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segunda-feira, junho 14

 

QUE A MORTE DÊ VIDA

A morte de Sousa Franco faz pensar em muita coisa. Muita retórica fácil corre nestas ocasiões, porque todos queremos dizer qualquer coisa e nem sempre sabemos como fazê-lo. Eu, aí, estou como os outros. Mas quero autorizar-me a ser questionado pelos eventos. Para este espaço deixei duas singelas reflexões suscitadas pela vida e pela morte deste cidadão.

1. Um dos inúmeros ataques que tipicamente os cínicos lançam aos crentes diz respeito à relação com a morte de uma pessoa concreta e próxima que se queria. O argumento corre mais ou menos assim: se acreditam numa outra vida, se nela se pode estar melhor (junto do divino), porque razão haverão de contristar-se com uma partida para o paraíso? Não deveriam, antes, rejubilar?
Em boa verdade, certas tendências “teológicas” para o intelectualismo, para fazer da religião quase uma questão de recto raciocínio, para dar a primazia aos argumentos – alimentam esta pergunta cínica. Porque dão a impressão que, para o crente, a religião é um software: instala-se dentro da cabeça e, salvo conflito com o sistema operativo, põe a máquina a trabalhar de forma perfeita e ordenada. E assim vamos indo para o céu.
Outra fonte de alimento para esta pergunta cínica vem de uma concepção individualista da relação com o divino: como se Deus fosse uma tomada eléctrica a que cada um liga o seu cabo de alimentação para continuar a mexer. E assim se esquece que não há sentido no mundo (que não há sagrado) se estivermos sozinhos. Esse esquecimento é o neoliberalismo em versão religiosa.
Se, na religião como em tudo o resto, soubermos que somos seres humanos concretos, em permanente construção com os outros, fazendo em sociedade o software que faz funcionar o hardware com que nascemos, perceberemos que a morte nos confronta com a falta que os outros nos fazem. E assim podem cessar as retóricas cínicas.

2. A concreta morte de um homem como Sousa Franco suscita-me outra questão, esta de carácter estritamente político. Há quem diga que os políticos devem ser profissionais, de forma a poderem ser competentes no seu exercício e a serem avaliados pelos eleitores de forma rigorosa. Concordo. Também há quem diga que a política deve ser um exercício de cidadania, assumido como missão e não como “emprego”. Também concordo. Como posso concordar com duas teses que parecem opor-se? Respondo com o exemplo de Sousa Franco: assumiu toda a sua intervenção política como um dever de cidadão que não se permite o egoísmo do alheamento, mas fê-lo sempre com o rigor mais profissional que cada um pode colocar em tudo o que faz. Se hoje se clama por flexibilidade e capacidade de adaptação no mundo do trabalho, dizendo que cada um tem de ser capaz de aprender ao longo da vida e assumir novas competências e novos desempenhos, se a formação de base é apenas o ponto de partida para os mais diversos desempenhos profissionais – porque é que um bom profissional em qualquer área não pode mobilizar os seus conhecimentos para ser um político de nível profissional, sem se tornar um funcionário dos interesses imediatos? Sousa Franco estava a mostrar que isso é possível. Mais: estava a dizer que isso é urgente e indispensável. Talvez possamos prestar-lhe homenagem não nos esquecendo disso com a pressa do costume.

Porfírio Silva (TURING MACHINE)

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