagou as fotografias de Freitas do Amaral, o Barnabé e outros apagam a atitude de JPP (tal como este apagou outro tipo de atitudes do “outro lado”…). 
Ora a maioria das pessoas sente e sabe aquilo que já há muito tempo os psicólogos diagnosticaram: que este tipo de vivência é característico da personalidade na fase etária entre os 2 e os 6 anos.
 
Para um católico, todos os homens são pecadores (tal como todos os homens são capazes de virtude) e, na realidade da natureza humana, o Bem e o Mal andam sempre a par. O Bem e o Mal são absolutos apenas no campo do dever, isto é, apenas no campo das ideias e dos valores, devendo um cristão praticar o Bem e evitar o Mal. 
Mas, precisamente por isso, um católico não se pode prestar a uma visão unidimensional e maniqueísta do Homem.
 
Timshel (TIMSHEL)

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ESQUERDA, DIREITA, VOLVER

Não viajo hoje pelo comboio da História, para retomar argumentos dirimidos aqui e acolá , sobre a pertinência da esquerda e direita. Não percorro as ruas da Paris a gritar Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Não me perco nas labirínticas vielas de um bairro operário inglês nos dias da industrialização acelerada. Não espreito os campos americanos onde George-de-outra-cepa-Washington forjou um país livre.  

O que aqui conto é na primeira pessoa. Se calhar, trarei episódios já escritos, mas apetece-me abrir as páginas de um certo diário que nunca escrevi sobre a participação política que fui construindo ao longo destes anos. Afinal, prometi-o, «aquilo que aqui me trará [são] todas as pessoas, mesmo aquelas que encontrei apenas uma vez» - e nesse encontro forjei esta construção.  

Redundância, para quem se dá ao trabalho de me ler (ou tresler): os tijolos que foram assentando nos alicerces desta casa confundem-se com a minha participação em coisas da Igreja Católica - primeiro, num acanhado T1 (uma incipiente catequese), depois, alargando a tipologia da casa para um razoável T3 (o saudavelmente rebelde MCE*), onde mais tarde pude entrar em vários anexos e num imenso "hall" de encontro com outras pessoas, outras histórias, outras casas
 
Foi neste T3 que mais cresci: no MCE tínhamos várias manias (ainda se mantêm). Nos conselhos nacionais (uma assembleia geral do condomínio) os militantes defendiam-se com estatutos, regimentos, programas e moções. Havia exercícios quase masoquistas, como uma discussão de alteração estatutária, às 3 da manhã, por causa de uma vírgula (muito antes de um famoso artigo em O Independente sobre a vírgula de uma lei). Outros extraordinários, para melhorar a pintura de um determinado documento sobre moral sexual. Depois votava-se em momentos mais ou menos unanimistas, noutros fracturantes, e até de rejeição...  

"Votos contra", "abstenções", "a favor" - e assim nascia em longas secas uma aprendizagem para a democracia. Não são palavras vãs, quando nos confrontávamos em reuniões gerais de alunos, no mínimo caóticas, nas faculdades que explodiam com as propinas.  
«Assim nascia». Assim... e com muitos outros exercícios. Nem todos longas secas: a democracia pode ser divertida (e não falo de um determinado primeiro-ministro). Adiante.  

Depois os textos de programa. As linhas de orientação. E as moções. Ainda Timor-Leste não era moda - com a diplomacia portuguesa a parecer baquear na frente externa - e meia-dúzia de grupúsculos cristãos acendiam velas por aquele território mártir. E o MCE estava lá. Depois olhava-se para a Escola e a Universidade e procuravam-se respostas, inquietações, propostas para a Educação. Mil e um papéis ajudaram-me a pensar o Mundo, esta outra nossa casa

Pensar o financiamento do ensino superior público, reflectir sobre a anunciada televisão da Igreja, questionar modelos de evangelização com a marca vaticana, lembrar a luta e a vontade de autodeterminação de Timor-Leste, entender a (indi)gestão da vida... Estes e outros muitos assuntos, factos da nossa vida, eram próximos de nós. Nesses tempos, um dia, um senhor padre escreveu um texto entre o indignado e o irónico sobre as preocupações do MCE: que aquilo tinha pouco de católico, não eram preocupações de crentes, coisas como «o longínquo Timor». Esta ficou-me atravessada. «O longínquo Timor» era (é) muito mais importante que qualquer missa. Mais vale queimar as pestanas com longínquas coisas que bater no peito contristado. Coisas minhas. Cá desta minha casa.
 
* - Para quem não tem que saber estas coisas das siglas: com estas três letrinhas apenas queremos dizer Movimento Católico de Estudantes.
 
Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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ARREPENDIMENTO E FÉ

A propósito de uma questão colocada pelo José no seu blog, Guia dos Perplexos, onde faz uma reflexão de um post do Carlos colocado na Terra da Alegria, e que acaba com a questão: “ou estarei a ver mal a coisa?”, depois de discutir a relação entre arrependimento e fé e onde acaba por correlacioná-las, digo que é também assim que a vejo: como o José, vejo o arrependimento abrir espaço para a fé e a fé abrir espaço para o arrependimento… é então deste modo que leio o excerto de Lucas (7,36-50), onde Lucas dá conta do arrependimento de uma pecador e daquilo que Jesus lhe diz.

Para aí, nada mais há a acrescentar. No entanto, o José introduz neste post a questão das discussões teológicas. E deixa algumas ficar no ar algumas perplexidades. Por isso, deixo agora ficar aqui algumas notas, no que concerne à bizantinice das disputas teológicas e em particular quanto à discussão da predominância da fé ou do arrependimento.

A Reforma levou a dois movimentos conhecidos: reforma que era jogou na continuação do edifício teológico anterior; por isso, não pode de deixar ter em conta tudo o que a tradição cristã tinha de produzido ao longo dos séculos; aqui, não seria preciso lembrar o apego dos reformados a S. Agostinho, ou esquecer que Agostinho é produto dos séculos anteriores e promotor do pensar cristianizado posterior.
Por outro, Reforma foi reconstrução; e nessa reconstrução, tendeu a acentuar algumas dimensões em detrimento de outras; é conhecida na disputa luterana entre obras e fé, a ênfase na segunda vertente.
A partir daqui e partir da reacção católica à Reforma e aquilo que ela enfatizou, podemos dizer que o catolicismo viveu muito debaixo do signo da reacção; e não só em relação à Reforma; mas também em relação à filosofia – dito de um modo breve – iluminista.
Por isso, por este clima de reacção e contra-reacção, não é de estranhar que no início do século vinte, muitas discussões e também muitos equívocos se mantivessem de pé.

No entanto, mais interessante, neste momento, do que dar conta disso, talvez seja mais interessante realçar alguns factos positivos. E então dizer que de um lado e do outro tem havido todo um longo trabalho de reposição e reequilíbrio nas posições. E que isso tem sido feito e tem levado à reposição de muito que durante muito tempo foram dados adquiridos no cerne do pensar cristão.

Na questão vertente, arrependimento e fé, e para pegar apenas num dos momentos terminais de uma longa meditação sobre estes dois conceitos e que começaram bem cedo, pense-se em S. Paulo, podemos ver em Tomás de Aquino uma tensão no modo como é pensada a relação entre fé e arrependimento – e uma bem católica afirmação – como de resto não poderia deixar de ser – da predominância da fé em relação ao arrependimento, na medida em que Deus é pensado sob o signo da liberdade: não há pecador algum que possa dizer ser possuidor do mérito que possa obrigar Deus a dar-lhe fé; a fé é graça e por isso dádiva gratuita de Deus. Aqui, poder-se-ia perguntar: então o homem não precisa de fazer nada? – Precisa: abrir-se; no caso do pecado, de arrepender-se.

Por aqui se delineia claramente uma tensão no modo como Deus e o homem contactam, pois é afirmada por um lado a liberdade e a acção de Deus e por outro também a liberdade e a acção do homem. Como pode a acção do homem pode ser dotada de autonomia se depende da acção divina e das dádivas de Deus? Como pode ser a acção do homem ser dotada de liberdade, se implica a sua submissão aos ditames da fé que lhe é concedida? - Estas questões ajudam a perceber que se podemos ser claros quanto à tensão, estamos bem longe da clareza quando pensamos a misteriosa relação que Deus estabelece com os homens e a misteriosa relação que os homens estabelecem com Deus.
 
Fernando Macedo (A BORDO)

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OPERAÇÃO VALQUÍRIA

Passam hoje sessenta anos sobre a execução da Operação Valquíria, o nome de código do plano para assassinar Hitler, Himmler, Göering e Goebbels, levado a cabo por um grupo de oficiais alemães.  Uma bomba-relógio foi colocada dentro de uma mala que um jovem tenente-coronel de 27 anos de idade, Claus Schenk von Stauffenberg, escondeu no quartel-general de Hitler, em Rastenburg, Prússia Oriental. A bomba explode às 12:42 h. Morrem quatro oficiais do comando e sete ficam gravemente feridos. Hitler praticamente não é atingido, pois a mala-bomba havia sido desviada por um oficial.
Desconhecendo o malogro da operação, pois acreditam que Hitler está morto, Stauffenberg e os outros conspiradores assumem o controle do quartel quartel-general em Berlim mas, mais tarde, recebem a notícia de que o atentado falhara e que, mais uma vez, Hitler escapara da morte. O general Ludwig Beck, líder da conspiração, comete suicídio. Stauffenberg é preso e fuzilado ainda nesse dia.
 
