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segunda-feira, junho 28

 

HISTÓRIAS DE VIDA E ALEGRIA, NESTA TERRA

Tudo começou naquela mesa de café, há cerca de dois anos atrás, quando falávamos sobre o trabalho dos voluntários.
Será que as senhoras poderiam fazer alguma coisa por aquela mulher?” – perguntou-nos o Sr. António apontando para o fundo do balcão. Vi ali uma mulher frágil, curvada pelo peso da idade, tentando acomodar o pão no saco de pano já colorido pelo tempo e pela falta de água e sabão.
Continuando a colocar as chávenas de café na mesa, o Sr. António contou tudo o que sabia. A D. Mimi (todos lhe chamavam assim) morava ao fundo da rua e durante a semana ninguém a via. Ao fim-de-semana vinha pedir alguma coisa para comer. Raramente trazia dinheiro, ocasionalmente alguma esmola que conseguia no percurso entre a sua casa e o café. O patrão dava logo alguma coisa só para ela ir embora, já que em poucos minutos o cheiro que emanava impregnava todo o espaço e alguns clientes levantavam-se de imediato. Sabia-se que tinha um filho, aí dos seus cinquenta anos, que “frequentava” o hospital psiquiátrico e residia com ela.
Quase desistimos de esperar que alguém atendesse à porta quando se abriu uma nesga da janela e uns olhos azuis, lacrimejantes, espreitaram. Depois de refeita da surpresa da nossa oferta de ajuda, lá abriu mais um pouco e contou a sua história. Morava naquela casa ia para tantos anos quantos tinha o filho. Uma porta e uma janela, para a rua onde só passava um carro de cada vez, raramente. Arranjou-lhe a casa o menino, o filho dos patrões, quando engravidou e, enquanto ele foi vivo, nunca lhe faltou nada e “as senhoras sabem como é”. Mas morreu há muitos anos, já nem sabe há quantos. E desde aí foi só miséria. Quando era nova, o filho já doente e com mau feitio, não a deixava sair de casa – se a apanhava na rua “era porrada pela certa”. Mas obrigada, não precisava de nada, tinha vivido a sua vida e a morte era certa. Recebia uma refeição do apoio domiciliário da junta de freguesia, de segunda a sexta, e restava sempre alguma coisa depois do filho comer; o pior era o fim-de-semana, mas como o filho não estava, ia ao café pedir alguma coisa. Recebia uma vale todos os meses, que não sabia de onde vinha, mas era o filho que levantava o dinheiro que não chegava a ver. Percebemos que algo a intimidava e tinha medo de abrir a porta. Voltaríamos, prometemos.
E fomos voltando, um dia e outro, para conversas à janela.
Um dia abriu a porta. A casa não tinha mais de vinte metros quadrados no total, com a cozinha ao fundo do corredor por onde se entrava e um compartimento com a janela para a rua, onde se via uma enxerga a um canto e um monte de roupa no outro. Quando era nova, “tinha sempre tudo limpo, mas agora…”. O cheiro era nauseabundo e, mesmo na penumbra, percebemos estar perante uma situação de extrema pobreza. Rapidamente sentimos a alegria das pulgas pela aquisição de sangue fresco… Há dias que não via o filho e não traziam a comida – avisaram que tinha sido cancelada por falta de pagamento.
Aceitou facilmente a primeira proposta: de alguém levar o almoço todos os dias, mas foi mais difícil negociar uma limpeza geral à casa. Para além disso, no ponto em que as coisas estavam, quem a poderia fazer? Mas há sempre alguém com uma dívida para pagar: “Oh! Senhor doutor, isto é daquelas coisas que não fazemos por dinheiro nenhum. Mas como lhe poderíamos dizer que não?” Pois, não, não poderiam dizer não. O Dr. JP é daqueles médicos a quem todos os funcionários do hospital recorrem em caso de necessidade. E quando ele pede alguma coisa – sempre para os outros – ninguém lhe diz que não: porque amor com amor se paga! Ao fim do dia o milagre tinha acontecido e a casa era outra.
Faltava o banho, porque afinal o cheiro mantinha-se. “Já não me lembro quando mudei de roupa, não consigo tirar a camisola!” Nem a Drª M (a voluntária que me acompanhava) em quarenta anos de hospital, muito menos eu, alguma vez tínhamos visto tal coisa. Todo o braço esquerdo era uma ferida que engolia a camisola. Ir ao hospital? “Nem pensar, quero morrer na minha casa.”. A Drª M tem um grande poder de persuasão. Não se vai ao hospital para morrer e não iria sozinha. Estaríamos sempre com ela.
Quando pela primeira vez a visitei no hospital, a minha preocupação centrava-se no sofrimento que o internamento lhe estaria a provocar e equacionava se os ganhos em saúde compensariam, mas a D. Mimi parecia outra. A pele limpa realçava os olhos azuis que iluminavam o rosto todo. “Como se sente? Precisa de alguma coisa?”. Com um grande sorrido respondeu “Ah! Menina, tenho lençóis lavados todos os dias e a comidinha é sempre a horas!”. É nestes momentos que melhor percebo as qualidades do nosso sistema de saúde. A D. Mimi recebeu todos os cuidados necessários e o tratamento adequado. Não foi possível eliminar o cancro que já se tinha definitivamente alojado, mas o tratamento permitiu alguma qualidade de vida e ninguém perguntou quem pagaria.
Quando a alta hospitalar se impôs foi alojada pela segurança social numa família de acolhimento para idosos (estas coisas também existem na nossa terra). Um dia, no mesmo café, alguém se aproximou e disse: “eu conheço a D. Mimi, e sei o que estão a fazer por ela, ao menos vai ter uma morte digna”.
Pensei que o que fazíamos não era por ela, mas por nós, porque toda a humanidade se degrada quando ao nosso lado um ser humano vive na degradação, mas só Respondi: “Esperemos que tenha uma vida digna no tempo que lhe resta, até à morte”. E teve. Viveu mais três meses, teve sempre lençóis limpos, comida a horas e uma mão para segurar no momento da agonia.

Marvi ((IN)FIRMUS)

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