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quarta-feira, junho 9

 

MUITOS HOMENS, MUITAS FÉS, UM DEUS (2ª PARTE)

Para os que, como eu, tem Fé, a importância extraordinária que as Religiões tem tido na História da Humanidade, nos seus grandes saltos civilizacionais, nas grandes rupturas ou descontinuidades históricas, tem como razão primeira o simples facto de em determinadas alturas, em diferentes lugares, de diferentes maneiras, Deus ter-Se revelado ao Homem e revelado ao Homem a parte da sua natureza que em si própria também é divina. E a questão está precisamente aqui - em vários momentos da História o Homem recebeu a Revelação: o que é que tem feito com ela?
Para aqueles a quem, directa ou indirectamente, chegou a Revelação, a importância desse facto foi e é enorme e deixará sempre uma influência inapagável. A consequência dessa importância no modo do Homem ver a Vida bem como a dimensão ética associada à Revelação foi que a Religião passou a ter um extraordinário papel estruturante a nível social, cultural e político. Com efeito, em determinada altura a necessidade inata do Homem para se organizar em sociedade passou a ter um catalizador formidável: a Ética da mensagem revelada. Essa Ética, revelada e interpretada, passada a escrito em Livros Sagrados, passou a reger o Homem não só na sua relação com Deus mas também na sua relação com os outros. O Homem assumiu que Deus tem um desígnio para ele e que é no seu comportamento em sociedade e face à sociedade, que o Homem pode demonstrar a Deus e aos outros homens a sua aceitação desse Seu desígnio.
Isto é comum a todas as grandes religiões mas em graus bastante diferentes. Curiosamente as religiões que enfatizam mais a relação do Eu individual com o Eu universal, como talvez o Budismo, são mais tolerantes para as outras religiões do que aquelas que põe mais ênfase no modo como Deus quer que nos relacionemos entre nós. Mas voltemos à questão essencial.
Imaginemos uma determinada sociedade passada na qual, em dada altura, ocorreu uma Revelação Divina. Imaginemos que, como tem sido padrão, essa revelação traz uma componente ética entendida como instrumento de salvação. Imaginemos que essa revelação encontra suficiente eco nessa sociedade para que o núcleo embrionário de pessoas que aderiram em primeira instância à referida mensagem divina consigam propagá-la. Inevitavelmente, esse grupo de indivíduos, desejando ardentemente dar testemunho e desejando que esse testemunho frutifique, irão organizar-se gerando assim uma comunidade actuante. A forma como essa comunidade irá evoluir e organizar-se vai depender muito do entendimento ou interpretação que ela fizer da mensagem revelada. Dependerá muito do meio cultural e moral envolvente. Dependerá muito da resistência que encontrar nessa sociedade, a qual será sem dúvida determinada pelo grau de contraste entre a essência dessa mensagem e os padrões éticos, teológicos e culturais então prevalecentes. Dependerá muito da evolução que essa sociedade vier a ter e do papel mais ou menos estruturante que essa sociedade vier a atribuir a essa comunidade e à mensagem por ela anunciada.
Nuns casos, no seio da comunidade inicial de crentes irá formar-se um clero organizado e hierarquizado, como a Igreja Católica, noutros um clero não centralizado como no Islão, noutros casos uma simples comunidade de monges como a Sangha Budista.
Agora imaginemos que a referida comunidade de crentes consegue captar a maioria da sociedade em seu redor para a sua mensagem de salvação. O que vai naturalmente acontecer é que, dada a ânsia pela salvação do ser humano, essa sociedade vai mudar os seus padrões éticos, os seus padrões rituais, os seus padrões comportamentais. A própria organização social vai-se rearranjar por forma a se compatibilizar com a mensagem revelada e agora aceite de forma generalizada. Vai também acontecer que o clero entretanto formado vai criando um ritual cada vez mais definido e complexo para que os fiéis possam manifestar de forma visível e correcta a sua fé, a sua aceitação da mensagem revelada, para assim alcançarem a sua salvação individual. Vai também acontecer que, no seio desse clero ou fora dele, vão surgir teólogos que vão interpretar, aprofundar, às vezes adulterar a mensagem inicial. Vai também acontecer que fiéis iluminados por essa fé (às vezes chamados de santos) vão ter revelações, visões, intuições, complementares à revelação inicial.
Ou seja, sobre a mensagem inicial revelada vão-se acumular camadas de rituais, interpretações, novas revelações, complexas teorias teológicas, que se acrescentam a ela, criando por um lado um carácter mais distintivo dessa religião mas, por outro lado, obscurecendo o essencial da mensagem inicialmente revelada, afastando progressivamente esse carácter essencial da compreensão dos fiéis. Por outro lado, todo este esforço de inteligência e de fé, de ritualização e de teologia, também contribui para uma maior dinâmica dessa religião e como tal para uma sua maior perenidade. Provavelmente aconteceria que sem toda a parafernália clerical, ritualista e teológica, a dita mensagem revelada se fosse perdendo por simples difusão, por capilaridade. Aliás, o grande fundamento das organizações religiosas é precisamente a preservação da sua Verdade Revelada. O problema tem sido sempre que essa preservação tem sido sempre feita à custa dum certo eclipse daquilo que é verdadeiramente essencial na mensagem divina.
Tenho pois para mim que a essência das revelações divinas que estão na génese das grandes religiões é muito semelhante. O que diferencia as religiões é a forma como a sociedades humanas absorvem e interiorizam essas verdades reveladas, como se organizam em torno delas, como criam uma relação biunívoca com elas. Isto é, sendo verdade que a revelação divina altera profundamente a sociedade em que ocorre também é verdade que esta sociedade, ao longo da sua evolução, também afecta e condiciona a forma como essa revelação é entendida e aplicada.
Um outro aspecto a referir é que em cada revelação histórica, Deus como Pai que é, pretende sobretudo a nossa Salvação, ou seja que a nossa natureza divina O conheça e vá ao Seu encontro. Sendo assim, o que as Religiões oferecem ao Homem é a sua Salvação. Uma vez que, como vimos essas religiões se foram diferenciando uma das outras afastando-se daquilo que era verdadeiramente essencial na mensagem divina, cada uma dessas religiões se tem assumido perante os homens como o único caminho, a única porta para a sua salvação. Podemos dizer que cada Religião, cada Igreja pretende ser uma espécie de arca de Noé fora da qual não há salvação. Tudo isto são factores que explicam que as grandes religiões tem sido normalmente divergentes e antagónicas apesar do que tem em comum naquilo que é verdadeiramente essencial.

Depois deste parágrafo alarguei-me em numerosase e enfadonhas considerações históricas. Mas o essencial do que eu queria transmitir com esta republicação é o que está acima.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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