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quarta-feira, junho 23

 

QUEM CONTA UM CONTO ACRESCENTA UM PONTO

Uma leitora das mais antigas do meu blogue, a Conceição, mandou-me há dias, por mail um texto de Leonardo Boff, figura de proa da Teologia da Libertação. Devo confessar que esta sempre me mereceu algumas reservas mentais. Não tanto pelos seus contornos ideológicos mas sobretudo pela sua concepção cristológica. Não me vou alongar por aí mas remeto quem estiver interessado para um post no Guia sobre esse assunto. Mas voltemos a Boff. Dele são algumas das mais belas orações que conheço. Dele são alguns textos muito pouco ortodoxos mas que andam, muitas vezes, muito perto de Deus. Este, que a Conceição me mandou e vou transcrever de seguida, é certamente um deles. Fala-nos da disponibilidade total perante Deus que só tem aqueles que tem a mesma disponibilidade perante os outros. Fala-nos duma disponibilidade apenas possível através do abandono de nós próprios. Fala-nos duma disponibilidade perante Deus que é total porque nada espera. Segue-se então o tal texto, uma espécie de conto, belíssimo, tal como a Conceição mo enviou, apenas transposto para português de Portugal. A ela o meu muito obrigado.

Ser disponível

Ele fez de tudo na vida. Foi ateu, marxista, mercenário da Legião Estrangeira. Nas guerras matou muita gente. De repente converteu-se. Fez-se monge sem sair do mundo. Foi trabalhar como estivador. Mas todo o tempo livre dedicava-o à oração e à meditação. Durante o dia recitava orações enquanto trabalhava, como se recitasse mantras.
Estranhamente, tinha um jeito muito próprio de rezar, pensando que se Deus se fez gente em Jesus, então foi como nós: fez chichi, choramingou pedindo peito, fez beicinho com as coisas que o incomodavam. No começo Jesus teria gostado mais de Maria, depois mais de José, coisas que Freud explica. E foi crescendo como as nossas crianças, brincando com formigas, correndo atrás dos cãe e, maroto, levantando os vestidos das meninas para vê-las furiosas, como Fernando Pessoa imaginou um dia. Era em coisas assim que pensava enquanto rezava. Rezava a Nossa Senhora imaginando como ela mimava Jesus, como tratava Dele e também do seu bom José. E como ela se alegrava interiormente com os seus pensamentos espantados porque os sentia e vivia na forma de comoção pura no seu coração. E, rezando e pensando assim, chorava frequentemente de pura alegria espiritual.
Depois decidiu fazer-se religioso, da ordem dos irmãozinhos de Foucauld, desses que vivem pobres no meio dos mais pobres. Continuou a viver no mundo. Apenas se encontrava de tempos a tempos com a sua Fraternidade. Criou uma pequena comunidade na pior favela da cidade. Tinha poucos discípulos. Apenas três, que acabaram todos indo embora.
Só, agregou-se então a uma paróquia que fazia um duro trabalho junto das populações. Trabalhava com os sem-terra e com os sem-abrigo. Corajoso, organizava, se necessário manifestações públicas em frente da Prefeitura e incentivava ocupações de terrenos baldios. E quando os sem-terra e os sem-abrigo conseguiam restabelecer-se, fazia belas celebrações eucarísticas.
Mas todos os dias, por volta das 10 da noite, enfiava-se na escura igreja dessa paróquia. Nela, apenas as velas lançavam lampejos titubeantes de luz, transformando as estátuas mortas em fantasmas vivos e as colunas erectas em estranhos seres. E por lá se quedava sempre, até às 11 horas. Todas as noites. Impassível, de olhos fixos no altar.
Um dia fui procurá-lo na igreja. Perguntei-lhe de chofre: meu irmão, tu sentes Deus, quando depois dos trabalhos, te pões a escutá-Lo na igreja? Ele diz-te alguma coisa?
Com toda a tranquilidade, como quem acorda de um sono profundo, ele apenas disse: Eu não sinto nada. Há muito tempo que não escuto a Sua voz. Já A senti um dia. Era fascinante. Enchia os meus dias de música. Hoje não escuto mais nada. Talvez Deus não me fale nunca mais.
E então, retorqui eu, por que continuas tu, todas as noites, aí na escuridão sagrada da igreja?
Eu continuo, respondeu ele, porque quero estar disponível. Se Ele se manifestar, sair do Seu silêncio e falar, eu estou aqui para escutar. E se Ele quiser falar e eu não estiver aqui? Pois, de cada vez, Ele vem somente uma única vez. Como outrora.


Deixei-o, na sua sua plena e total disponibilidade. Saí maravilhado e meditativo. É por causa de pessoas assim que o mundo não é destruído e Deus continua a manter sua misericórdia perante a humana perversidade: porque eles vigiam e esperam, contra toda a esperança, o advento de Deus que talvez nunca acontecerá.

(Leonardo Boff)


Sim, leram bem: “o advento de Deus que talvez nunca acontecerá”! Boff poderia ter escolhido terminar este texto lindíssimo de uma forma mais fácil para quem o leu, dizendo qualquer coisa inócua do tipo: “o advento de Deus a que ele certamente não assistirá”. Mas não. Boff parece pôr aqui em causa toda a tradição escatológica cristã, canónica através de S.Paulo e S.João, segundo a qual acontecerá um dia o fim dos tempos em que Cristo virá de novo e definitivamente para junto de nós. Um tempo em que uns serão salvos, outros condenados.
Nem sei bem o que dizer disto. Seguramente é por frases assim que Boff foi alvo de censura e ostracismo pelo Vaticano o qual, por natureza e função, tem de cuidar da ortodoxia. Todavia isto aqui pretende ser um espaço e um tempo de reflexão. Nem está no meu feitio anatemizar ousadias teológicas. Prefiro tentar percebê-las. Sobretudo se vierem de quem, como Boff e como também eu, fica fascinado por aqueles que, tendo uma absoluta disponibilidade para Deus, conseguem oferecer-Lhe as suas vidas sem nada exigir Dele. São aqueles para quem o silêncio de Deus é já em si mesmo uma Sua manifestação. São aqueles que tem uma Fé tão grande e tão depurada que já não é menos do que um imenso e incondicional Amor a Deus. São aqueles que, sabendo que nem todos podem ter uma Fé assim, não procuram ser mais do que agentes materiais do Amor de Deus pelos seus filhos, sobretudo junto daqueles que mais precisam Dele.
Para pessoas assim, as questões da salvação e da condenação, as questões do pecado e da graça, são questões que já não tem grande importância. Para pessoas assim não será talvez importante saber se Cristo virá ainda uma derradeira vez pois as pessoas assim sabem que Cristo já veio e ficou a habitar os seus corações.
Ora, era de uma pessoa assim que Leonardo Boff nos falava. Penso que isso explica bem aquilo que ele diz. Blasfémia? Para alguns sê-lo-á certamente mas eu tenho uma esperança enorme que não o seja.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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