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quarta-feira, junho 30

 

O MEU CORAÇÃO BATE À ESQUERDA

«Julgo que (felizmente) o que distingue a esquerda da direita é a esquerda ser necessariamente religiosa. A opção de lutar ao lado dos fracos contra os fortes é uma opção religiosa não sustentável por qualquer visão "científica" do mundo.
Mas, se calhar a direita também é religiosa. Tem a fé de que os fracos não são precisos para nada. E tem fé em teorias "científicas" que legitimam essa fé
».
Timshel


A minha consciência política despertou quando eu descobria os textos da Doutrina Social da Igreja. Creio que é esta a razão pela qual, politicamente, me revejo desde então – e regra geral – nos ideais da Esquerda.
Aqui, neste campo da luta, encontro a força cristã da esperança e na busca de um mundo melhor, mais justo, livre e fraterno – e a certeza de como é possível alcançá-lo através de lutas sociais e pessoais, assim participando na Criação. Aqui, neste lado do espectro político, compartilho a indignação profética perante a injustiça do mundo, o combate contra as exclusões, a sede de liberdade, de igualdade, de fraternidade.
Acredito, ao contrário da Direita (inclusivamente a Direita da minha Igreja), que o papel da política, de todos nós, cidadãos (e cristãos) empenhados, é o de tentar transformar o mundo. Não apenas de administrar as desigualdades e de resignar-se com a desordem das coisas.
Tenho grande dificuldade em cindir a fé das obras, em separar a alma do corpo. O Deus em que acredito fez-se carne, assumiu com plenitude e por inteiro a condição humana, tornando-a assim "divina". Talvez também por essa razão, desconfio de quem me apresenta um modelo de administrar a coisa pública como a mera gestão das existências, adaptando-se continuamente à "evolução" dos tempos, conformando-se resignadamente às injustiças sociais e criando novas exclusões.
Na fé que procuro alcançar, o Reino de Deus é uma utopia de libertação absoluta, cuja exigência foi paga por Jesus com a morte. A conversão de cada um implica uma radical mudança do modo de pensar e de agir no sentido de Deus, na construção de uma nova ordem, de um novo sentido de vida que responda aos anseios mais profundos do homem. É o credo último que define todos os cristãos: a fé na ressurreição.
Ora, revejo-me na Igreja que alivia a dor do homem, que toma suas «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de quantos sofrem» (Gaudium et Spes, 1). E que reconhece «escandalosa a existência das excessivas desigualdades económicas e sociais que ocorrem entre os membros e povos da mesma família humana. São contrárias à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e à paz social e internacional» (GS, 29). Daí que seja dever e responsabilidade de cada cristão tomar como sua esta mensagem da boa-nova. Pela obras e não apenas pelas palavras. Não concebo uma proximidade de Deus longe da vivência dos homens.

«If the real Jesus Christ were to stand up today
He'd be gunned down cold by the CIA
»
[The The, Armageddon Days Are Here (Again) - Mind Bomb]


Assim, face às questões políticas de fundo, à ideologia subjacente à tomada das decisões que a todos dizem respeito, perante a economia do quotidiano, coloco-me à pergunta talvez mais soberba de todas: nestas circunstâncias, que opção teria tomado Jesus?
Face às opções do orçamento de Estado, passando pelas prioridades das opções a privilegiar das diferentes áreas de actuação de um Governo, até às decisões mais pequenas e mesquinhas sobre a coisa comum, o que faria Jesus? Se em alguns assuntos se torna impossível responder ou até irrelevante colocar a questão, para outros, creio que me ajuda a resposta que me dou. Seria Jesus favorável à Guerra ao Iraque? Parece-me que não. Teria Jesus investido muitos milhões de contos na construção de estádios de futebol em detrimento do abandono do financiamento às áreas sociais? Também aqui me parece que não. Votaria Jesus a favor da possibilidade do aumento de substâncias poluentes para a atmosfera, descurando o apoio à conservação da natureza, em prol da industrialização imediata de uma zona ou do aumento da edificação? Seria Jesus favorável à liberalização dos despedimentos? Aprovaria a taxa Tobin? Etc., etc.

Carlos Cunha (PARTÍCULAS ELEMENTARES)

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