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quarta-feira, junho 30

 

UMA QUESTÃO DE ÓCULOS

Os movimentos de identificação pessoal estão restritos a um determinado número de modelos. Quando queremos ter o ar de quem vence vitoriosamente na sociedade, ou quando queremos ter o ar de quem está à margem da sociedade, revistas, jornais, televisões, cinema, ou mesmo quem passa por nós na rua a uma hora de ponta fornecem-nos o cardápio necessário.

A questão do vestuário, da modelação do vestuário, assume particular importância. O modo como vestimos dá conta da nossa identidade. E a nossa identidade passa por projectarmos na retina dos outros uma determinada imagem. Isto, como não poderia deixar de ser obriga à reflexão e não será por acaso que o século passado e o século de hoje mostram na história do pensamento uma preocupação forte com a descodificação e a elaboração reflexiva de uma gramática da imagem.

Assim, podemos perguntar: um padre que use uns óculos à Tarentino e que não pretenda nenhum upgrade de Marcelo Caetano, o que nos quer dizer?

Antes e depois dos filmes, os óculos de Quentin Tarantino são hoje uma das suas imagens de marca. Podemos não gostar das armações e da textura das lentes. Mas reconhecemos os óculos de Tarantino. Os óculos de Tarantino falam.

Se falam, têm alguma dificuldade em falar, porque comunicam através de formas visuais. Uma das vantagens, ou desvantagens, da projecção das imagens é que ela entranha em si um certo grau de difusão e ambiguidade. Isto é também o que justifica o desconforto que sentem os que apostam na difusão da identidade de um modo marcadamente imagético.

No entanto, ainda assim os óculos de Tarantino avançam um estilo avant-garde, retrocedem até aos adereços perdidos do intelectual antes do flower power, avançam para uma sólida homenagem ao Elvis Costello da new wave, ou regridem para parodiarem o Super-homem como jornalista.

Entretanto, se estes são importantes dados semióticos, este texto não visa investigá-los desse modo. Visa perguntar: quando um oculista coloca a um padre uma série de óculos e se entre eles estiver um par que lembra os óculos de Tarantino, o que deve fazer? – Deve escolhê-los? – Deve recusá-los? – Se os escolhe, sucumbiu à cultura do tempo? – Ou apenas a utiliza? – É essa utilização legítima? – Ou pura e simplesmente não deve preocupar-se com a escolha do modelo dos óculos?

Fernando Macedo (A BORDO)

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