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quarta-feira, junho 9

 

A ENCOMENDA DAS ALMAS

Com o Euro 2004 à porta, hoje jogamos em terreno escorregadio. Cresci a respeitar a devoção a Fátima e beatos e santos. Coisas de um catolicismo acrítico que despertava das amarras do Estado Novo. Mas chutemos para canto este assunto e caminhemos até Santiago de Compostela.

Em peregrinação com a selecção espanhola de futebol que se encomendou ao apóstolo, descobrimos um tipo de religiosidade que cremos própria de quase-analfabetos ou de cobradores de promessas. Afinal, Raul salta do relvado para a catedral com pontaria afinada e remata «pelos marginalizados e deserdados da Terra. Pelos que se esforçam nos estudos e no trabalho. Pelos que cuidam da nossa segurança. Pelas famílias. Pelos que se unem e organizam para fazer deste um mundo melhor».

A prece foi apresentada no domingo passado pelo capitão da equipa espanhola. O treinador Iñaki Sáez foi menos "politicamente correcto" e pediu a táctica directamente a São Tiago: «[...] Não seríamos sinceros se não vos pedíssemos fervorosamente que nos afasteis em todo o momento de lesões, que nos incutais valor nos momentos de desânimo e que, se puder ser, nos façais acreditar na vitória».

A página desportiva do jornal diário parece quase o "pasquim" da paróquia, que debita preces pelas melhoras de quem «foi este mês internado» no hospital local. E Iñaki tem direito a micro-entrevista que não quer saber das coisas da bola, mas do terreno da fé: «O Europeu é uma questão de fé», pergunta o jornalista – sublinhando o poiso da selecção de "nuestros hermanos", à sombra da Senhora do Sameiro – para uma resposta que (perdoe-se nova citação e peça-se por isso indulgência para este vosso escriba), que exige um estudo psicossociológico: «A religiosidade é uma tradição cultural com enorme força em Espanha. É claro que se queremos vencer temos que contar connosco, com a nossa capacidade. O certo é que interiormente temos sempre qualquer coisa a pedir. Primeiro a nós próprios e depois como equipa. Só pedi três coisas: que não haja lesões, expulsões ou azar com as arbitragens.»

Ainda não passámos do meio-campo, a defesa continua a trocar a bola atrás das linhas da equipa adversária, mas já percebemos que uma vitória de Espanha nos estádios portugueses será de ordem divina – ou, pelo menos, de Santiago. Por cá, não há quem não se encomende à Senhora de Fátima, com resultados práticos evidentes: o ministro da Defesa na invocação da protecção da maré negra do Prestige ou José Mourinho na sua demanda do Graal inglês com goleadas em Portugal e Genselkirchen ("qualquer-coisa-igreja, diz-me o meu fraquíssimo alemão).

Em tempos de longínquo 12º ano, pediram-me um trabalho sobre Santa Joana Princesa, padroeira de Aveiro. Não fui capaz de pensar no milagre de um jardim de Primavera que se fazia tarde de Outono em Maio, no funeral da filha de rei feita monja. Preferi lembrá-la na atenção às pequenas coisas que os biógrafos registaram – na atenção aos pobres, aos marginalizados. Como Raul, mas sem preces encomendadas. Apenas na prática do seu dia-a-dia.

Passe longo do trinco para o avançado da equipa, abrindo uma rápida frente de ataque: o que me incomoda nestas encomendas das almas é uma apropriação ilegítima de Deus, profetas e santos. A bola é só deles, e a descrença acontece na angústia dos jogadores no momento da derrota. «Meu deus, porque nos abandonaste?», grita-se aos deuses do estádio e nas alturas. Uma fé que se alimenta de cobradores de calções ou peregrinos ajoelhados – em que só se valida o crer por Ele nos responder. Ao golo, à cura, à sorte no amor e no trabalho.

Bolas! Não podemos deixar Deus, o apóstolo Tiago ou a Senhora de Fátima fora deste jogo? E dos outros que todos os dias jogamos na nossa vida? Podemos pois. Querendo. Crendo.

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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