Em 1937, o Papa Pio XI havia publicado a encíclica Mit brennender Sorge (Com urgente preocupação), onde declarava que a fé cristã não pode admitir a divinização de uma raça ou de um Estado. No ano seguinte, quando Hitler visitava a Itália, o mesmo Papa Pio XI retirou-se para a Castel Gandolfo e declarou sua tristeza ao ver em Roma «a insígnia de uma outra cruz, que não era a cruz de Cristo».
 
Já em 8 de Outubro de 1939, poucos meses depois do início da Segunda Guerra Mundial, Georg Elser, de 36 anos, planeou e executou sozinho um atentado à bomba contra Hitler, numa cervejaria em Munique, onde Hitler discursava com regularidade. Morreram oito pessoas, 63 ficaram feridas, mas Hitler escapou, pois abandonou o espaço 13 minutos antes da deflagração da bomba.
Georg Elser, um carpinteiro com ligações à resistência comunista alemã, e cujo irmão tinha morrido num campo de concentração, tinha começado a trabalhar numa pedreira com o único objectivo de conseguir dinamite para perpetrar o atentado.
Elser foi preso na mesma noite, quando tentava fugir para a Suíça, e foi morto em 1945, por membros da Gestapo.
 
Hoje é dia do profeta Elias, cujo nome significa Meu Deus é o Senhor. Elias foi um dos maiores profetas do Antigo Testamento e viveu no século IX a.C. Elias insiste em afirmar «o Senhor Deus de Israel é único e que não existe outro Deus senão Ele», opondo o Deus único aos ídolos e divindades cósmicas dos cananeus. Para Elias, a quem Deus se manifestou como uma brisa suave, tudo deve estar submetido ao Deus único e verdadeiro, pelo que a religião, a moral e a política devem ser usadas contra a tirania do absolutismo.
 
Não nos interessa aqui percorrer a questão moral levantada sobre o assassinato de Hitler – o conflito entre regras morais pretensamente absolutas – mas apenas louvar a coragem do martírio cristão (e não só) naqueles tempos difíceis. Os leigos e clero alemães foram dos grupos mais perseguidos, mas esquecidos da grande História. A diocese de Paderborn é um exemplo: dos seus 1.400 padres, 868 entraram em conflito com o partido nazi, 67 passaram anos no cárcere e 23 foram enviados a campos de concentração.

Uma palavra para o teólogo luterano Dietrich Bonhöffer. Quando a sua Igreja, em reunião para o efeito, aceitou a lei que decretava a raça ariana como única e oficial – o parágrafo ariano da lei, imposta a todos os cidadãos e instituições – o pastor Bonhöffer protestou publicamente. Para ele, o anti-semitismo era absurdo: «Do ponto de vista evangélico, excluir da nossa Igreja os fiéis de origem hebraica é algo impensável”. Resistindo publicamente ao racismo e testemunhando contra as «traições da Igreja, morreu condenado à forca em 1945.
E muitos mais. O Pe. Bernard Lichtenberg, presidente da Liga Católica Alemã pela Paz, que denunciou o regime nazi ainda antes deste chegar ao poder. Em 1935 - quando vieram a público as atrocidades praticadas no campo de concentração de Esterwegen - o padre Bernard foi pessoalmente ao chefe da Gestapo e entregou-lhe uma nota de protesto. Na manhã seguinte à noite dos cristais a polícia nazi cercou a catedral de St. Hedwig para pressioná-lo a calar a sua voz crítica. Como resposta, nessa tarde, abriu o ofício litúrgico dizendo «o que aconteceu na noite passada, todos nós sabemos. O que acontecerá amanhã, não podemos saber. Mas o que ocorreu hoje, nós presenciamos: lá fora, queima a Sinagoga… Também ela é casa de Deus».
Preso em 1941, o Pe. Bernard Lichtenberg declarou no julgamento que preferia obedecer a Deus que aos homens. Morreu de exaustão, quando era transferido para o campo de concentração de Dachau, em 1943.
Muitas vezes e em circunstâncias diversas, o martírio uniu no mesmo testemunho cristãos de Igrejas diferentes. É o caso, por exemplo, dos quatro eclesiásticos que foram presos, em 1942, em Lubeck (Alemanha). Karl Friedrich Stellbrink, pastor luterano, foi encarcerado devido às suas pregações de protesto. Com ele, foi também detido o seu amigo católico Johannes Prassek, pároco da Igreja do Sagrado Coração. Em seguida, foram levados mais dois padres da mesma paróquia. Foram todos condenados à morte em Julho de 1943. Enquanto esperavam a execução, clamaram juntos: «Fidelidade eterna a Cristo, nosso Rei». Também M. J. Metzger, pioneiro do ecumenismo e animador do movimento de resistência anti-nazi Rosa Branca, que agrupava católicos, luteranos ortodoxos. Foram decapitados em 1944: o ecumenismo que praticavam era considerado contrário ao nazismo.
 
