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quarta-feira, junho 30

 

O SEXO DOS ANJOS

Preliminares. Por estes dias, vale a pena reflectir sobre o exercício ético da política, esquecido em sucessões dinásticas e fugas patrióticas e orgulhosas de um país a banhos de défices e futebol. Também há dois textos que interpelam directa ou indirectamente as ideias que aqui expus na semana passada em «Os agitadores de bandeiras»: o de José Maria Brito e o de Filipe Alves, aqui publicados na segunda-feira passada. O tempo é bom conselheiro: em devida altura regressarei a estes temas.

Actos das palavras. O Verão insinua-se nos corpos. A sensualidade desperta os sentidos. Num liceu inglês, as raparigas foram aconselhadas a deixar nos armários as suas mini-saias cada vez mais curtas, por despertarem a atenção dos rapazes. Naquela localidade, numa associação perigosa de ideias, o número de gravidezes aumentou nos últimos três anos, afirmaram as autoridades escolares.

As coisas arrefecem é quando se pensa a moral sexual, que é deste campo. As convicções ficam esquecidas no tinteiro ou no ficheiro do computador... Arrumadas na gaveta mais conveniente. Há longos 11 anos, a Igreja católica portuguesa - melhor dito: os senhores bispos - atrapalhou-se com um famoso «documento sobre moral sexual», obra da irreverência de uns quantos estudantes católicos como na altura criticaram.

O texto aprovado pelo Conselho Nacional do Movimento Católico de Estudantes era resultado de uma reflexão interna longa, no tempo e na forma. A comunicação social fez-se eco daquelas palavras ousadas e, aí sim, caiu o Carmo e a Trindade (mas isso é outra questão).

Durante meses, num processo ainda acompanhado pelos jornais e televisões, o MCE manteve um diálogo com os bispos - sobre aquela e outras questões suscitadas por aquele delito de opinião. Mas não é isso que hoje me interessa (embora fosse importante fazer também a história desta Igreja).

Ao lermos, hoje, aquelas linhas descobre-se uma intenção séria de discutir a moral sexual. Nomeadamente, nos pontos específicos que então se apresentavam como exemplos de um discurso e de uma prática dissociantes: i) a contracepção, ii) as relações pré-matrimoniais, iii) a masturbação, e iv) a homossexualidade.

O acento tónico da argumentação cuidada e longa defendia a responsabilidade moral dos sujeitos, que algum discurso universal do Vaticano tende (ainda hoje) a atropelar. Por isso, trago à liça esta história e este texto. A memória como projecto: dois meses depois do primeiro texto, os responsáveis do MCE faziam publicar um texto - que mereceu menor divulgação e exposição mediática - onde defendiam e esclareciam os seus pontos de vista (cf. «Algumas considerações a propósito do Documento sobre Moral Sexual», in "comtextos", revista do MCE, nº 3, Junho/Agosto, 1994).

Neste segundo texto sublinhava-se que ali se apresentavam, «efectivamente, as questões reais dos jovens da nossa idade, crentes e não crentes, que com toda a crueza encontram voz no texto [«Documento sobre Moral Sexual»]». Ali não se quis «fazer doutrina», nem fazer afirmações «fechadas e absolutas».

Hoje, como há 11 anos, a Igreja permanece quase imutável na sua forma de olhar o corpo e a sexualidade. Hoje, como há 11 anos, a valorização positiva do prazer e do sexo continua a ser tabu para o clero e, muitas vezes, vergonha para os leigos. No Verão quente, a Igreja continua a vestir roupas de Inverno e a discutir o sexo dos anjos.

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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