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quarta-feira, junho 9

 

DOIS ESQUECIMENTOS

Vivemos muitas das vezes, arrastados pelo tempo. Pela cultura do tempo, suas questões e linguagem. Mas sem clarificarmos o que pensamos, sem instrumentos que o expressem, torna-se difícil recolocarmo-nos perante o que os outros pensam e dizem. Isto – como é óbvio – não implica que não reconheçamos o muito esforço que foi feito neste capítulo por muitos que partilham as nossas afinidades. E seria injusto não reconhecer o mérito do seu trabalho num mar cultural que lhes é adverso.

São notórias as tentativas de reactualizar um modo de pensar e falar específico que seja capaz de dar conta da experiência cristã. Mas, a verdade é que esse esforço demora a aparecer no dia-a-dia discursivo. Os exemplos são vários. As razões também variadas. Os exemplos que vamos usar aqui apenas pretendem evidenciar que andamos a desperdiçar conceitos e teorizações.

Por exemplo, um conceito como o do Espírito Santo, – para quem o guia dos perplexos chamou atenção em post recente – raramente é usado para dar conta daquilo que no dia-a-dia vamos fazendo. Não que não subsista como conceito a ser usado em emergência, mas é verdade que vamos esquecendo o seu uso diário, e isto tanto mais quanto a esfera onde foi actuante – considerada de menos cultura, popular, qualquer coisa do género – o usa cada vez menos, o que sem dúvida tem a ver com o progressivo perder da sua especificidade enunciativa. Hoje, como lembrou o Orwell no prima desblog, se há como sempre animais que são mais animais do que os outros, vemos aparecer no reino da animalidade, fruto da extinção das espécies, vários incentivos fiscais para o incremento da população dos papagaios.

Saindo deste registo e se entrarmos no domínio de alguns discussões mais alargadas, pois poucos serão aqueles que fora da esfera religiosa prestarão atenção ao conceito de Espírito Santo, temos também de dizer que em algumas discussões públicas raramente usamos as elaborações teóricas que temos disponíveis. Quando discutimos, por exemplo, problemáticas como as dos milagres ou da sexualidade parece que falamos como se nunca antes tivéssemos falado.

Quando nos confrontam com questões de foro sexual, confrontam-nos com a aparente aberração da abstinência sexual. Aqui, a primeira coisa que fazemos é esquecer. Não o acto sexual. Mas a argumentação que temos disponível para o seu não exercício.

Assim passamos a discutir a abstinência sexual considerando o prazer sexual como o primeiro valor de natureza individual que está em jogo na questão da abstinência. A partir daí, discutimos o prazer e o não prazer, irritamo-nos com o hedonismo, com a sociedade de consumo e seus aliados, e acabamos por esquecer que a questão do prazer é apenas uma questão derivada no modo como a abstinência sexual foi pensada na tradição crista. Assim, também não é de estranhar que deixemos que nos coloquem a questão da proibição social e da repressão comportamental como aquilo que há primeiramente a discutir na sexualidade, como se fosse isso o que de melhor podemos pensar em torno da sexualidade.

Fernando Macedo (A BORDO)

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