O poder absoluto dá-se mal com a diversidade e união das Igrejas.
 
Carlos Cunha (PARTÍCULAS ELEMENTARES)

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segunda-feira, julho 19

 

O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO É SÓ UMA MODA?

Não é preciso ir muito longe no tempo: há 30 anos, o que se passou em Barcelona, entre 7 e 13 deste mês, na quarta edição do Parlamento das Religiões do Mundo, não seria possível. O diálogo inter-religoso é um processo ainda jovem (pelo menos na sua forma actual, já que, como dizia Raimon Panikkar na entrevista ao “Público” de dia 13, existiram encontros inter-religiosos ao longo da história). Olhando para trás, no entanto, o caminho percorrido em três décadas indicia que a dinâmica está madura. Como também referia Panikkar, este é um processo que já ninguém pode parar.
O que hoje acontece não é uma moda. Tão pouco um caminho para uma única religião ou um qualquer movimento sincrético. O diálogo inter-religioso tem uma dimensão clara de encontro pessoal e institucional — visível nos encontros promovidos pela Comunidade de Santo Egídio, por exemplo —, mas tem vindo a construir também um património plural, espiritual e teológico que lhe dá profundidade e consistência.
Quem, há 30 anos, poderia imaginar o Papa católico a rezar com líderes de todos os credos, como aconteceu já em Assis por três vezes (a primeira delas em 1986) — mesmo contra a desconfiança de gente do Vaticano? Quem poderia pensar que, numa iniciativa como a do Parlamento das Religiões, gente de credos diferentes se olha nos olhos, criticando-se mutuamente, auto-criticando-se e afirmando sempre que o caminho é continuar a encontrar-se?
Este não é, obviamente, um percurso fácil. Nem isento de riscos. É, talvez, o debate inter-cultural mais exigente do mundo contemporâneo: porque mexe com a identidade mais profunda do ser humano, organizada em comunidades e, por vezes, institucionalizada em sistemas complexos.
Qualquer processo de diálogo mete sempre medo. Porque, se verdadeiro, nele todos os participantes têm direito à palavra e ninguém sabe o que cada um fará dessa palavra. Medo também de que, ao conhecer-se melhor o outro, as certezas próprias sejam abaladas. E medo ainda porque é mais fácil que quem detém o poder (político, económico, religioso ou outro) se imponha perante o mais fraco.
É o medo do ouriço, de quem, sentindo a ameaça da perda de identidade, leva a atacar quem dele se tenta aproximar. É, no caso religioso, a atitude que leva tantos a radicalizar-se querendo anular a (aparente) diferença — se necessário for, matando em nome da sua crença. Esse é o risco maior: o do fundamentalismo que hoje atravessa todos os credos religiosos.
Faz sentido, por isso, o postulado proposto há mais de dez anos pelo teólogo Hans Küng: só haverá paz no mundo com paz entre as religiões; e só haverá paz entre as religiões com este diálogo fecundo, que não anula as diferenças mas procura conhecer o outro e busca chegar a um consenso sobre uma ética universal comum.
Dialogar implica, antes de mais, escutar e conhecer o que o outro tem para propor. No campo religioso, isso é cada vez mais verdade. Aliás, olhando para a história, vê-se que os grandes mestres espirituais, profundamente convictos da sua verdade, foram os que mais caminharam ao encontro da diferença. Basta pensar em Francisco de Assis, quando vai ao encontro do sultão, num tempo em que as cruzadas eram a linguagem dos cristãos para resolver os seus diferendos com o mundo islâmico. Ou no Mahtama Gandhi, cuja prática política da não-violência acolhia princípios do hinduísmo e do cristianismo.
O diálogo inter-religioso tem, pela frente, vários desafios: desde logo, o de ajudar a atenuar os problemas que, diariamente, matam milhões de pessoas sem razão (fome, doenças curáveis, falta de água potável, acesso a cuidados de saúde, ausência de condições mínimas de sobrevivência). Depois, o de saber, com paciência e perseverança, integrar os que se sentem tentados pela verdade única, cuja única saída é o desespero e a violência. Finalmente, o de desenvolver uma reflexão (política, social, filosófica, teológica) capaz de abrir caminhos novos de espiritualidade e humanidade, onde aconteça o encontro efectivo.
O que se passou no parlamento realizado em Barcelona foi mais um bom exemplo deste caminho. Sempre com algum folclore inevitável neste tipo de acontecimentos, houve encontros pessoais e compromissos concretos, oração e profundidade de debate. Houve também experiências únicas, como a do almoço diário oferecido pela comunidade sikh de Birmingham a mais de cinco mil ou seis mil pessoas, e que constituía uma oportunidade de conhecer outros modos de viver e de sentir, conversando com o vizinho que se sentava ao lado.
O Parlamento das Religiões do Mundo tem ainda uma acentuada marca americana – por exemplo, no leque de participantes – mas a realização da quarta edição em Barcelona constituiu um passo fundamental para que o processo se alargue. Aliás, se o compararmos com os encontros anuais inter-religiosos promovidos pela Comunidade de Santo Egídio (Lisboa recebeu a edição de 2000), as diferenças estão sobretudo na forma. O Parlamento (para já, com três edições, num intervalo de cinco a seis anos entre cada uma delas) acolhe sugestões de quem quer que seja, o que é bom; mas multiplicam-se os debates e as iniciativas incluindo, segundo ouvi, também alguns com pouca qualidade. Já os encontros de Santo Egídio (uma realização anual), preparados por um pequeno grupo de pessoas, conseguirão mais qualidade de debate, mas restringem a participação.
De resto, o essencial está nas semelhanças inevitáveis no objectivo e na intenção: a ideia de sensibilizar e juntar pessoas de credos diferentes a debater modos de construir um mundo mais justo e pacífico. O que tem uma outra consequência decisiva: retirar do centro do debate o aspecto estritamente “religioso”, e tratando antes do(s) modo(s) de as religiões se colocarem ao serviço do bem e da fraternidade – afinal, os grandes princípios de todos os credos.
Não é de estranhar, por isso, que o Parlamento das Religiões se tenha debruçado sobre questões como a dívida externa do Terceiro Mundo, o acesso à água potável (um dos problemas mais graves do futuro imediato e, segundo muitas opiniões, causa das próximas guerras), o drama dos refugiados ou a sida. Precisamente no momento em que, em Banguecoque, a última conferência mundial sobre a sida terminava com uma sensação de decepção, os crentes reunidos em Barcelona contavam como se envolviam no apoio aos doentes (alguns infectados testemunharam como sentiam a solidão) e pediam a intensificação da informação e um melhor acesso aos medicamentos.
Pela importância cultural de que este processo se reveste, o diálogo inter-religioso deve ser promovido, estimulado, participado e aprofundado — mesmo pela sociedade civil. É lamentável, por isso, que Portugal tenha passado ao lado de mais este acontecimento, quer pelo reduzido número de portugueses em Barcelona, quer pelo desprezo que a generalidade dos meios de comunicação votou ao acontecimento.
O diálogo inter-religioso é decisivo para as religiões, sim. Mas também para a humanidade, tão carente de se reencontrar consigo mesma.
 
