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quarta-feira, junho 2

 

MUITOS HOMENS, MUITAS FÉS, UM DEUS (1ª parte)

No importante artigo que o Lutz aqui publicou na 2ª feira passada li isto: “quanto à questão da republicação (deste artigo) penso que poucos leitores da Terra da Alegria devem ter lido o Quase em Português há seis meses atrás”. Realmente, o Lutz teve razão em republicá-lo, pois eu também não o tinha lido. E parece ser uma verdade universal aqui na blogosfera que quando se entra em contacto com um blogue novo que nos interessa pode-se eventualmente fazer uns page downs até ao post mais antigo que aparece mas devem ser raríssimos aqueles que navegam pelos arquivos do blogues à procura dos posts inaugurais e “fundadores” onde, se calhar, é neles que o carácter e objectivo primordial do blogue pode ser compreendido. Fez por isso o Lutz muito bem em repescar aquele post para a TdA partilhando assim aquelas reflexões connosco e com aqueles que visitam a TdA. Ora estava precisamente eu a pensar em que raio de assunto iria eu hoje falar aqui, quando pensando no Lutz, me lembrei de que seria talvez interessante pôr aqui um dos primeiros posts do Guia dos Perplexos, aquele precisamente que me levou a arrancar com aquilo tudo. Dei-lhe na altura o pomposo título “A razão do ecumenismo”. Chamar-lhe-ia hoje “Muitos homens, muitas Fés, um Deus”. Parece-me pois que vou republicá-lo. Peço desculpa a quem já o tenha lido, mas sinceramente não acredito que tenham sido mais de meia dúzia de pessoas, extraordinárias e benevolentes. Vamos a isso.

