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segunda-feira, junho 14

 

MESTRE CAEIRO: ENSINAMENTOS PARA ENCORNAR DEUS

— Porra, você é cruel ! — exclamei eu, quando o Rui Caeiro me ofereceu mais) um livro dele acerca de Deus. — Farta-se de bater no ceguinho, pá.
— Este livro, à semelhança dos outros, é o meu ajuste de contas com a educação católica a que me sujeitaram em puto — explicou-me ele, de semblante enrubescido, como um Deus apanhado, em flagrante, a praticar perversidades.

Que Deus esteja omnipresente (seja através do amor na via católica, seja disperso por todas as entidades intramundanas na via panteísta e/ou pampsiquista) na Sua criação — este espaço a que consensualmente, quase que ecumenicamente, tratamos por mundo — parece-me evidente. Que marque igual presença na Obra dum «ateu dogmático» (Vergílio Ferreira) como o Rui Caeiro, bom, é façanha de Lhe tirar o chapéu.

Para além de discorrer acerca de Deus, a morte e os gatos, o Rui Caeiro frui igual prazer em escrever sobre touros. Mais precisamente, tauromaquia. Por vezes, estas duas obsessões cruzam-se e o choque traduz-se em consequências fatais: o Caeiro dá por ele a tourear Deus (não é por acaso que um dos seus livros se chama, precisamente, «O Toureiro de Deus»).

Nesta arena decorrem despiques violentos e malignos. Os aforismos do Mestre Caeiro assumem-se como um programa pedagógico: ministrar ao leitor-discípulo os ensinamentos para encornar Deus. A única forma de pintar com as cores da alegria aquilo a que designa de «burocracia triste das relações Homem-Deus».

O último livro publicado pelo Rui Caeiro, «Olhar o Nada, Ver a Deus», editado pela Averno, é, em grande parte, um diálogo com Deus. Um diálogo que, viradas algumas páginas, se transforma num autêntico solilóquio (ou «só e louco», como diria o Alexandre O`Neill). Trata-se, reconheça-se em abono da santa verdade, de um diálogo travado a duas vozes. No entanto, bem ouvidas as vozes, verifica-se que ambas emanam de uma e da mesma garganta. Como um místico que, em pleno deserto ou chegado ao cume da montanha, encena uma conversa com o próprio eco.

Fica aqui um poema saído da pena do Rui Caeiro. Para que chegue a vós e, se possível, a Deus.

A terra sob os pés
que hesitam só eles
sabem quanto

Os pés míseros bichinhos
a fazerem
de conta

E o céu por cima
ora diáfano ora turvo
é consoante


Vitor Vicente (PATO_LOGICO)

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