António Marujo (PÚBLICO)

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TONALIDADES DE CÉU

"Por Cristo, com Cristo, em Cristo"
misticismo (s. m.)
1.atitude caracterizada pela crença na possibilidade de comunicação directa com o divino ou a divindade;
2.atitude essencialmente afectiva que dá prioridade às crenças intuitivas, que garantiriam revelações inacessíveis ao conhecimento racional;
3.tendência para acreditar em verdades sobrenaturais;
4.vida contemplativa;
5.devoção exagerada;
(De místico +-ismo)
mistério (s. m.)
1.antiquado cerimónia a que, na antiguidade pagã, só podiam assistir os iniciados;
2.RELIGIÃO verdade dogmática da religião católica que a razão humana não pode compreender;
3.RELIGIÃO verdade da doutrina católica meditada em cada uma das quinze séries do rosário;
4.aquilo que tem causa oculta ou parece inexplicável; aquilo que é vago, incerto, incompreensível; enigma;
5.segredo;6.cautela;
7.TEATRO composição teatral da Idade Média, de assunto religioso;
8.plural Açores terreno de lava esponjosa, coberto de musgo e ervas;ar de mistério aspecto misterioso, enigmático;
(Do gr. mystérion, «id.», «cerimónia secreta», pelo lat. mysterìu-, «mistério»)
_____
Recentemente, num jantar animado, comenta alguém ao chegar não achas incrível a onda de misticismo com o Código da Vinci? antes de soar o alerta vermelho de mudança urgente de tema, ainda tive tempo de responder: misticismo é diferente de religião
O misticismo, como fui procurar no dicionário, é essa atitude afectiva, de confiança (?) em que a intuição me levará ao conhecimento do inacessível. Para mim é fácil, demasiado fácil ficar por aqui - se intuitivamente conheço Deus, então não é preciso procurá-l'O. O misticismo - na minha adolescência, de Marion Zimmer Bradley à numerologia - não me levou a lado nenhum, deixou-me estacada no meu sítio, confortada ou não, com curiosidade ou não, mas no meu sítio.  
O desejo de conhecer a Verdade resgatou-me.
Arrumei os livros de misticismo / esoterismo, deixei o Paulo Coelho sossegado e parti noutra aventura.
A religião é dinâmica, pelo próprio vocábulo percebo que ela liga e quando estou ligada já não consigo ficar no mesmo lugar ou, noutra perspectiva, o lugar onde estou ganha um (novo) eixo de referência. Porque ainda é tudo recente (será sempre recente), percebo hoje que sou religada. O problema que encontrei no misticismo encontro-o ainda na minha atitude de "já sei muito" que, quando é confrontada percebe "afinal, ainda não sei".
- menina.. as suas coordenadas, por favor? 
Mas a Igreja tem mistério.
Inevitável.
Quem a quiser sem mistério, não a quer - cliché: tens de me aceitar como sou, se queres estar comigo.
Há um Outro que hoje está sob o véu mas que se revelou totalmente.
Há um Outro que não conseguimos adivinhar, que não nos pertence... mas que não deixa de ser Aquele que é.
E esse mistério (também) me prende depois de não ter encontrado na Igreja o grupo utópico dos amigos ideais, ter imaginado muitas coisas, ter ficado abismada com as experiências de Amor verdadeiro que nela existem (e que eu não faço), o que me prende a este Corpo é ainda o desejo de O conhecer.
Hoje retomo a pergunta que é a chave da minha unidade: Quem és Tu?
E o céu "conspira" para que também eu diga "a quem iremos nós, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna" 
O céu hoje está azul! Gaudium et Spes

