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quarta-feira, junho 16

 

NA TABERNA

Existe um tempo para as metáforas e as alegorias e um tempo para a linguagem directa e unívoca. Este vai ser um texto deste tipo. Nada do que nele é dito deve ser interpretado de outra forma que não no seu sentido literal.

O abrupto escreveu um post no dia 11de Junho que considero um dos mais belos posts que já foram escritos na blogosfera portuguesa. Talvez porque me identifique profundamente com ele. Sempre vivi e senti as sensações de pancadaria intelectual com os meus adversários (e também a física na sequência do combate ideológico, mas num tempo que já lá vai) como uma forma suprema de confraternização.

Neste universo de valores que reconheço profundamente masculino (por razões que desconheço as mulheres são-lhe, normalmente, profundamente insensíveis) a luta é cultivada como se se tratasse de um teste para aferirmos a qualidade humana dos nossos adversários. Aqueles que guardam rancor, arrogância ou despeito do conflito que pertence agora ao passado são seres humanos a evitar. Aqueles que passam esse teste mantendo a gentileza, a humildade e o humor são seres humanos cuja companhia nunca deixará de ser agradável.

Passo a citar excertos desse post do abrupto:

"Porque foi assim que conheci Lino de Carvalho, à pancada. Preciso: numa breve cena colectiva de pancadaria, daquelas que não se sabe bem como começam e como acabam (.../...) Falámos algumas vezes, eu e ele, com bonomia, sobre essa cena e trocávamos algumas pequenas provocações sobre o murro que ele me deu e a cadeirada que eu tentei dar-lhe. (.../...) É um mundo que está a acabar."

O post da semana anterior que aqui escrevi sobre o vinho era aparentemente anti-protestantes. Os protestantes - Voz do deserto, Bengelsdorff, quero roubar-te a carteira - compreenderam que o post era uma brincadeira e reagiram em conformidade. Todavia, num comentário a um outro blogue vi uma interpretação excessivamente literal desse post e decidi escrever um post no meu blogue a esclarecer que o que aqui escrevi na semana passada, para além de uma brincadeira, tinha um significado metafórico.

Não estava com inspiração quando comecei a escrever o post da semana passada sobre o vinho (sentia o prazo de entrega do texto aos companheiros do Terra da Alegria a aproximar-se perigosamente) e tinha de facto bebido uns copitos de vinho não obviamente com a intenção de ganhar inspiração mas num outro contexto que não é aqui chamado à colação. Fosse pelos copitos de vinho, fosse pela navegação pela net em busca de inspiração, comecei a escrever. À medida que ia escrevendo (textos em grande parte copiados da net) comecei-me a dar conta da possibilidade de interpretação alegórica de alguns elementos do post.

Essas alegorias comportavam uma componente manifesta de agressividade irónica relativamente aos protestantes. Mas até a categoria "protestantes" podia ser alegórica. Por isso, não me importei. Essas interpretações eram possíveis mas eram igualmente possíveis outras interpretações, algumas delas de duvidoso catolicismo. Por outro lado, como já referi, sentia a vertigem da luta, da agressividade trabalhada, da possibilidade de uma polémica deliciosa. Os amigos protestantes reagiram admiravelmente e apreciei a sua reacção. Contudo, depois de esclarecer no meu blogue o comentário acima referido explicitando que o post do vinho continha obviamente uma metáfora senti que estava de algum modo a ultrapassar a linha da elegância.

As metáforas eram (são) múltiplas, algumas das quais me dei conta (e que estruturei deliberadamente) mas outras que surgiram "por acaso" (algumas das quais, possivelmente, ainda nem sequer apercebi conscientemente). Mas ninguém se podia sentir atingido por elas: era um jogo metafórico que pretendia que quem o lesse descobrisse alguma coisa divertida e que o fizesse pensar (coisas que nem eu próprio possivelmente descobri). Não eram, de certeza absoluta, coisas que visassem humilhar cobardemente, sob a capa da ironia humorística, alguém, pelas suas convicções religiosas ou outras. Nesse sentido, seriam quando muito um exercício de auto-ironia. Aproveito para deixar aqui claro duas coisas.

A primeira é que não admiro particularmente a vivência religiosa baseada em muitas certezas, seja em que religião for, em especial na minha, o catolicismo. Para além do amor julgo não serem necessárias muito mais certezas. Quanto mais certezas, maiores são as possibilidades de autoritarismo e susceptibilidade. E o autoritarismo e a susceptibilidade estão nos antípodas do amor. E é por isso que o amor tem que ver com humor. Recordo um excerto de um post que escrevi em 21 de Março passado:

"O discurso humorístico é um simples exercício intelectual mais ou menos conseguido. Não foi feito para rebater ou sustentar discursos e argumentações: foi feito para divertir e, eventualmente, fazer pensar. O humor é um exercício lúdico e, quando muito, pedagógico. Neste sentido ele é completamente neutro: tanto pode ser utilizado para atacar ou defender ideias ou atitudes correctas como ideias ou atitudes incorrectas."

Quando pretendo discutir a sério a justiça ou a verdade de uma ideia ou valor nunca utilizo o humor mas sim um raciocínio de tipo argumentativo, franco, aberto e sem qualquer tipo de metáforas, alegorias ou ambiguidades.

É verdade que o humor é um exercício no arame. Nunca se sabe se, independentemente das nossas intenções, ele é objectivamente agressivo. É um risco. Mas considero o humor demasiado importante para prescindir dele em nome desse risco. E espero que Deus me dê a clarividência suficiente para nunca passar as fronteiras da elegância e do bom senso.

Gostaria de sublinhar que respeito profundamente quem bebe muito (como eu) tal como respeito profundamente quem é abstémio seja por razões de convicção religiosa – e descobri através do meu amigo Marco que na religião Bahá existe um imperativo nesse sentido – seja por razões de convicção pessoal. Gostava de deixar claro que nada tenho contra quem não bebe vinho e não me passaria pela cabeça insultar consciente ou inconscientemente um abstémio. São comportamentos privados sobre os quais não tenho nada que emitir juízos de valor.

Devo contudo sublinhar, em abono da verdade, que as ciências do comportamento indicam que o álcool em excesso pode provocar graves perturbações da personalidade, perturbações essas que tendem, mais vezes do que o desejável, para o Mal. Por isso, sublinho que a minha última frase do post da semana passada sobre o vinho ("O vinho é para se beber moderadamente") deve igualmente ser levada à letra e não só metaforicamente.


Timshel (TIMSHEL)

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