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quarta-feira, junho 16

 

A QUESTÃO DA NARRATIVA

Uma das marcas peculiares de muito judaísmo, como de muito cristianismo é o apego à narrativa. Quem vive perto da palavra do Antigo Testamento e perto da palavra da Bíblia vive necessariamente perto de palavras que contam uma história.

Como sabemos, nem que não seja por experiência pessoal, é extremamente difícil fazer teoria em cima da história. Com dificuldade, encontramos um conjunto de coordenadas teóricas que permitam fazer luz sobre aquilo que vivemos. Se apostamos num conjunto de coordenadas com poucos elementos parece que muito do que vivemos fica de lado. Assim, por exemplo, se apostamos em explicar-nos em função das influências que recebemos por parte da nossa família, ou função de um conceito como o de humilhação, ficamos sempre com a percepção que muito há para além da nossa família para nos explicar, como há muito para além da humilhação para dar conta dos nossos traumas e dificuldades. Contudo, quando alargarmos o leque de conceitos para tentarmos sermos mais abrangentes, e juntamos à família, as relações de amizade, a pátria, o estado do mundo, e juntamos à humilhação, a ambição, o gosto, o inconsciente – e por aí fora, sabemos que estreitando as malhas, o peixe continua a fugir.

No entanto, sabemos entretanto que sem teorização a história fica oca. E quando não se pode fazer história sem teorização. Se pegarmos em todas as fotografias que nos tiraram desde que somos crianças e as formos vendo uma a uma e formos dizendo estive aqui e acolá, aconteceu-me isto ou aquilo, rapidamente passamos da enumeração dos factos para uma coisa diferente: num lugar qualquer da nossa alma, explicamos e cozemos aquilo que a um primeiro lugar parece apenas dispersão.

Por isso, precisamos pensar a nossa história. Por isso, o pensamento cristão pensa a história que lhe foi contada. Quando o faz, as dificuldades que encontramos quando queremos pensar a nossa história repetem-se. Entretanto, e é isso que advogamos, esta sintonia nas dificuldades podem servir para darmos conta da sua autenticidade e veracidade. Vejamos.

O cristianismo conta uma história. A história de um nascimento, de uma paixão, de uma morte e de uma ressurreição. Contando essa história, não pode fugir ao modo como contamos as nossas histórias pessoais. Contando assim mostra-se em perfeita sintonia com o modo como nos contamos.

Há quem aposte numa leitura da história cristã feita em função de poucas coordenadas. Podemos ver o exercício em homens como Santo Anselmo ou Boaventura. E isto porque é bom não esquecê-lo que mesmo as explicações cristãs mais abstractas apenas ganham pertinência quando de algum modo são capazes de dar conta da história que as vivifica. Podemos também ver o exercício que vive de um leque mais alargado de conceitos num homem como Santo Agostinho e na sua obra Cidade de Deus. Se o que fica de fora nos primeiros parece de algum modo compensado no segundo, também é verdade que todas as nuances da política romana, da política grega, e todo um conjunto de factores de carácter económico ou demográfico ficam de fora da Cidade.

Quando nos apercebemos que não somos capazes de explicar a história que vivemos e que as explicações que vamos dando ao longo da vida são apenas provisórias, aproximamo-nos da constatação que podemos obter da longa história das explicações que foram dadas pelo cristianismo para a história que inicialmente lhe foi contada. Por isso, podemos dizer que o cristianismo ao longo dos séculos tem feito aquilo que também nós fazemos. Procura incansavelmente dar conta da história que o constituiu. E tal como nós ao longo da vida acabamos por fazê-lo de modos diferentes, também o cristianismo acaba por fazê-lo. Também por isto, por esta sintonia com nós e com a vida, por não renegar o seu carácter multifacetado, o cristianismo acaba por aproximar-se de nós… O que tem muito a ver com o romance e com a importância que o romance pode assumir no cristianismo, mas isso já é assunto para outro dia. Até lá, fiquem bem.

Fernando Macedo (A BORDO)

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