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quarta-feira, junho 2

 

A VOZ DE LETÍZIA

É mesmo sobre o casamento de Letízia. E chegaremos ao casamento de Letízia. Antes temos de fazer um desvio. E começaremos pelo modo como hoje se concebe a natureza humana… Hoje, a natureza humana é tratada em parcelas. Há quem a diga social. Há quem a diga psicológica. Há quem a diga biológica. Estas distinções estão operativas. Sobretudo, a primeira e a última.
No entanto, esta esquadria é posta com frequência em causa. Internamente, porque há diversos modos de entender o social, porque há diversos modos de entender o biológico. Externamente, porque aparecem recorrente e contemporaneamente diversos autores que pensam que esta esquadria não faz sentido: - é redutora. Por isso, conjugam sectores. Surgem pares e desses pares a natureza humana surge como social e psicológica, como social e biológica, etc. Ou totalidades como as propostas por Morin, há alguns anos. Dizem: o homem é um ser bio-psicológico-social.
Analisemos uma tentativa de conjugação. Marcuse conjuga o social e o psicológico. Isto, como é sabido, dá azo a críticas. Aqui, deixamos de lado críticas internas que têm a ver com o facto de Marcuse ler o social na esteira de Marx e o psicológico na esteira de Freud, para passarmos a analisar um fenómeno de outra ordem.
Marcuse é um exemplo de conjugação de linguagens. Mas conjugar linguagens está longe de ser um exercício fácil. Diz-se que as linguagens habitam paradigmas incomensuráveis, projectos de investigação concorrentes. Sendo assim não é fácil articular a incomensurabilidade e a concorrência das linguagens conjugadas. De facto, parece difícil construir uma linguagem capaz de conjugar e ser fiel a Freud e a Marx, uma linguagem que seja uma base de tradução e que não se transforme imediatamente numa linguagem com o estatuto de outras linguagens. Para atestar este facto basta lembrar como hoje reaparece sistematicamente o tema de Babel, pensar quanto incomoda o dito: tradutor, traidor.
Pode pensar-se que estas reflexões teóricas têm apenas alcance teórico. Mas nelas se joga muito do que se joga no xadrez político. Nelas se joga o que justifica a nostalgia por Lady Di e a alegria pela ascensão e casamento da plebeia Letízia. De facto, a monarquia pode ser concebida como uma tentativa de encontrar um estrato social capaz de traduzir e articular interesses sociais diferenciados. Mas a sua desgraça é que poucos – a começar pelos próprios – são capazes de ver na realeza algo mais do que a introdução de um novo estrato social pronto a ser colocado ao lado de outros estratos e que por aí se torna rapidamente disponível para entrar no jogo da incomensurabilidade, do conflito e da concorrência entre «classes».
O casamento de Letízia vive estes dilemas. Por isso, quando perguntamos: será que Letízia servirá os interesses da plebe ou os da realeza?, apenas mostramos que estamos à espera de uma resposta que sabemos rouca… Não é de agora. A voz de Samuel também não estava na melhor das disposições quando disse: «Tomará o dízimo dos vossos rebanhos e vós mesmos sereis seus escravos. Naquele dia clamareis ao Senhor por causa do rei que vós mesmos escolhestes, mas o Senhor não vos ouvirá». Porém, o povo não quis ouvir a voz de Samuel. “Não, disseram eles, é preciso que tenhamos um rei sobre nós!”» (Samuel, 8:17-19).

Fernando Macedo (A BORDO)

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