Desde sempre o Homem intuiu a existência de Deus, dum Ser superior. No início, essa intuição resultou da necessidade de explicar a sua própria existência e a existência de todas as coisas. Resultou também da necessidade do Homem enfrentar a sua total fragilidade perante o Mundo e as contingências do destino. A Religião e a Fé começaram por ser resultado de uma necessidade ontológica e também da necessidade do Homem pensar que de alguma forma poderia controlar o seu destino, interpretando, influenciando e aplacando os desígnios, muitas vezes terríveis, desses Deuses que reinavam sobre o Mundo. A Religião começou pois por ser uma explicação cosmológica e também um meio para o Homem, através dos ritos, dos sacrifícios e das invocações tentar controlar um pouco melhor aquilo que influenciava a sua sobrevivência: as colheitas, as guerras, as secas, a Vida e a Morte. Chamemos a este período inicial de pré-história religiosa porque a partir de certa altura (ou de certas alturas consoante a zona do globo) a natureza do fenómeno religioso conheceu uma alteração profunda.
Com efeito, mais tarde, o Homem descobriu dentro de si algo que o transcendia, algo que sentia ligá-lo aos Deuses ou a um Deus. O Homem descobriu que havia um Deus, ou Deuses ou algo definível como um Eu Universal (Brahman, na religião Hindu), que tinha um projecto para o Homem, enquanto elemento da Sua Criação.
Deus foi revelando ao Homem, em vários momentos da História, duas coisas essenciais,
A primeira é que enquanto criaturas d´Ele, temos na nossa natureza algo d´Ele, algo que Lhe é consubstancial, algo que a nossa cultura Judaico-Cristã, tal como a Islâmica, chama Alma, mas que existe com outros nomes no Budismo, Hinduísmo, em todas as grandes Religiões.
A outra revelação é que, por forma a que a nossa alma, a nossa natureza divina, vá ao encontro de Deus, ao encontro do Seu conhecimento pleno, é necessário que o Homem consiga dominar e suplantar a sua componente material. Para isso, Deus revelou-nos em muitos momentos e lugares, em inúmeros ambientes culturais completamente diversos e, portanto, através de muitas linguagens, uma dimensão Ética para a nossa existência. Essa dimensão Ética existe, de forma naturalmente diferente em todas as religiões mas em todas elas é apontada como sendo o caminho do Homem até Deus, caminho esse universalmente considerado como o caminho da Salvação, da Perfeição, do Nirvana, ou daquilo que lhe quiserem chamar.
A noção hebraica da Aliança entre Deus e o Homem, noção fundadora desse monoteísmo ético tão inovador no tempo e no mundo em que surgiu, é no fim de contas comum a todas as grandes religiões, anteriores ou posteriores, mesmo que não sejam monoteístas. Aliás, se excluirmos as religiões animistas e as religiões a que se convencionou chamar de pagãs, temos que a fronteira entre os monoteísmos e politeísmos das grandes religiões é ténue e, sem dúvida, muito mais formal do que substancial. É sobretudo uma questão de ênfase no Deus essencial ou de ênfase nas suas diferentes manifestações ou avatares.
Temos pois que ambas as revelações, a descoberta da Alma enquanto natureza divina no Homem e a descoberta da Aliança entre Deus e o Homem estão pois intimamente ligadas, mesmo que nem sempre tenha havido consciência disso. No fundo o que o Homem descobriu no Sinai, na Mesopotâmia, na Pérsia, na Índia, na China, na Palestina, na Arábia, é que havia dentro do seu Eu algo que não era seu mas sim de Deus, algo que o aproximava, o identificava com Deus. Isto mudou tudo. A noção da Alma, do Attman, do Dharma, criou a noção do Deus Pai e criou a noção de que a Salvação é o encontro com Deus.
A aparente diversidade, que às vezes parece antagónica, entre as Grandes Religiões, tem simplesmente a ver com o facto de Deus, ao revelar-se aos Homens, ter tido de o fazer do modo apropriado à realidade cultural e civilizacional existente em cada Lugar e em cada Momento em que Se revelou. Eu direi mesmo que esse modo de Se revelar teve não só em conta a realidade contemporânea do momento de cada revelação em particular mas também com a realidade futura (potencial ou pré-determinada) desse meio e doutros meios a serem posteriormente influenciados pelo meio original.
Para mim, que sou católico, a consequência lógica e imediata desta reflexão é que se eu tenho verdadeiramente Fé em Deus, no quadro da minha Religião, se acredito realmente que Deus é Criador e nosso Pai e se revelou para possibilitar a nossa salvação, então não posso deixar de considerar as outras Religiões como verdadeiras manifestações de Fé e como consequências de verdadeiras revelações. As diferenças rituais, doutrinais, culturais, resultam disso mesmo, de diferenças culturais à altura da génese de cada Religião e durante todo o período subsequente a essa génese. A análise profunda da essência de cada uma das Grandes Religiões revela certamente muito mais semelhanças do que diferenças.
Mais do que isto: a ideia de que a verdadeira revelação e correspondente possibilidade de salvação só foi posta à disposição de uma parte da humanidade é totalmente inaceitável. Se eu considero que o Hinduísmo tem uma natureza absurda, incoerente e que foi apenas o instrumento da preservação de uma estabilidade social tutelada pela casta bramânica, como não dizer algo igualmente demolidor sobre o Cristianismo?
A negação da Verdade das outras religiões prejudica objectivamente a afirmação da Verdade da nossa. A mútua exclusão e anatemização entre Religiões é fonte, talvez a maior, do ateísmo! A assunção profunda da Verdade da nossa religião obriga-nos a aceitar e respeitar a Verdade das outras religiões. O ecumenismo e o diálogo inter-religioso não devem pois ser um esforço de tolerância: são um imperativo racional e teológico!
Simples não é? Infelizmente não é nem tem sido nada simples. A História da Humanidade é a prova de que este conceito profundo mas simples não foi por ela apreendido.
A questão perturbadora que se coloca é a seguinte: no limite, se os Homens não conseguem aceitar a verdade das religiões dos outros será então que isso poderá ser um sinal de que nenhuma delas é verdadeira, uma vez que não é concebível que apenas uma o seja?
Para entendermos isto temos que reflectir profundamente sobre a natureza do fenómeno religioso no íntimo de cada Homem mas sobretudo no seio da sociedade humana. (continua)

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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