Milene (SÓ NO MISTÉRIO)

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"LETTRE À UN RELIGIEUX"

Por sorte e com a ajuda do Bookcrossing consegui caçar a "Carta a um Homem Religioso" que alguém amavelmente deixou na Casa da Cultura de Coimbra à minha espera. Foi publicada em Novembro de 2003 pela editora conimbricense Ariadne. É desse livro que vos falarei hoje. A bem dizer, falarei pouco, antes dando voz a Simone Weil.

Trata-se de uma carta escrita em Novembro de 1942 (menos de um ano antes da morte da sua autora), dirigida ao padre Couturier (um dos primeiros dinamizadores do movimento ecuménico e promotor da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos) e a Jean Wahl. Nessa carta enumera um conjunto de trinta e cinco questões que se colocam como obstáculos à sua adesão à Igreja. Pede ao seu interlocutor uma resposta inequívoca e categórica sobre a compatibilidade ou incompatibilidade de cada uma dessas ideias com a pertença à Igreja. Lembro que estamos em 1942, vinte anos antes do papa João XXIII dar início às sessões do Concílio Vaticano II. E para dar conta disso, deixo-vos o trecho inicial desta carta, que muitos de nós certamente subscreveríamos:
«Quando leio o catecismo do Concílio de Trento parece-me que nada tenho a ver com o que ele expõe. Quando leio o Novo Testamento, as místicas, a liturgia, quando vejo celebrar a missa, sinto como que uma espécie de certeza de que esta fé é a minha, ou mais exactamente, seria a minha se não existisse entre ela e eu a distância criada pela minha imperfeição.»
Não conheci a Igreja antes do Vaticano II senão pelo que vou lendo e ouvindo. Claramente muitas das questões colocadas por Simone Weil foram alvo de discussão e reformulação no Concílio. Salientarei algumas, por puro critério de interesse pessoal.

o ecumenismo antes de Cristo
São múltiplas as interrogações e discussões à volta das tradições que contribuíram para o nascimento do cristianismo. A herança hebraica, encarada como a única fundadora é questionada: «Israel aprendeu a verdade mais essencial sobre Deus (a saber, que Deus é bom antes de ser poderoso) de tradições estrangeiras, caldeias, persas ou gregas e por meio do exílio.» Abundam as referências às figuras mitológicas destas e de outras tradições e à sua influência no que hoje é o cristianismo. Dando um passo mais adiante, discute-se o carácter sacramental de outros ritos e o carácter messiânico de outros messias:
«As cerimónias dos mistérios de Elêusis e de Osíris eram encaradas como sacramentos, tal como os encaramos hoje. E talvez até fossem mesmo sacramentos, com as mesmas virtudes do Baptismo e da Eucaristia, excluindo a virtude que poderia ter ligação com a Paixão de Cristo, já que a Paixão ainda estava para acontecer. Actualmente ela já aconteceu. O passado e o futuro são simétricos.»
«Houve, talvez, em vários povos (Índia, Egipto, China, Grécia), escrituras sagradas da mesma qualidade que as escrituras judaico-cristãs. Alguns textos que subsistem hoje são talvez fragmentos ou ecos.»
As referências à antiguidade pré-cristã multiplicam-se, com citações de imensas personagens reais e mitológicas (muitas ainda que não sabemos bem distinguir!). Qual a importância disso hoje, 2000 anos depois de Cristo? Simone Weil quer reconciliar-nos com o nosso passado mais longínquo e porventura mais esquecido e com isso reconciliar a nossa vida e a nossa organização social com a mensagem cristã:
«A extrema importância actual deste problema está no facto de ser urgente remediar o divórcio que existe desde há vinte séculos e que tem tendência a agravar-se, entre a civilização profana e a espiritualidade nos países cristãos. A nossa civilização não deve nada a Israel e muito pouco deve ao cristianismo; ela deve quase tudo à antiguidade pré-cristã (Germanos, Druidas, Roma, Grécia, Egeico-Cretenses, Fenícios, Egípcios, Babilónicos,...). Se existe separação estanque entre esta antiguidade e o cristianismo, a mesma existirá entre a nossa vida profana e a nossa vida espiritual. Para que o cristianismo se encarne verdadeiramente, para que a inspiração cristã impregne toda a nossa vida, é necessário reconhecer, à partida, que, historicamente, a nossa civilização profana procede de uma inspiração religiosa que, ainda que cronologicamente pré-cristã, é cristã na sua essência. A Sabedoria de Deus deve ser vista como a única fonte de toda a luz neste mundo, mesmo as luzes menos claras que iluminam as coisas deste mundo.»

