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quarta-feira, junho 16

 

O BODE EXPIATÓRIO E A GLOBALIZAÇÃO

Nota prévia: um leitor da TdA e do Guia, leitor atento mas hostil, censurou-me por não fazer citações nos meus artigos e posts, e isto ao contrário do saudável exemplo dos meus amigos aqui da Terra da Alegria. Maliciosamente, este leitor fatal encontra duas explicações possíveis para esta minha lamentável prática: falta de erudição e/ou excesso de presunção. Duas vezes bingo! Pois bem, hoje vou tentar redimir-me. Vou citar, em abundância e em itálico.



Já há uns tempos o Fernando Macedo falou-nos do René Girard. Por curiosidade fui investigar sobre este homem, um antropólogo francês radicado nos Estados Unidos, onde, segundo dizem, foi um dos criadores da antropologia da religião.
Antes disso, o homem desenvolveu uma teoria global do conflito nas sociedades humanas baseada na análise do papel central do bode expiatório, considerando que o fenómeno religioso arcaico era essencialmente resultado de algo que chamou de "fenómeno vitimário":

O acto fundamental da sociedade primitiva, que está na origem da nossa, é designar uma vítima, um bode expiatório, e cultivar a ilusão de sua culpabilidade para permitir a expulsão de toda a espécie de tensão coletiva. É uma verdadeira tentativa de pacificação por intermédio de uma vítima que, ao reúnir um grupo todo contra si, produz mimeticamente um apaziguamento, até uma reconciliação. Ao longo da Antiguidade, as sociedades reproduziram esse gesto reconciliador sob a forma de sacrifícios ou ritos sagrados e essa repetição tornou-se, em si mesma, uma instituição. É o caso, típico, da lapidação, codificada pelo Livro do Levítico. Além disso, os etnólogos demonstraram, já há muito tempo, que havia uma forma primitiva de justiça grega por meio do assassinato coletivo ou linchamento ritual. Há um relato lendário grego surpreendente, que põe em cena Apolónio de Tiane. Para pôr fim a uma epidemia, Apolónio designa à punição popular um mendigo asqueroso, mas totalmente inocente. O infeliz é morto à pedrada e, assim que se retiram as pedras que o recobrem, descobre-se em seu lugar um monstro assustador que representa o demônio vencido, a doença erradicada.

Girard analisou longamente o Cristianismo à luz do tal “fenómeno vitimário”. Andou assim às voltas do acontecimento central da nossa Fé, a morte de Cristo às nossas mãos e Sua posterior ressurreição. E chegou a conclusões surpreendentes.

Em primeiro lugar que o ideário judaico-cristão representa neste particular aspecto uma ruptura com os mitos arcaicos: Nos mitos antigos, as vítimas são sempre culpáveis, pois o relato é sempre escrito do ponto de vista da ilusão criada pelo fenômeno vitimário. É por ser culpável que a vítima apaga a violência e acede ao status mítico. No universo mental judeo-cristão, ocorre o inverso: a vítima é inocente! Veja-se a diferença entre Caim e Abel de um lado e Rómulo e Remo de outro. Remo é culpável, já que Rómulo virá a ser o fundador glorificado de Roma. Ao contrário, Deus pergunta a Caim: "Onde está teu irmão Abel? O que fizeste?" Certamente, Deus aceita fundar o gênero humano sobre essa base de violência, mas ao mesmo tempo Ele se preocupa com a sorte de Abel, vítima inocente.

Girard relembra que no começo do cristianismo há um fato essencial: os discípulos traem todos! Eles são levados pelo entusiasmo usual contra as vítimas: Pedro representa o modelo de indivíduo que, no meio de uma multidão hostil à vítima, se torna hostil também... como todos. E depois, tudo muda, a lógica arcaica é invertida e os discípulos acabam por ficar não contra a vítima, mas a seu favor. Em oposição ao que disse Nietzsche - "O cristianismo é a multidão" -, a fé cristã exalta o indivíduo que resiste ao contágio vitimário. Por outro lado, a fé cristã consiste em pensar que, diferentemente das falsas redenções míticas, que estão realmente enraizadas em violência expiatória, a ressurreição do Cristo nada deve à violência dos homens. Ela se dá depois da morte do Cristo, inevitavelmente, mas não em seguida, apenas no terceiro dia, e encontra sua origem no próprio Deus.

Girard relembra também que , ao contrário de Apolónio de Tiane e ao contrário também do disposto no Levítico, Jesus interrompe o apedrejamento da adúltera, dizendo: "Aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra." O propósito de Jesus é transcender a lei mosaica, o que vai levar ao requestionamento do fenómeno vitimário. Antes, contudo, esse requestionamento vai semear a desordem entre o povo e incitá-lo a matar Jesus!

Mas o que fica é o facto de que, suprimindo o papel do bode expiatório, salvando os linchados, proclamando o valor da inocência, oferecendo a outra face, a fé cristã priva bruscamente as sociedades antigas de suas vítimas sacrificiais habituais. Não se exorciza mais o mal exercendo violência sobre um culpado designado, cuja morte traz apenas uma falsa paz. Ao contrário, tomamos partido da vítima recusando a vingança e aceitando o perdão das faltas. O que supõe que cada um zele pelo outro atendendo a princípios fundamentais e que cada um zele por si mesmo.

Reflectindo sobre o facto de que já na era cristã e nas sociedades ditas cristãs terem permanecido, apesar de tudo, resquícios inapagáveis do primevo fenómeno vitimário (perseguição dos judeus, a caça às bruxas e aos herejes, protagonizados por exemplo pela arcaíssima Inquisição), Girard diz uma coisa interessante e, também, reconfortante:

A exigência cristã produziu uma máquina que vai funcionar a despeito dos homens e dos seus desejos. Se ainda hoje, após 2 mil anos de cristianismo, se censuram muitos cristãos por não viverem conforme os princípios que eles pregam é porque o cristianismo se impôs universalmente, mesmo entre aqueles que se dizem ateus. O sistema posto em movimento há 2 mil anos não vai parar, pois os próprios homens se encarregam disso muito para além de qualquer adesão ao cristianismo. O Terceiro Mundo, tanto o cristão como o não cristão, acusa os países ricos de o fazerem sua vítima, acusando justamente os ocidentais de não seguirem os seus próprios princípios. Todo o Mundo recorre assim ao sistema de valores cristão e, ao fim e ao cabo, acaba por não haver mais outros que sejam verdadeiramente universais. O que significam os direitos do homem senão a defesa da vítima inocente? O cristianismo, em sua forma laicizada, tornou-se de tal maneira dominante que não vemos nada melhor do que ele. A verdadeira globalização é o cristianismo!

E esta, hem?


José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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