o diálogo inter-religioso
Mas nem só o passado necessita de reconciliação. Também entre as Igrejas e entre as Religiões o diálogo sincero é necessário. Antes da Igreja proclamar que nela apenas “subsiste a Igreja de Cristo”, não detendo ela o exclusivo da Revelação e da Salvação, Simone Weil pediu que aprendêssemos com as outras tradições religiosas:
« A religião católica contém explicitamente verdades que outras religiões contêm implicitamente. Mas reciprocamente, outras religiões contêm explicitamente verdades que só são implícitas no cristianismo. O cristão melhor instruído pode ainda aprender muito sobre as coisas divinas noutras tradições religiosas, ainda que a luz interior possa também fazer com que ele perceba tudo através da sua. Todavia, se estas outras religiões desaparecessem da face da terra seria uma perda irreparável.» Simone Weil gostaria de ter lido a declaração do Concílio sobre “A Igreja e as Religiões não-cristãs”...

os milagres
Uma coisa que sempre me assustou foi a crença suportada por milagres. Como se a nossa fé se pudesse fortalecer por passes de mágico. Do ponto de vista fenomenológico os milagres são perfeitamente indiferentes para a minha fé:
«No que concerne à autenticidade histórica dos factos que denominamos milagres, não existem motivos suficientes para a confirmar nem para a negar categoricamente.
Se admitirmos esta autenticidade, existem várias formas possíveis de conceber a natureza destes factos.
Há uma que é compatível com a concepção científica do mundo. Para o efeito, esta é a preferível. A concepção científica do mundo, bem entendido, não deve ser separada da verdadeira fé. Deus criou este Universo como um tecido de causas secundárias; parece existir impiedade em supor que o tecido tem buracos, como se Deus não conseguisse atingir os seus fins sem atentar contra a sua própria obra.
»

distinguir o essencial
«A afirmação de S. Tomás [de Aquino] que diz que quem recusa a sua adesão a um só artigo de fé não tem fé em grau algum, é falsa (...).» Esta convicção inspira várias passagens da Carta, onde se exige uma distinção entre o que é essencial e o que é secundário na fé cristã, de uma forma radical:
«”Todo aquele que acredita que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus” (1ª carta de S. João 5,1) Logo, todo aquele que acredita nisto, mesmo se não aderir a mais nada do que afirma a Igreja, tem a verdadeira fé.»
O que é essencial e que é secundário nos ensinamentos da Igreja? É uma questão pertinente ainda hoje. Uma das questões que Eduardo Prado Coelho coloca a D. José Policarpo nos artigos que trocaram no Diário de Notícias (recentemente editados no livro "Diálogos sobre a Fé" pela Editorial Notícias) passa precisamente por esta discussão: está hoje em voga cada um elaborar a sua fé pessoal prescindindo de vários ensinamentos da Igreja no que Prado Coelho chama de "religião por ementa, numa espécie de bricolage, em que cada um pega no que lhe serve melhor, mas ninguém arrisca por inteiro". O Cardeal Patriarca não chega a responder directamente a esta questão. Mas deixa claro que é necessário distinguir o essencial do acessório. E que essa distinção é morosa e exige paciência. Referindo-se à expressão «tralha figurativa da religião» que Prado Coelho usa mais adiante, utiliza uma metáfora para falar da doutrina da Igreja: a experiência de arrumar um sótão velho, onde as memórias se acumulam: «Há no sótão da Igreja outras peças que precisam de ser limpas, porventura descartada, ao ritmo das exigências de adaptação da Igreja à novidade do tempo. Mas isso tem de ser feito com paciência: há sempre alguém que resolve defender e recuperar todo o recheio do sótão de família.»


Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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APROFUNDAR A DEMOCRACIA

No passado mês de Abril celebrámos 30 anos de democracia. Na altura o Adufe perguntou o que houve de bom nestes 30 anos. Num comentário respondi que todos os momentos em que pudemos votar, foram momentos bons; todos os instantes em que pudemos expressar a nossa opinião, foram momentos bons. Essa liberdade de expressão parece hoje um dado adquirido; mas houve várias gerações antes da nossa que não puderam usufrui-la durante muitos anos.
O nosso sistema democrático é melhor do que qualquer sistema totalitário. Após uma polémica em torno do apelo ao voto em branco por parte de José Saramago, alguns comentadores políticos recordaram que a democracia não é perfeita mas é o melhor que conseguimos arranjar até hoje. Mas poderá ser melhorado?

Um Sistema Condicionado
As eleições no nosso sistema democrático são, na verdade, actos democráticos condicionados. Na maioria dos actos eleitorais não estamos a votar em pessoas, mas em partidos. O voto num partido, nunca é um voto numa pessoa, mas sim num conjunto de pessoas (poder-se-á ainda dizer que é um voto num conjunto de ideias ou propostas). Temos liberdade de escolha, mas é uma liberdade condicionada.
É como se tivéssemos de escolher entre cabazes de compras.
Imagine-se que ao fazermos compras tínhamos escolher entre um pacote de arroz e um pacote de espaguete. Mas quem comprasse arroz, teria de comprar também um champô, uma frigideira e um pacote de chocolates; quem quisesse comprar o pacote de espaguete teria de comprar um conjunto de pilhas, um tapete e uma lata de salsichas. Além destes condicionalismos existiria outro: seria impossível comprar simultaneamente arroz e espaguete!
Esta situação caricata é no fundo o que acontece na maioria dos nossos actos eleitorais: não podemos escolher os nossos deputados; a nossa escolha está condicionada pelas listas de deputados existentes.
Existem pessoas capazes em todos os partidos; se alguém desejar que algumas personalidades (nas quais reconhece a devida inteligência e competência política) pertencentes a diferentes partidos sejam eleitas, terá sempre dificuldades em votar. Primeiro é necessário que essas personalidades sejam incluídas nas listas de candidatos (e a elaboração das listas nem sempre segue critérios claros); segundo, terá de fazer uma escolha onde irá excluir pessoas que considera capazes e incluir pessoas que não são da sua preferência ou nem sequer conhece.

O Sistema Bahá’í
O sistema eleitoral bahá’í está claramente alguns passos à frente do sistema eleitoral da nossa democracia. Ali não existem listas de candidatos; qualquer membro da comunidade pode ser eleito; no boletim de voto cada crente escreve os nomes dos crentes que considera mais aptos para o cargo a eleger.
Não se pense que um sistema destes apenas funciona em pequenas comunidades. Este sistema funciona nas comunidades em países tão distintos como a Índia (mais de um milhão de crentes), o Uganda (100 mil crentes), a Bolívia (70 mil crentes) ou os Estados Unidos (130 mil crentes). A dimensão da comunidade e as suas raízes culturais não são obstáculo ao funcionamento deste sistema.
Por este motivo, sinto sempre dificuldades para fazer a minha escolha nas eleições da nossa república; é muito mais fácil votar em eleições bahá’ís.

Um sistema combinado
Uma possível combinação destes dois sistemas passaria pela criação de um círculo eleitoral nacional (mantendo-se os círculos eleitorais distritais). Para esse círculo os partidos apresentariam listas de candidatos; o eleitor, porém, poderia escolher alguns nomes de diferentes listas de candidatos. Deste modo, os deputados eleitos pelo círculo nacional seriam escolhidos directamente pelos cidadãos – independentemente da sua cor política e da sua posição na lista de candidatos.
Por exemplo, poderíamos ter 12 deputados eleitos pelo círculo nacional, e cada eleitor poderia escolher 1 a 6 nomes de deputados para esse círculo; poderia escolher o 1º e 3º nomes do partido A, o 5º e 8º nomes do partido B, e assim sucessivamente. O círculo nacional também poderia estar aberto a candidaturas independentes.
O importante aqui é dar ao eleitor a possibilidade de escolha dos deputados com que ele se identifica mais (mesmo que estes tenham diferentes cores políticas). Neste tipo de eleição, o voto do eleitor nunca vai para um partido, mas para o conjunto de pessoas que ele escolhe. Votar em pessoas é a base do processo eleitoral bahá’í.
Esta forma de eleição obrigaria os partidos a uma escolha muito cuidadosa dos deputados do círculo nacional; ao escolher os deputados individualmente, cada eleitor não poderia deixar de se sentir mais próximo das decisões políticas deste país.
Creio que esta combinação dos dois sistemas seria uma forma de aprofundar a nossa democracia.

MARCO OLIVEIRA (POVO DE BAHÁ)

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